16 de fevereiro | 2025
O silêncio ensurdecedor da sociedade conectada
Tecnologia, ansiedade e isolamento: o preço de um mundo que desaprendeu a ouvir.

A velocidade com que as transformações ocorrem provoca instabilidade financeira e emocional. No campo econômico, o modelo vigente prioriza o lucro em detrimento da distribuição de renda, e a substituição da mão de obra pela automação já é uma realidade que impacta diversas camadas da sociedade. O medo da obsolescência profissional se soma à precarização das relações de trabalho, aumentando a ansiedade e a incerteza quanto ao futuro.
O CONSUMO
COMO REFÚGIO E ARMADILHA
A lógica do capitalismo selvagem criou o fetiche do consumo e a ilusão de que felicidade está diretamente ligada à posse de bens materiais. O bombardeio de estímulos publicitários impõe o desejo de adquirir, ter e ostentar, tornando o ato de comprar não apenas um hábito, mas uma necessidade psicológica.
Quando a realidade econômica se impõe e a capacidade de consumo diminui, instala-se um estado de frustração, ansiedade e, muitas vezes, de depressão. O sentimento de inadequação diante de um mundo que exige constante atualização — seja de bens, conhecimento ou aparência — reforça a sensação de insuficiência e a perda da autoestima.
A TECNOLOGIA
E O VAZIO EXISTENCIAL
Se por um lado a tecnologia trouxe avanços inegáveis, por outro, também acentuou o isolamento social. As redes sociais, paradoxalmente, conectam e afastam. A promessa de interação ilimitada resulta, muitas vezes, na substituição dos laços reais por relações superficiais e efêmeras, mediadas por telas.
A dependência do celular e das redes sociais criou um cenário em que pais não conversam mais com filhos, irmãos mal se falam e amigos se tornam apenas ícones piscando em uma tela. O contato humano perde espaço para notificações e feeds intermináveis, resultando em uma sociedade cada vez mais solitária, ansiosa e carente de conexão real.
O TEMPO QUE ESCORRE PELOS DEDOS
A aceleração do cotidiano imposta pela era digital não deixa espaço para pausas. Tudo precisa ser imediato, rápido, instantâneo. A pressa se torna regra, e a falta de tempo para a convivência social se agrava. A introspecção é substituída pela necessidade de estar sempre atualizado, sempre conectado, sempre produzindo.
Esse ritmo frenético compromete não apenas as relações interpessoais, mas também a saúde mental. O excesso de estímulos gera fadiga mental, prejudica a concentração e compromete a capacidade de refletir e questionar. A sociedade, cada vez mais dependente da validação externa, perde a autonomia sobre seus próprios pensamentos e emoções.
A ARTE DE OUVIR:
UMA NECESSIDADE URGENTE
Diante desse quadro, a solução passa por um resgate das relações humanas. É preciso reaprender a escutar, a dialogar, a estar presente de fato. A escuta ativa, habilidade esquecida na era da comunicação digital, pode ser um antídoto para o isolamento emocional e o sofrimento psíquico.
Rubem Alves, em uma de suas crônicas, observou com perspicácia que “todo mundo quer se matricular em um curso de oratória, porém ninguém se interessa em aprender a ‘escutatória’”. A sabedoria de suas palavras se faz mais necessária do que nunca: ouvir é um ato de acolhimento, de empatia, de conexão verdadeira.
REAPRENDER A VIVER ALÉM DAS TELAS
É fundamental que a sociedade repense sua relação com a tecnologia e busque equilibrar o virtual com o real. Momentos de desconexão precisam ser valorizados. O olhar nos olhos, o toque, a conversa sem intermediários tecnológicos são essenciais para restaurar o senso de pertencimento e identidade.
O caminho para reverter esse cenário de angústia passa pela valorização da presença, do diálogo e do afeto. É preciso mais escuta, mais conversas sinceras, mais tempo dedicado ao que realmente importa. Somente assim será possível reconstruir os laços que nos tornam verdadeiramente humanos.
José Antônio Arantes (editor desta Folha) é jornalista, advogado, professor de filosofia e ciências sociais e escritor.
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