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Olimpia, 12 de Agosto, 2018 - 20:00
Curupira, ou... ignorâncias folclóricas de Fernandos e Gênios

Willian A. Zanolli

Após intensa busca, investigação aprofundada, possuído pelo espírito do brilhante e incansável folclorista, professor e advogado, José Sant”Anna, que esteve por um período na França, da mesma forma que nosso venerado, estimado, simpático e educado ex-prefeito Luiz Fernando.


O professor folclorista conhecia como poucos a história, prometi ao mestre quando da polêmica travada a respeito de entregarem ou não a chave da cidade para o Curupira durante a semana do Folclore, que defenderia com unhas e dentes, se necessário fosse, a permanência deste e de outros mitos nos festejos folclóricos de nossa cidade.

À época não foi preciso, o prefeito de então, melhor ouvinte, ou ditador mais preparado para o cargo, cedeu às argumentações do folclorista e manteve a tradição, independente da contrariedade de uns poucos ignorantes da história pátria.

Dr. Carneiro, no entanto, não por instinto demagógico e populista, talvez por inocência, e puro dos meandros da política, e pouco ou nada afeito aos debates culturais que envolve tal gesto, quedou, nos idos dos anos 2000, quer me parecer, segundo as vontades de luteranos e calvinistas mal informados, sob a condução de um ex-vereador, que, segundo consta, não reza na cartilha do catolicismo, até que se prove o contrário.

Da mesma forma, quer me parecer não o era a cidadã que ocupava a condição de coordenadora dos festivais, que  comungava e comia, como outros do sal batismal da pia carneirista onde eram bentos e ungidos e, por isto, responsabilizados pela atitude que contraria profundamente desejo expressado pelo folclorista morto.

Deveriam, por ocuparem cargos de mando, e estarem em função disto sujeito a críticas e comentários, terem mais zelo e preocupação ao endossarem atitudes que não beneficiam em nada a cultura nacional.

Da mesma forma, desculpe-me o primeiro mandatário, Luiz Fernando, moço, que, segundo dizem, teve a oportunidade de estudar e conhecer a paisagem da França, que deveria ter a preocupação para que sua brilhante capacidade de síntese não seja, ou fosse, ofuscada por uma decisão que pode comprometê-lo do ponto de vista intelectual junto a comunidade acadêmica.

Tudo começou nesta época. Anos 2000. Ao depois, veio Eugênio e, da mesma foram sucumbiu. Agora foi a vez do outro Fernando que preferiu ficar estático. Também foi subvertido.

Mas, voltando ao início, no início de tudo, do governo do médico e pouco tempo após a morte do mestre, o ex vereador, passemos, trans...deixa pra lá, nada mais fez que dar atenção a seu exagerado populismo, pensando ou fingindo levar os aclamos e anseios legítimos de seus eleitores luteranos e calvinistas ao conhecimento do Dr. Carneiro, e da coordenadora dos folclores, que deveriam, atentamente, com tempo, estudar, analisar friamente, depois tomar uma decisão, pois a que tomaram, é uma pena não poder escrever aqui o termo exato, e por isto deixaremos para um simples, foi desastrosa, na minha opinião.

Senão vejamos:

Tivessem no seu tempo de escola prestado atenção, com o carinho que as aulas de história merecem, não tivessem lido de forma desinteressada tudo que se escreveu sobre o padre José de Anchieta, perceberiam a tremenda gafe que cometeram os do Fernando de antanho, os do Gênio do passado recente e o do Fernando atual.

Há tempo, que sempre é tempo, tenham cuidado de se debruçarem sobre o livro “Cartas Inéditas”, impresso pela Fundação Getúlio Vargas, no capítulo XLVI, intitulado: “ No tempo em que estas coisas foram escriptas, julgavam que os demônios podiam produzir a morte, ou ferimentos nos indígenas”.

Assim se manifesta Anchieta:

“Isto é o que eu tinha a que dizer a respeito das árvores, das hervas e das pedras, pouco terei a acrescentar a respeito daquelas coisas, que costumam assustar os índios, em aparições nocturnas, ou antes demônios.

Coisa muito sabida é, corre pela boca de todos, que há certos demônios, que os brazis chama corupira, que muitas vezes atacam os índios, nos bosques açoitam, atormentam e matam.

Deste facto são testemunhas alguns de nossos irmãos (85) que algumas vezes tiveram ocasião de ver os assassinados por eles.

Por esse motivo, os índios costumam deixar penas de aves, abanicos, flechas e outras cousas como estas, em qualquer parte da estrada que leva ao sertão, através das cerradas mattas, onde alcantiladas serras, quando passam por lá; como uma oferenda, e humildemente imploram ao corupira que lhes não faça mal”.

No rodapé, nota do autor do livro, que transcrevemos por ser de interesse da discussão.

“Não é de admirar que Anchieta, homem de grande piedade, desse crédito a certos delírios dos índios, quando em muitos doutos escritores de todos os tempos se encontram, a cada passo, casos horríveis de espectros, de bruxa, de lêmures e de demônios.

Porém, que homens mentirosos, fanáticos e perversos, que abusam da credulidade, da ignorância e da fragilidade dos outros, para sua utilidade, ou para realizar uma vingança, dos mesmos escritos unicamente se conclue que existiram em todas as nações”.

Continuemos a chatíssima aula de história :

Anchieta não parou por ai, após o Curupira, demonizou o Igupiara, o Boitatá, e foi demonizando, destruiu porção significativa da cultura indígena, e não parou por ai.

Anchieta, não apenas considerava satânicos os mitos indígenas, mas tudo que não os levasse a conversão, conversão para o catolicismo. Neste bojo estão incluídos os luteranos e calvinistas, e parte do povo francês é constituída de lute­ranos, portanto, não católicos.

Entraremos agora, com interessante trecho da tese de mestrado de Ednilson Aparecido Quarenta “Teatro de Anchieta, demonização e catarse no Brasil”

“Nesse sentido, a chegada ao Novo Mundo transformou-se numa vertente contemporânea das antigas Cruzadas. Contudo, ao contrário de mouros, muçulmanos e judeus, a Santa Sé e os seus interlocutores inacianos tinham agora a concorrência dos porta vozes de Lutero e Calvino, acrescidos de selvagens e pagãos destas Índias Ocidentais”.

“Sequer o olhar frente aos nativos. De um lado, os colonos insistiam em moldá-los com uma imagem bárbara e bestial para assim justificar a sua natural escravidão e, de outro, uma tática teoricamente intermediária dos inacianos: só os não conversos entravam no rol dos condenados à servidão”.

“Gilberto Freire tocou nesse mesmo problema ao ponderar que, embora desprestigiando e ridicularizando uma das principais festas indígenas, não conseguiram os jesuítas eliminar por completo os “resíduos” da cultura ameríndia: as danças de “jurupari”- semelhante a um diabo na cultura nativa”, tinham por finalidade imputar medo e assim ordenar às mulheres e às crianças. Espécie de bicho papão local.

“O autor (Anchieta) parece irritado com os repentinos problemas na aldeia, faz disto o seu mote e descarrega contra a religiosa dissidência a pecha dos inóspitos males, A escarrada é direta “Com Mafona e com Lutero, com Calvino e Melantão, te cubra tal maldição”.

...Lúcifer parece mais sóbrio e em tempo adverte a prepotência de seu comandado: “Tais façanhas farás tú nas Alemanhas que tuas mentiras crêem, nas Franças e nas Espanhas. Mas no Brasil, tuas manhas poucas medras têm”.

“A ordem de Loyola, que primava por fidelidade, assistia resignada aos distúrbios políticos que enfraqueciam e desarticulavam a hierarquia e o comando local, abrindo espaço para periódicas inserções de inimigos externos ou internos.”

“O tom das falas beira a imposição. O discurso cético e direto apresenta, num só fôlego, todos os incômodos que rondam o inanimado Temor. Acusa a cegueira e a falta de credulidade do mundo que fez descê-lo ao fogo do inferno. Incita e blasfema contra uma certa passividade ao corrente do mal, crava dizeres e finca maldições sobre as liturgias indígenas, em especial aquelas que rememoram os rituais de antropofagia, a homilia é frontal e não contemporiza as suas penas: “A cama, em que hás de jazer, há de ser em “ bichos que te hão de roer, os quais nunca hão de morrer, com bravo ranger de dente” .

Assim os autos de Anchieta não valem apenas pela sua dimensão literária ou artística, muito pelo contrário, eles se constituem testemunhos orgânicos e históricos de toda uma época. Testemunhos de um violento e incansável processo de aculturação e destruição dos núcleos naturais das comunidades tupis e da constituição de uma nova geografia local: as aldeias de conversão.

Esperamos assim ter dado pequena contribuição a todos os envolvidos que deveriam ter se debruçado sobre as obras de José de Anchieta, que mesmo não sendo, ou sendo católicos, poderiam com carinho começar por ler José de Anchieta, que com acertos e desacertos, ajudou e prejudicou a comunidade indígena e a nós brasileiros, quando interfere e contribui para aniquilar usos e costumes das nações indígenas para impor sua crença.

Não o fez por mal, sabemos, e cremos nisto, e possivelmente, meu douto amigo, falecido, professor, advogado, folclorista, tinha muito claro que o Curupira e todas as lendas e mitos dos indígenas, assim como os franceses, alemães, espanhóis, luteranos e calvinistas, eram o demônio para o catolicismo, e para Anchieta.

Resta saber se os luteranos e calvinistas de hoje abominam o Curupira por terem sido associado ao satanás no passado, ou por desconhecimento da história, ou por pura ignorância.

Pois, há que se concluir, por lógica e bom senso, que para um ou vários representantes do catolicismo o Curupira e outros mitos, além dos luteranos e calvinistas, eram diabólicos. Assim sendo, os seguidores do catolicismo, entendiam os mitos indígenas, e, portanto o Curupira, como demoníaco e todas as dissidências do catolicismo.

Os católicos reviram seu pensamento, meditaram em relação ao equívoco e não têm mais o curupira e outros mitos como diabólicos e convivem em plena harmonia com as diferentes visões do cristianismo, enquanto em Olímpia os luteranos e calvinistas reconheceram o diabo, que também foram para o catolicismo, no curupira, depois de séculos, sem entenderem, que reconhecem a si mesmo e endossam a tese da subjugação anchie­tana. Pior que isto, contribuem, como Anchieta, inconscientemente, para a destruição da nossa cultura, buscando diabos onde não existem.

E nossas autoridades carneiristas, eugenianas e cunhistas provam a total ignorância das questões folclóricas e históricas, mais que isto, o distanciamento total de toda e qualquer discussão mais aprofundada de temas culturais, se orgulhando de ser capital daquilo que desconhecem, contrariando o desejo de quem conhecia.

 

Willian A. Zanolli é artista plástico e sugere, que pessoas que ignoram, como eu, determinadas coisas, ou situações, que tenham a humildade de reconhecerem a ignorância, como eu, e não pretendam, de maneira alguma se manifestar sobre o que não tiveram a oportunidade de saber.

 


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