22 de fevereiro | 2026
Comentários em live de carnaval geram acusações de intolerância e ameaça de denúncia na promotoria local
Transmissão feita pelo jornalista Julião Pittibul no site Olímpia 24 Horas durante os desfiles de domingo e terça-feira terminou em troca pública de acusações, embates sobre cultura afro-brasileira, religião e identidade racial, com repercussão também no Instagram e promessa de registro de boletim de ocorrência.



A polêmica começou durante a apresentação de um grupo de Afoxé ligado a tradições de matriz africana. Parte dos comentários na live passou a questionar a participação do grupo no carnaval, utilizando expressões depreciativas e associando a apresentação a “ritual” ou “macumba”, o que provocou reação imediata de integrantes e apoiadores do movimento afro-religioso na cidade.
INÍCIO DA POLÊMICA
NOS COMENTÁRIOS
Entre as mensagens que inflamaram o debate, um dos comentários dizia: “Os caras fazendo ritual no centro da cidade, tá fácil não hein, sê tá doido, tá amarrado!!!”. Em outra postagem, um internauta escreveu: “Carnaval ou encontro de macumbeiro. Deus é mais”. Houve ainda manifestações mais agressivas, como “Isso é macumba pura nada ver com carnaval” e “Carnaval de bosta”.
Integrantes do grupo e apoiadores classificaram as falas como preconceituosas e racistas. “Toda maneira de amor vale a pena… xô intolerância religiosa!”, escreveu uma internauta. Outra comentou: “Ninguém é obrigado a gostar, mas respeitar sim”. A discussão ganhou tom mais duro quando surgiram menções à Lei nº 7.716/1989, conhecida como Lei Caó, que define os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor.
ACUSAÇÕES E AMEAÇA DE PROCESSO
Uma das participantes mais ativas nos comentários afirmou que iria processar o autor das críticas. “Vamos fazer questão de processar. Intolerância religiosa”, escreveu. Em seguida, reforçou: “Não tenha dúvidas… Ela não vai esquecer esse carnaval de 2026”.
O debate deixou de se restringir à divergência religiosa e passou a envolver identidade racial. Alguns comentários questionaram o fato de as críticas partirem de uma pessoa negra. “Você como uma pessoa preta, deveria entender que carnaval veio de dentro das casas de matrizes africanas”, escreveu um internauta. Outro foi além, utilizando termos como “capitão do mato”, numa referência histórica carregada de simbolismo.
DADOS DA LIVE
E GUERRA DE NARRATIVAS
A transmissão passou a despertar mais atenção nos comentários do que na apresentação cultural em si. Entre mensagens de apoio ao grupo, como “Axé para todos”, “Umbanda muito linda” e “Nossas raízes, muito axé a todos”, multiplicaram-se respostas indignadas às críticas.
No meio das mensagens, apareceram também opiniões de quem simplesmente rejeita o carnaval, sem necessariamente entrar no tema religioso, como “não gosto de Carnaval, na minha opinião não deveria existir”. Mesmo assim, o núcleo do embate permaneceu na associação pejorativa às religiões de matriz africana e na resposta de quem entendeu isso como intolerância.
VÍDEO NO INSTAGRAM
AMPLIA REPERCUSSÃO
A discussão extrapolou a live e ganhou novo capítulo no Instagram. O perfil washington.48 publicou um vídeo comentando o episódio. Na gravação, ele afirma que sua família possui 58 anos de axé registrados em Olímpia e mais de 130 anos de tradição na Umbanda fora de registro formal.
No vídeo, ele defende que o carnaval, o samba e manifestações culturais como a capoeira têm origem nas comunidades negras e nos terreiros. “Carnaval, samba, essas paradas tudo é coisa de preto”, afirmou. Ele também criticou o que chamou de “deselegância” e disse que a família pretende registrar boletim de ocorrência contra quem teria feito comentários ofensivos.
ACUSAÇÕES DE INCOERÊNCIA
E RESGATE DE ORIGENS
Em outro trecho, o autor do vídeo acusa o crítico de incoerência por, segundo ele, ter frequentado terreiro anteriormente e agora atacar manifestações afro-brasileiras. A fala também menciona capoeira, hip-hop e grafite como expressões culturais negras que, na visão dele, não podem ser dissociadas de suas origens.
Nos comentários do vídeo, o tom continuou elevado. Houve pedidos para denunciar o suposto autor das críticas e até questionamentos sobre sua atuação como professor de capoeira. Um dos comentários dizia que ele deveria ser impedido de usar manifestações afro-culturais para obter renda se fosse contrário às matrizes africanas.
ESTADO LAICO,
RESPEITO E LINHA TÊNUE
Outros participantes, por sua vez, procuraram trazer o debate para o campo da convivência democrática. Uma das mensagens destacou que o Brasil é um Estado laico e que a liberdade religiosa garante o direito de todas as crenças se manifestarem. “Estado laico é a garantia de que todas as vozes podem rezar, cantar e existir sem medo”, dizia o comentário.
O embate também revelou um pano de fundo político, com menções a partidos e acusações ideológicas que pouco tinham relação direta com o desfile. O episódio evidenciou como discussões culturais, quando transportadas para o ambiente digital, rapidamente se ampliam para outros campos de tensão.
CARNAVAL, AFOXÉ E DISPUTA DE SENTIDOS
Historicamente, o carnaval brasileiro tem raízes múltiplas. Embora a festa tenha conexões com o calendário cristão, antecedendo a Quaresma, sua construção como manifestação popular urbana passou por forte influência das comunidades negras, especialmente por meio do samba e de expressões de matriz africana.
O Afoxé, especificamente, é reconhecido como cortejo musical ligado às tradições do candomblé, levando para o espaço público ritmos, cânticos e simbologias associadas aos orixás. Em diversas cidades brasileiras, sua presença no carnaval é entendida como afirmação cultural e resistência histórica.
A transmissão de Julião Pittibul não foi interrompida, e o desfile seguiu normalmente. Mas a repercussão digital mostra que o conflito não se encerrou com o fim da live. O vídeo no Instagram, as ameaças de denúncia e a multiplicação de comentários indicam que o episódio deve ainda render desdobramentos.
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