13 de dezembro | 2015

Johnny, o cão anarquista “Graças a Deus”

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“O whisky é o melhor amigo do homem, ele é o cachorro engarrafado.”
Vinicius de Moraes

Domingos Passos

Por aí [email protected] chamavam-no de Jhonny. Boi sempre foi para os mais íntimos. Talvez por isso que preferia manter a duvida no ar. Não dava boi pra ninguém. Por estatura não muito avantajada se aproximava muito de um Davi, corajoso por excelência. Já por outro turno, nunca rezou a cartilha dos tais mandamentos, pois não se interessava pelas recompensas de seu povo, e muito menos pela escravização de seus adversários. Era um Dionísio por profissão. Sua meta? Destruir garrafas plásticas. Amassava todas que encontrava pelo caminho, perdendo igualmente ao iconoclasta russo a maioria de seus dentes para os polímeros do PET. Todavia, o “Loukanikos” olimpiense jamais deixou de carimbar nos espaços públicos seu território pela liberdade. E por incrível que pareça, nesse quesito sempre manteve cautela por onde passava. Fazia questão de economizar nas águas que saiam pelo joelho. Às vezes, quando o caminho se estendia, procurava colocar os pingos nos is, já que cada gota derramada valia ouro em tempos de seca. Quando encontravam em suas jornadas diárias outros de sua espécie, ou não, não media esforços em sua caninofagia, procurando num eco rouco de um latido estridente situar as fronteiras da ainda presente dependência cultural brasileira. Sem embargo, sobre os ares da timidez, num impulso impetuoso, parece não ter concordado com as teses do homem cordial em pleno século XXI. Ao bem da verdade, quando ele estraçalhou a pagina 93 do livro, num primeiro momento não se sabia o que queria dizer. Depois de um tempo, sobre os fragmentos juntados um a um, como alguém que monta um quebra cabeças, foi possível compreender seu sinal de desabafo. De ponta cabeça, era possível ler em latim seus latidos: “Re-vo-lu-tio”. Daí que procurando em um dicionário, mais alem do que um tradutor de palavras e sentimentos, poderia se compreender sua vontade de “dar voltas”. De tão banal, a vontade transformou-se em potencia. Das amalgamas de suas “tendi-Nietzsches” causadas pelas seringas da Potenze Dell”Asse, a celebre frase de Marx ganhava impulso em seu caminhar. O próprio animal ensinava com seus latidos que “a anatomia do homem nos da a chave para compreender a anatomia do macaco”. Nada mais obvio hoje, do que defender o obvio. E assim seguiu. De olhos fechados, num ensaio a cegueira, indo ao encontro de Saramago dizer que ele estava coberto de razão quando assinou o papel em 2007. Como diria o poeta português, não necessitamos, para intervir e ser, de autorizações nem de permissões de ninguém, basta-nos saber que somos humanos e que queremos contribuir para o processo de humanização de que um mundo em permanente processo de desumanização necessita. Ser comunista é um estado de espírito. É compreender as contradições do mundo moderno em vias de superação. Não por acaso, antes mesmo de seu ultimo suspiro, e mesmo aquém de sua visão, seus instintos falando por si só regurgitaram seus prazeres quando em vida. Santa inocência de um animal que domestica seu próximo da forma mais sutil e compreensível que há no mundo. A incondicionalidade plena de um amor recíproco que ensina, educa, e aprende com o fazer do “ser” humano. Talvez tenha sido por isso, ou um pouco daquilo que nem mesmo sabemos por que o grande escritor Victor Hugo escreveu àqueles que possuem um cão: -Se você olhar nos olhos de seu cão, como você pode ainda duvidar que ele tem uma alma?.   / ass:

Domingos Passos

 

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