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Olimpia, 12 de Maio, 2019 - 19:17
Você é de esquerda, de direita, porra-louca ou apenas um escravo?

“Desde que mundo é mundo, sempre nesta história da vida, os mais espertos dominaram os incautos. Os intelectuais conseguiram construir verdades mentirosas para dominar os menos letrados. Os ricos construíram ideologias para manter os pobres na escravidão. Mudam-se os locais, o tempo, a geração, a época, mas a situação continua a mesma”.

Mestre Baba Zen Aranes.

DE TANTO ...

... ver triunfar o besteirol e ideologias baratas nas cabecinhas de nossos iletrados cidadãos, com as chamadas “Fake News” se transformando em armas nas mãos dos piores bandidos, que controlam a massa como se esta fosse constituída de meros robôs ou zumbis, resolvi tentar entender a base do golpe que foi aplicado em cima de uma legião de incultos incautos que não conseguem enxergar um palmo além do nariz.


O PATAMAR ...

... de tudo isso foi desacreditar a chamada esquerda, o comunismo (que nunca existiu), o Marxismo e até Paulo Freire, colocando nestas palavras significados vis, a pecha de que seriam os únicos responsáveis por tudo de ruim que possa acontecer e colocando na vala “defuntória” dados importantes que a história não tem como descartar.

NESTA PESQUISA ...

... surgiu um artigo do jornalista e empreendedor, Adriano Silva, que é autor de nove livros, entre eles a série O Executivo Sincero, Treze Meses Dentro da TV e A República dos Editores sobre as palavras chaves usadas como ban­deira deste movimento de banalização da política brasileira.

ESTE GRANDE ...

... contingente de alfabetizados funcionais e muitos letrados que sofreram uma verdadeira lavagem cerebral histórica não sabem nem o significado da palavra “Esquerda” que conseguiram transformar num palavrão no Brasil. Chamar alguém de “comunista” virou um xinga­mento. “Marxista” é o pior das rotulações.

O PIOR É ...

... que ninguém sabe o que está defendendo e nem falando, muito menos se preocupou em pesquisar para saber, mas morre de medo ou de raiva diante de um termo como socialismo.

ADRIANO DIZ ...

... que palavras têm poder. É preciso entender o que elas representam, em todas as nuan­ças possíveis, de modo a utilizá-las – e compreendê-las – corretamente. Você sabe o que significa ser de ”esquerda”?

NO PASSADO ...

... esquerda costumava significar comunismo ou socialismo. Se você não era a favor do capitalismo, você era de esquerda. Se você achava que o dinheiro não era o santo gral da humanidade, nem um semideus a ser adorado, nem que merecia ser a medida de todas as coisas ou a referência para regular as relações em sociedade, você era de esquerda.

DINHEIRO ...

... é riqueza circulante. Um mecanismo que regula as trocas de bens e serviços entre os indivíduos. Que conduz à competição entre eles pela conquista e estoque desse poder de compra. E que resulta em desigualdade social – uns ficam com muito mais do que precisam (e passam a não ter mais que trabalhar para ganhar dinheiro), outros ficam com muito menos do que necessitam – mesmo investindo no trabalho todo o seu tempo de vida. Então, se você era contra a ascendência do capital sobre o ser humano, e contra as desigualdades que provêm do acúmulo de poder aquisitivo, você era de esquerda.

PARA VOCÊ ...

... entender um pouco mais, ser de esquerda era buscar uma sociedade igualitária, sem privilégios de uns sobre outros, com condições mínimas de dignidade econômica garantidas a todos, sem o fosso social entre os muito ricos e os miseráveis que define tão bem, e racha tanto, um país como o Brasil.

A ESQUERDA ...

... apostava na geração de bem-estar mais pela via da política do que pela via da economia. O bem-estar viria muito mais do senso de justiça em dividir o pão existente do que dos ganhos de produtividade de produzir mais pães a preços menores.

MAS, MESMO ...

... já tendo escrito aqui várias vezes, sobre o tema, vamos para reforçar o tema, na visão do jornalista Adriano Silva. O termo “esquerda” surgiu na Revolução Francesa, no final do século 18. Os Ja­co­binos, liderados por Robespierre, que sentavam à esquerda na Assem­bleia Nacional Francesa, e que eram mais radicais na implantação do novo regime, se opunham aos integrantes do Clero e da Aristocracia, que sentavam à direita.

DE MODO GERAL ...

... foi assim, no mundo todo, ao longo de muitos anos – ser favorável aos interesses dos poderosos, da chamada classe dominante, dos detentores do capital e dos meios de produção, era ser de direita; ser favorável aos interesses dos destituídos, dos descamisados, dos que na­da tinham além da sua força de trabalho, era ser de esquerda.

NO BRASIL, ...

... no entanto, havia também, na esquerda, uma bandeira de honestidade inquestionável, de correção inflexível, de ética inegociável, quase como um ascetismo moral, uma profissão de fé – afinal, se você era contra a opressão do homem pelo homem – e essa era uma posição de esquerda – era óbvio que você tinha o coração puro.

ASSIM ...

... como era óbvio que quem estivesse do outro lado do espectro político, numa posição de direita, defendendo os privilégios estabelecidos para uns, e, por conseguinte, as injustiças impostas a outros, não tinha essa retidão, nem essa bondade, e nem podia ser boa gente. Daí que, de forma apática sempre se aceitava que os políticos de direita pudessem “roubar mas fazer” e os de esquerda tinham que ser símbolos de honestidade.

ESTE, ...

... talvez, tenha sido o principal ponto do inconsciente coletivo utilizado pelos idealizado­res da “bestialização” do Brasil, pois a crença era que os trabalhadores, explorados, quando tomassem o poder, não se pareceriam em nada com os verdugos exploradores do sistema capitalista. Afinal, atuar de modo espúrio era a prática das elites que governavam o país, e o mundo, há séculos. A exploração dos mais frágeis pelos mais poderosos era coisa de ricos – então esse não era um pecado no qual os pobres, bons selvagens, o povo escolhido, fossem incorrer. O poder, na mão da esquerda, jamais corromperia essa mão, que tinha o destino manifesto de ser redentora e de se manter imaculada.

ACONTECE ...

... que tanto os bolsões humanos de esquerda como os de direita, embora possam ter formação política diferente, são forjados numa moral regional baseada nos costumes de cada povo.

NO CASO BRASILEIRO, ...

inclusive, existe um paradoxo adicional: o individualismo à brasileira é do tipo que não dá a mínima para o outro. É um traço formativo da nossa sociedade: eu jogo lixo na rua porque isso resolve o meu problema – e os outros que se lixem. Idem para estacionar em fila dupla, furar a fila, andar pelo acostamento, bloquear a passagem num corredor ou numa escada rolante etc. Somos, a rigor, 200 milhões de folgados que têm certeza de que seu tempo, seus interesses, suas prioridades, seus desejos, suas urgências e suas demandas são mais importantes do que os do vizinho. As nossas dores são as únicas que importam.

O EGOÍSMO ...

... do brasileiro nos leva a não conseguir negociar com o próximo um território mínimo de convivência, nem, muito menos, de interesses em comum, o que não nos permite construir nada conjuntamente. Trata-se de uma postura (auto)destrutiva, porque nos coloca num permanente estado de guerra entre iguais.

POR ISSO ...

... a vida social no Brasil é um ambiente de grande tensão – quem não leva vantagem é subtraído, se você não for malandro, vira otário. Nem mesmo a Lei, a zona neutra, as regras básicas que todos deveriam seguir, e que servem para regular a beligerância entre os indivíduos num país movido à competição, como os Estados Unidos, é respeitada no Brasil. Aqui a lei vale de modo diferente para uns e para outros, dependendo do poder da pessoa envolvida.

ESTE ...

... individualismo delin­quente praticado no Brasil é um empecilho à própria utopia liberal. Com essa cepa de egoísmo, é impossível gerar o bem comum – seja num modelo de esquerda, seja numa engrenagem capitalista desenhada para levar isso em consideração.

A CONOTAÇÃO ...

... da esquerda sempre foi a do herói, do mártir, do cara que briga por justiça e por um mundo melhor. Eis o arquétipo de esquerda – Robin Hood, que tira dos ricos para dar aos pobres. Já a conotação da direita sempre foi a do vilão, do cara que briga para manter no mundo as injustiças que lhe favorecem. Eis o arquétipo da direita – Príncipe John, o usurpador.

AO LONGO ...

... do século 20, ser de esquerda era também ser um pouco maldito, consequência de confrontar os poderosos – uma contrapropaganda da qual, aliás, Robin Hood também se ressentia. Um dos efeitos da Ditadura Militar no Brasil é que, ao longo de duas décadas, ser de esquerda também passou a representar a coragem de resistir. Diante do tacão da direita totalitarista, era quase óbvio, por oposição simples, para qualquer pessoa decente, ou minimamente pensante, ser um pouco de esquerda. (Era fácil posicionar-se à esquerda.) Debaixo dos coturnos, ser contra o regime dos generais, contra a tortura, ser democrata, defender a liberdade para o povo e os direitos dos trabalhadores era quase uma questão de caráter – e tudo isso implicava se posicionar à esquerda. A Ditadura, apoiada pelos Estados Unidos, fez muito mal para a reputação do capitalismo no Brasil.

A TRUCULÊNCIA ...

... dos militares gerou vítimas e mártires do outro lado. E, em consequência disso, um senso de heroísmo atrelado à esquerda. Essa visão da esquerda co­mo o espírito encarnado de Zorro foi crescendo no Brasil até ela assumir o poder central do país, em 2002. Aí, pela primeira vez em nível federal, a esquerda virou situação por aqui. O auge do orgulho abriu espaço para grandes expectativas, envoltas numa sensação de sonho virando realidade.

A PARTIR ...

... daí, aquela imagem começou a mudar. Não se tratava mais do agente subterrâneo, disposto a pegar em armas contra a tirania dos poderosos. Nem do velho esquerdista boêmio e boa-praça. Nem do intelectual marxista, estudioso das teorias filosóficas que sustentam o pensamento de esquerda. Nem do herói popular aguerrido, oriundo da massa oprimida. A esquerda, no país, deixou de ser avaliada pelo que diz, e passou a ser cobrada pelo que faz.

COMO RESULTADO, ...

... a esquerda entrou na berlinda. Perdeu seu maior ativo – o seu discurso histórico. Como um pregador que não pudesse mais lançar mão de seu evangelho. A crise ética defla­grada no seio da esquerda, abo­ba­lhada pelo impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, e pela prisão de Lula, em 2018, não apenas expôs os atos da esquerda no poder, invertendo o sentimento de grande parte das pessoas em relação àquelas promessas, como gerou uma reação conservadora de grandes proporções – pela primeira vez, em mais de meio século, desde o Golpe Militar, se tornou possível no Brasil alguém se assumir de direita, e até de ultradireita, à luz do dia, sem ser considerado apenas um lunático ou um facínora.

DE TODO MODO ...

... é por conta daqueles arquétipos clássicos que o malfeito nos soa menos ofensivo num cara de direita – em relação ao qual jamais nutrimos grandes expectativas – do que num cara de esquerda – que trai a fala puritana no qual depositamos nossa Fé. Nos agride muito mais sermos avassalados por alguém que acreditávamos ser um anjo do que por alguém que já sabíamos ser um demônio.

SOMOS ENGANADOS ...

... por enganadores históricos e profissionais, que já estavam de algum modo contabi­li­zados na coluna das perdas e danos, tudo bem. Do ladrão confesso, do bandido óbvio, do meliante autoevidente, não esperamos nada. Ou melhor: já esperamos dele o pior. (E às vezes até nos surpreendemos positivamente, quando ele deixa uma fatia de pão sobre a mesa, depois de afanar o café da manhã.)

MAS ...

... quando quem se revela bandido tinha a nossa confiança, embalava o nosso sonho e empunhava a nossa bandeira, nos sentimos profundamente ofendidos. Sermos enganados por quem nos enganava justamente fingindo não ser um enganador, ah, isso não. Aí é pessoal. É acinte. Nosso monge simplesmente não tem o direito de fazer igual ou pior do que os bandoleiros que ele excomungava em seu discurso beatífico.

José Salamargo, fazendo dele as palavras do jornalista Adriano Silva que escreve no UOL, e cada vez mais preocupado com um futuro que está aí, escancarado na nossa frente e que é uma grande interrogação. Mas contente, por você ter conseguido chegar até aqui, pois, pelo menos, se já não havia atentado para essa assertiva, com certeza terá um pouco mais de alimento para tentar enxergar o que aconteceu e ... principalmente ... descobrir se você é de esquerda, de direita, porra-louca ou apenas um escravo. Responda você pra você mesmo!


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