23 de agosto | 2025

“Adultização” precoce cresce com a lógica dos algoritmos e preocupa famílias e especialistas

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INFÂNCIA AMEAÇADA NA ERA DIGITAL!
Fenômeno se intensifica nas redes e mobiliza Justiça, legisladores e famílias.

A discussão sobre a adultização infantil ganhou visibilidade nacional em agosto deste ano, após denúncias feitas por influenciadores e veículos de imprensa. O caso mais emblemático foi o do criador de conteúdo Hytalo Santos, preso após investigações que apontaram a exploração de crianças em vídeos com conotação de adultização. A prisão, confirmada pela Justiça dias depois, marcou o início de uma série de medidas que reacenderam o debate sobre a proteção da infância no ambiente digital.

Outros episódios também chamaram a atenção. Perfis de redes sociais exibiam meninas maquiadas, vestidas como adultas ou reproduzindo coreografias de caráter sexualizado, muitas vezes com grande audiência. Esses casos desencadearam reações de autoridades, famílias e especialistas, preocupados com o alcance e os impactos desse tipo de exposição.

O QUE É ADULTIZAÇÃO

O termo adultização se refere à exposição de crianças a comportamentos, responsabilidades ou imagens próprias do universo adulto antes do tempo adequado. Essa exposição pode ocorrer de diferentes formas: desde a atribuição de tarefas familiares que não correspondem à idade até a sexualização precoce em mídias sociais e programas de entretenimento.

No ambiente digital, o fenômeno se intensificou nos últimos anos, principalmente em plataformas como TikTok, Instagram e YouTube. A alta exposição a conteúdos de moda, beleza e dança, aliada ao funcionamento dos algoritmos, contribuiu para que vídeos com crianças adultizadas ganhassem visibilidade e fossem replicados milhares de vezes.

JUSTIÇA COMEÇA A AGIR

A Justiça brasileira passou a atuar de forma mais firme diante dos casos recentes. O Tribunal Regional Federal da 6ª Região determinou, por exemplo, que o YouTube criasse alertas específicos contra publicidade infantil abusiva e canais para denúncia de conteúdos suspeitos. A medida inédita abriu precedente para que outras plataformas também sejam responsabilizadas pela circulação de materiais considerados nocivos ao público infantil.

Além disso, o Superior Tribunal de Justiça já havia firmado entendimento de que, para caracterizar crime previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente, não é necessária a nudez. Ou seja, a exploração pode se configurar mesmo em vídeos ou imagens que apenas insinuem conotação sexual. Essa decisão amplia o alcance jurídico e facilita a responsabilização em casos de adultização digital.

CONGRESSO DISCUTE PROJETOS

No Congresso Nacional, parlamentares reagiram rapidamente à repercussão das denúncias. Projetos de lei foram apresentados para tipificar de forma mais clara a exposição digital abusiva de crianças. Algumas propostas, apelidadas de “Lei Felca”, em referência ao influenciador que trouxe o tema à tona, buscam estabelecer penas mais duras para quem se beneficiar financeiramente desse tipo de conteúdo.

Especialistas, no entanto, alertam que mudanças legais precisam ser feitas com cautela. O risco é que medidas apressadas acabem confundindo proteção com censura, restringindo conteúdos culturais ou educativos que não configuram exploração.

CONSEQUÊNCIAS PARA AS CRIANÇAS

Psicólogos e pedagogos apontam que a adultização precoce pode trazer consequências sérias para o desenvolvimento infantil. Crianças expostas a papéis adultos antes da hora podem apresentar ansiedade, depressão, baixa autoestima e dificuldades de socialização. Além disso, ficam mais vulneráveis à exploração sexual, ao assédio e à perda de referências próprias da infância, como o brincar e o aprendizado no tempo certo.

Pesquisadores também destacam que o fenômeno não afeta todas as crianças de forma igual. Estudos nacionais e internacionais indicam que meninas negras tendem a ser vistas como mais maduras desde cedo, o que as expõe de maneira desproporcional à adultificação e à sexualização precoce.

DESIGUALDADE SOCIAL AMPLIFICA O PROBLEMA

A adultização também está ligada a fatores sociais. Em famílias em situação de vulnerabilidade, é comum que crianças assumam responsabilidades adultas, como cuidar de irmãos ou contribuir financeiramente para o sustento da casa. Embora essa realidade seja diferente da exposição digital, ambas compartilham a antecipação de papéis que deveriam ser vividos apenas na vida adulta.

No ambiente online, a desigualdade aparece de outra forma: famílias que enxergam nas redes sociais uma oportunidade de renda acabam transformando os filhos em protagonistas de conteúdos que atraem audiência, mas que, na prática, expõem a criança a pressões e riscos que não compreende.

RESPONSABILIDADE COLETIVA

Para especialistas, o enfrentamento da adultização exige responsabilidade compartilhada. Famílias precisam estar atentas e acompanhar de perto a vida digital dos filhos. Escolas devem incluir a educação midiática em seus currículos, ensinando crianças e adolescentes a compreenderem os riscos da exposição precoce.

As plataformas, por sua vez, têm o dever de implementar mecanismos de proteção, restringindo recomendações e monetização de vídeos que exponham menores de forma abusiva. E o Estado deve fiscalizar, aplicar a lei e criar políticas públicas que garantam ambientes digitais mais seguros.

UM DESAFIO DA SOCIEDADE

O avanço das redes sociais colocou a infância diante de novos riscos. A adultização é um deles — talvez o mais visível e perturbador. Não se trata apenas de vigiar o que crianças publicam ou assistem, mas de transformar a proteção em compromisso coletivo.

O fenômeno evidencia que a infância, cada vez mais, tem sido tratada como mercadoria em uma sociedade que transforma olhares em capital. Proteger crianças desse processo é preservar não só direitos individuais, mas também a própria ideia de infância como etapa fundamental da vida.

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