15 de junho | 2025
Mulheres à Luta: Por que a violência contra a mulher persiste?
Autodefesa feminina: uma ferramenta crucial para amenizar a vulnerabilidade diante da persistência da Violência.

A questão surge em uma semana marcada pela viralização de vídeos que expõem a brutalidade de agressões domésticas, um reflexo de uma realidade alarmante.
A PROFUNDIDADE DAS RAÍZES DA VIOLÊNCIA
Contrariando a percepção de uma melhora, os números da violência contra a mulher no Brasil e no mundo continuam a chocar. Embora alguns dados oficiais do Brasil em 2024 apontem uma ligeira queda nos feminicídios em comparação com 2023, outros levantamentos, que consideram diferentes formas de violência, indicam um crescimento contínuo.
Em 2024, o Brasil registrou 1.450 feminicídios, um número ainda estarrecedor que se traduz em uma mulher morta a cada seis horas, simplesmente por ser mulher.
O CENÁRIO GLOBAL E A CULTURA MACHISTA
Globalmente, a Organização das Nações Unidas (ONU) estima que uma em cada três mulheres já sofreu violência física ou sexual, a maioria por um parceiro íntimo. A pandemia de COVID-19, com o isolamento social, exacerbou essa crise, aprisionando muitas vítimas com seus agressores.
Os “porquês” dessa violência são complexos, mas especialistas apontam para um pilar central: a cultura do machismo e a estrutura patriarcal da sociedade. Essa cultura, que inferioriza a mulher e a enxerga como posse, normaliza e justifica a violência.
DESIGUALDADE E IMPUNIDADE
A desigualdade de gênero, que se manifesta em salários mais baixos, menor representatividade na política e sobrecarga de trabalho doméstico, reforça essa dinâmica de poder desigual.
Outros fatores que contribuem para a perpetuação do problema são: Impunidade: A percepção de que os agressores não serão punidos desencoraja as denúncias e alimenta o ciclo de violência. Dependência financeira e emocional: Muitas mulheres não conseguem deixar relacionamentos abusivos por não terem para onde ir ou como se sustentar.
Medo e vergonha: A vítima muitas vezes se sente culpada pela violência sofrida e teme o julgamento da sociedade e a vingança do agressor. Subnotificação: Os números oficiais não refletem a totalidade dos casos, já que muitas mulheres não denunciam as agressões.
SOLUÇÕES COMPLEXAS E O PAPEL DA DEFESA PESSOAL
Resolver a violência contra a mulher exige uma transformação social profunda, que passa por: Educação para a igualdade de gênero: Ensinar desde cedo o respeito e a igualdade entre homens e mulheres é fundamental para desconstruir a cultura machista. Políticas públicas eficazes: É preciso investir na ampliação e no fortalecimento da rede de proteção à mulher, com delegacias especializadas, casas-abrigo e assistência psicológica e jurídica.
PUNIÇÃO EXEMPLAR E AUTONOMIA FEMININA
Punição exemplar dos agressores: A certeza da punição é um fator crucial para inibir a violência. Autonomia financeira das mulheres: Promover a igualdade no mercado de trabalho e o empreendedorismo feminino é essencial para que as mulheres possam romper com ciclos de dependência.
Diante da lentidão dessas mudanças estruturais, a defesa pessoal surge como uma medida paliativa, mas potencialmente salvadora. A proposta não é transferir a responsabilidade da segurança para a vítima, mas sim oferecer-lhe ferramentas para que ela possa se proteger em uma situação de perigo iminente.
A AUTODEFESA COMO FERRAMENTA DE EMPODERAMENTO
Aprender a se defender vai além da técnica de um golpe. Para muitas mulheres, a prática da autodefesa representa um resgate da autoconfiança e da sensação de controle sobre o próprio corpo e a própria vida. Os benefícios relatados por praticantes e especialistas incluem:
Aumento da autoconfiança e da autoestima: Sentir-se capaz de se defender fisicamente pode reduzir o medo e a ansiedade. Consciência corporal e situacional: As aulas ensinam a identificar sinais de perigo e a evitar situações de risco.
QUEBRA DE ESTEREÓTIPOS E INICIATIVAS EXISTENTES
Quebra do estereótipo de fragilidade: A prática desafia a ideia de que a mulher é o “sexo frágil” e incapaz de se proteger.
A ideia de oferecer cursos de defesa pessoal para mulheres não é nova e já foi implementada em diversos locais. No Brasil, além da iniciativa que será realizada em Olímpia, existem projetos como o “Empoderadas”, no Rio de Janeiro, que oferece aulas de artes marciais e apoio psicossocial a mulheres em situação de vulnerabilidade. No estado do Espírito Santo, também existem projetos sociais com foco na defesa pessoal feminina.
LEGISLAÇÃO E EFICÁCIA INTERNACIONAL
No âmbito legislativo, tramita no Congresso Nacional um Projeto de Lei (PL 1.813/2021) que visa instituir a oferta gratuita de cursos de defesa pessoal para mulheres em situação de violência doméstica e familiar. A proposta já foi aprovada em comissões do Senado e aguarda análise da Câmara dos Deputados.
Internacionalmente, diversos estudos e programas têm explorado a eficácia da autodefesa. Pesquisas indicam que mulheres que passaram por treinamentos de autodefesa têm menor probabilidade de sofrerem agressões sexuais. Um estudo de meta-análise publicado na revista “Trauma, Violence, & Abuse” concluiu que programas de autodefesa baseados em empoderamento são eficazes na prevenção da violência sexual.
LIMITAÇÕES E A NECESSIDADE DE MUDANÇA SOCIAL
É importante ressaltar que a defesa pessoal não é uma solução mágica. Em muitos casos de violência doméstica, a dinâmica de poder e o controle psicológico são tão intensos que a reação física pode ser perigosa para a mulher. No entanto, em situações de violência urbana ou em estágios iniciais de um relacionamento abusivo, o conhecimento de técnicas de autodefesa pode ser o diferencial entre a vida e a morte.
A luta contra a violência de gênero é um caminho longo e árduo, que exige o compromisso de toda a sociedade. Iniciativas como o treinamento em defesa pessoal, embora não ataquem as raízes do problema, podem oferecer às mulheres uma chance de se sentirem mais seguras e de reagirem a uma ameaça iminente, enquanto a sociedade avança, ainda que lentamente, para um futuro de maior igualdade e respeito.
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