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Olimpia, 21 de Outubro, 2018 - 22:09
Milhões de entorpecidos convencidos por mentiras repetidas à exaustão

COM O ABANDONO ...

... temporário de Mestre Baba Zen Aranes, que se recolheu ao seu templo no topo de uma montanha próximo a Itacaré na Bahia, o jeito foi imergir no pensamento e aprofundar um pouco mais nas profundezas do momento atual, através de um artigo publicado recentemente pelo filósofo, Rafael Azzi, Doutor em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e Mestre em Estética e Filosofia da Arte pela Universidade Federal de Ouro Preto.


COM O TÍTULO ...

... “Sua tia não é fascista, ela está sendo manipulada”, Rafael publicou o artigo no site “jornalistas livres” na internet que até foi transformado em um vídeo que tem circulado no Youtube.

ESTE JORNALISTA, ...

... após assistir ao vídeo, para pesquisar sua veracidade e quem era o porta-voz de tal mensagem, encontrou o escrito no referido site, que começa com as seguintes indagações:

“Você se pergunta como um candidato com tão poucas qualidades e com tantos defeitos pode conseguir o apoio quase que incondicional de grande parte da população? Você já tentou argumentar racionalmente com os eleitores deles, mas parece que eles estão absolutamente decididos e te tratam imediatamente como inimigo no mais leve aceno de contrariedade? Até sua tia, que sempre gostou de você, agora ataca seus posts sobre política no Facebook?”

AZZI RESPONDE: ...

...”Pois bem, vou contar uma história. O principal nome dessa história é um sujeito chamado Steve Bannon. Bannon tinha uma visão de extrema direita nacionalista. Ele tinha um site no qual expressava seus pontos de vista que flertavam com o machis­mo, com a homofobia, com a xenofobia etc. Porém, o site tinha pouca visibilidade e seu sonho era que suas ideias se espalhassem com mais força no mundo.

DAQUI EM DIANTE ...

... este colunista vai reproduzir na íntegra o referido artigo, portanto, entendam que até o penúltimo parágrafo o texto será o publicado por Rafael Azzi no site “Jornalistas Livres”.

PARA ISSO, ...

... Bannon contratou uma empresa chamada Cam­bri­dge Analytica. Essa empresa conseguiu dados do Face­book de milhões de contas de perfis por todo mundo. Todo tipo de dado acumulado pelo Facebook: curtidas, comentários, mensagens privadas. De posse desses dados e utilizando algoritmos, essa empresa poderia traçar perfis psicológicos detalhados dos indivíduos.

TAIS PERFIS ...

... seriam, então, utilizados para verificar quais indivíduos estariam mais predispostos a receber as mensagens: aqueles com disposição de acreditar em teorias cons­pi­ratórias sobre o governo, por exemplo, ou que apresentavam algum sentimento de contrariedade difuso ao cenário político atual.

A ESTRATÉGIA ...

... seria fazer com que esse indivíduo suscetível a essas mensagens mudasse seu com­portamento, se radicali­za­s­se. Como as pessoas passaram a receber as notícias e a perceber o mundo principalmente através das redes sociais, não é difícil manipular essas informações. Se você pode controlar as informações a que uma pessoa tem acesso, você pode controlar a maneira com que ela percebe o mundo e, com isso, pode influenciar a maneira como se comporta e age.

POSTS ...

... no Facebook podem te fazer mais feliz ou triste, com raiva ou com medo. E os al­go­ritmos sabem identificar as mudanças no seu comportamento pela análise dos padrões das suas postagens, curtidas, comentários.

ASSIM, ...

... indivíduos com perfis de direita e seu tradicional discurso “não gosto de impostos” foram radicalizados para perfis paranóicos em relação ao governo e a determinados grupos sociais. A manipulação poderia ser feita, por exemplo, através do medo: “O governo quer tirar suas armas”. Esse tipo de mensagem estimula um sentimento de impotência e de não ser capaz de se defender. Estimula também um sentimento de “somos nós contra eles”, o que fecha a pessoa para argumentos racionais.

SITES E BLOGS ...

... foram fabricados com notícias falsas para bombardear diretamente as pessoas influenciáveis a esse tipo de mensagem. Além disso, foi explorado também um sentimento anti-establishment, anti-mídia tradicional e anti “tudo isso que está aí”. Quando as pessoas recebiam várias notícias de forma direta, e não viam essas notícias repercutirem na grande mídia, chegavam à conclusão de que a grande mídia mente e esconde a verdade que eles tem.

SE ANTES ...

... a mídia tradicional podia manipular a população, a manipulação teria que ser feita abertamente, aos olhos de todos. Agora, todos temos telas privadas que nos mandam mensagens diretamente. Ninguém sabe que tipo de informação a pessoa do lado está recebendo ou quais mensagens estão construindo sua percepção de realidade.

COM ESSE ...

... poder nas mãos, Bannon conseguiu popularizar a alt right (movimento de extrema-direita americana) entre os jovens, que resultou nos protestos “unite de right” no ano passado em Char­lottes­ville, Virgínia, que tiveram a participação de suprema­cis­tas brancos. Bannon trabalhou na campanha presidencial de Donald Trump e foi estrategista de seu governo. A Cambridge Analytica trabalhou também no referendo do Brexit, que foi vencido principalmente por argumentos originados de fake news.

QUANDO ...

... a manipulação veio à tona, Mark Zuckerberg foi chamado ao Senado americano para depor. Pra quem entendeu o que houve, ficou claro que a democracia da na­ção mais importante do mundo havia sido hackeada. Mas os congressistas pouco entendimento tinham de mídia social; e quem estaria disposto a admitir que a democracia pode ser hackeada através da manipulação dos indivíduos?

ZUCKERBERG ...

... estava apenas pensando em estabelecer um modelo de negócios lucrativo com a venda de anúncios direcio­na­dos. A coleta de dados e a a­va­liação de perfil psicológico das pessoas tinham a intenção “inocente” de fazer as pessoas clicarem em anúncios pagos. Era apenas um modelo de negócios. Mas esse mes­mo instrumento pode ser usado com finalidade política.

ELE SE DEU ...

... conta disso e sabia que as eleições brasileiras podiam estar em risco também. Somos uma das maiores democracias do mundo. O Face­book tomou medidas ativas para evitar que as campanhas de desinformação e manipulações ocorressem em sua rede social. Muitas contas fake e páginas que compartilhavam informações falsas foram retiradas do Facebook no período que antecede as eleições.

MAS NÃO ...

... contavam com a capilarização e a populari­zação dos grupos de Whats­App. WhatsApp é um aplica­tivo de mensagens diretas entre indivíduos; por isso, não pode ser monitorado externamente. Não há como regular as fake news, portanto. Fazer um perfil fake no Whats­App também é bem mais fácil que em outras redes sociais e mais difícil de ser detectado.

LEMBRAM DO ...

... Steve Bannon, que sonhou com o retorno de uma extrema direita nacionalista forte mundialmente? Que tinha ideias que são classificadas como anti-minorias, racistas e homofóbicas? E que usou um sentimento difuso anti “tudo que está aí”, e um medo de os homens se sentirem indefesos para conquistar adeptos?

POIS BEM, ...

... ele se encontrou em agosto com Eduardo Bolso­naro. Bolsonaro disse que o Bannon apoiaria a campanha do seu pai com suporte e “dicas de internet”, essas coisas. Bannon é agora um “consultor eventual” da campanha. Era o candidato ideal pra ele, porque compartilhava suas ideias, no cenário ideal: um país passando por uma grave crise econômica com a população desiludida com a sua classe política.

LOGO DEPOIS ...

... de manifestações de mulheres nas ruas de todo o Brasil e do mundo contra Bolso­naro, o apoio do candidato subiu, entre o público feminino, de 18 para 24 por cento. Um aumento de 6 pontos depois de grande parte das mulheres se unir para demonstrar sua insatisfação com o candidato.

ISSO ACONTECE ...

... porque, de um lado, a grande mídia simplesmente ignorou as manifestações e, por outro, houve um ataque preciso às manifestações através dos grupos de Whats­App pró-Bolsonaro. Vídeos foram editados com cenas de outras manifestações, com mulheres mostrando os seios ou quebrando imagens sacras, mas utilizadas dessa vez para desmoralizar o movimento #Elenão entre as mais conservadoras.

ALÉM DISSO, ...

... Eduardo Bolsonaro veio a público logo após a manifestação e declarou: “As mulheres de direita são mais bonitas que as de esquerda. Elas não mostram os peitos e nem defecam nas ruas. As mulheres de direita têm mais higiene.” Essa declaração pode parecer pueril ou simplesmente estúpida, mas é feita sob medida para estimular um sentimento de repulsa para com o “outro lado”.

ISSO NÃO ...

... é nenhuma novidade. A máquina de propaganda do nazismo alemão associava os judeus a ratos. O discurso era que os judeus estavam infestando as cidades alemãs como os ratos. Esse é um discurso que associa o sentimento de repulsa e nojo a uma determinada população, o que faz com que o indivíduo queira se identificar com o lado “limpo” da história. Daí os 6 por cento das mulheres que passaram a se identificar com o Bolsonaro.

AGORA É ...

... possível compreender por que é tão difícil usar argumentos racionais para dialogar com um eleitor do Bolsonaro? Agora você se dá conta do nível de manipulação emocional a que seus amigos e familiares estão expostos? Então a pergunta é: “O que fazer?”

NÃO ADIANTA ...

... confrontá-los e acusá-los de massa de manobra. Isso só vai fazer com que eles se fechem e classifiquem você co­mo um inimigo “do outro lado”. Ser chamado de manipulado pode ser interpretado como ser chamado de burro, o que só vai gerar uma troca de insultos improdutiva.

TENHA EMPATIA! ...

... Essas pessoas não são tolas ou malvadas, elas estão tendo suas emoções manipuladas e estão submetidas a uma percepção da realidade bastante diferente da sua.

TENTE TRAZÊ-LAS ...

... para a razão. Não ofereça seus argumentos racionais logo de cara, eles não vão funcionar com essas pessoas. A única maneira de mudar seu pensamento é fazer com que tais pessoas percebam sozinhas que não há argumentos que fundamentem suas crenças e as notícias veiculadas de maneira falsa.

ISSO SÓ ...

... pode ser feito com uma grande dose de paciência e de escuta. Peça para que a pessoa defenda racionalmente suas decisões políticas. Esteja aberto para ouvi-la, mas continue sempre perguntando mais e mais, até ela perceber que chegou num ponto em que não tem argumentos para responder.

PERGUNTA, ...

... por exemplo: “Por que você decidiu por esse candidato? Por que você acha que ele vai mudar as coisas? Você acha que ele está preparado? Você conhece as propostas dele? Conhece o histórico dele como político? Quais realizações ele fez antes que você o aprovasse?”

EM MUITOS ...

... casos, a pessoa tentará mudar o discurso para falar mal de um outro partido ou do movimento feminista. Tal estratégia é esperada porque eles foram programados para achar que isso representa “o outro lado”, os inimigos a combater.

NESSE CASO, ...

... o caminho continua o mesmo: tentar trazer a pessoa para sua própria razão: “Por que você acha que esse partido é tão ruim assim? Sua vida melhorou ou piorou quando esse partido estava no poder? Como você conhece o movimento feminista? Você já participou de alguma reunião feminista ou conhece alguém envolvido nessa luta?”

SE PERCEBER ...

... que a pessoa não está pronta para debater, simplesmente retire-se da discussão. Não agrida ou nem ofenda, comportamento que radica­lizaria o pensamento de “somos nós contra eles”. Tenha em mente que os discursos que essa pessoa acredita foram incutidos nela de maneira que houvesse uma verdadeira identificação emocional, se tornando uma espécie de segunda identidade. Não é de uma hora pra outra que se muda algo assim.

DUAS DAS ...

... mais importantes democracias do mundo já foram hackeadas utilizando tais técnicas de manipulação. O alvo atual é o nosso país, com uma das mais importantes democracias do mundo. Não vamos deixar que essas forças nos joguem uns contra os outros, rasgando nosso tecido social de uma maneira irrecuperável.

POR FIM, ...

... não desanime, pesquise extensamente sobre todo e qualquer assunto que foi exposto aqui, e sobre o qual você esteja em dúvida.

José Salamargo – parafraseando o autor Rafael Azzi, que, assim como este colu­nista, não é de nenhum partido. Somos filósofos e, como tal, nos interessamos pela busca da verdade, pela ética e pelo verdadeiro debate de ideias: “Sua tia não é fascista, ela está sendo manipulada”.

 


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