25 de fevereiro | 2026
Olímpia abre comemorações dos 123 anos com mural inédito na ECO
Exposição de Zilah Garcia, com curadoria de Agnaldo Farias, reúne 15 obras sobre memória, migração nordestina e identidade brasileira até março de 2027. 
A Estação Cultural de Olímpia (ECO) abre no dia 27 de fevereiro, às 18h, a exposição “Terra: Olímpia”, da artista olimpiense Zilah Garcia. A mostra integra a programação oficial dos 123 anos do município e segue aberta para visitação até março de 2027, com entrada gratuita e classificação livre.
Com curadoria de Agnaldo Farias, a exposição reúne 15 obras que articulam memória, experimentação material e crítica social a partir de referências como o livro “Os Sertões”, de Euclides da Cunha. Entre os destaques estão as obras “Terra Ignota”, “Culto das Seis” e um mural site specific inédito de 3 metros por 5 metros, produzido especialmente para a mostra.
DESDOBRAMENTOS DE PESQUISA SOBRE CANUDOS E IDENTIDADE NACIONAL
“Terra: Olímpia” dá continuidade a um projeto iniciado no Centro Cultural dos Correios do Rio de Janeiro, onde a artista apresentou, no início de 2025, a primeira etapa da pesquisa. Na ocasião, o foco esteve na investigação sobre o Arraial de Canudos e as múltiplas narrativas que cercam o episódio histórico da Guerra de Canudos, no fim do século XIX.
A pesquisa parte da leitura de “Os Sertões” e de outras fontes literárias, jornalísticas e de tradição oral que abordam a trajetória de Antonio Conselheiro e de seu povoado para além do massacre. O episódio histórico evidencia a seca como fenômeno natural que, ao longo do tempo, foi apropriado também como questão política, influenciando a formação da identidade nordestina e, por consequência, da identidade brasileira.
MIGRAÇÃO NORDESTINA E RECONFIGURAÇÃO NO INTERIOR PAULISTA
Na etapa apresentada em Olímpia, o eixo investigativo se desloca para os fluxos migratórios nordestinos e para a reconfiguração identitária no interior paulista ao longo do século XX. A escolha da cidade como sede da exposição dialoga com esse movimento histórico, já que o município recebeu intensas correntes migratórias, incluindo a própria família da artista.
Reconhecida como Capital Nacional do Folclore, Olímpia tornou-se polo de preservação e reinvenção da cultura popular nordestina, abrigando um dos maiores festivais do segmento no mundo. A mostra relaciona esse contexto à formação social e cultural da cidade, estabelecendo conexões entre território, memória e pertencimento.
MURAL INÉDITO E DIÁLOGO COM O MURALISMO MEXICANO
O núcleo central da exposição é um mural site specific de 3m x 5m, criado especialmente para a ECO. A obra dialoga formalmente com o muralismo mexicano e investiga as tensões e permanências da identidade nordestina construída tanto no desenraizamento quanto na persistência cultural.
Além do mural, as pinturas-objetos utilizam a terra como matéria-prima principal. Embora tenham a tela como suporte, as obras assumem caráter tridimensional por meio de um processo artesanal e experimental desenvolvido pela artista, que busca traduzir visualmente as marcas da seca e da paisagem sertaneja.
MATERIALIDADE, TERRA E EXPERIMENTAÇÃO
Para produzir as texturas, Zilah coleta terra de diferentes regiões do Brasil e processa pedras que, trituradas, se transformam em uma massa aplicada sobre a tela. O efeito craquelado, que remete à terra ressecada, surge durante o processo de secagem e integra o conceito das obras.
Em trabalhos como “Terra Ignota” e “Culto das Seis”, páginas de edições antigas de “Os Sertões” são incorporadas às composições após passarem por impermeabilização, permitindo a interação com a massa de terra sem comprometer o papel. O processo envolve instrumentos manuais, trituradores elétricos e até secadores de cabelo, ajustados conforme as características dos materiais.
ARQUIVO AUDIOVISUAL E VIAGEM A CANUDOS
A exposição também apresenta um filme que documenta a viagem da artista ao município de Canudos, no interior da Bahia, realizada no final de 2024. A projeção registra a paisagem descrita por Euclides da Cunha e mostra como a experiência no território influenciou os desdobramentos da pesquisa artística.
Para o curador Agnaldo Farias, as obras não representam a terra, mas são feitas de terra, aproximando arte e experiência concreta. Segundo ele, a singularidade de Olímpia ultrapassa limites geográficos e está ligada às pessoas que chegaram ao município ao longo do tempo, trazendo referências culturais que moldaram sua identidade.
TRAJETÓRIA DA ARTISTA
Nascida em Olímpia, Zilah Garcia cresceu em contato com arte no ateliê da mãe e iniciou estudos de pintura, escultura e desenho ainda na infância. Após quase três décadas dedicadas ao mercado de moda e estamparia, passou a concentrar-se nas artes plásticas há cerca de três anos.
Desde então, estudou a técnica de afresco na Itália e frequenta cursos na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro. Em 2024, realizou exposição individual na Casa Cor São Paulo, com curadoria de Daniele Machado. Em 2025, apresentou trabalhos na sede carioca da instituição, sob curadoria de Christiane Laclau, e realizou a primeira grande individual no Centro Cultural dos Correios do Rio de Janeiro. Após a etapa em Olímpia, está prevista uma terceira fase do projeto “Terra” na capital paulista ainda em 2026.
SERVIÇO
Exposição: “Terra: Olímpia”
Artista: Zilah Garcia
Curadoria: Agnaldo Farias
Local: ECO – Estação Cultural de Olímpia (R. Cel. José Medeiros, 477 – Patrimônio de São João Batista)
Abertura: 27 de fevereiro de 2026 (sexta-feira), às 18h
Visitação: todos os dias, das 9h às 21h
Encerramento: março de 2027
Entrada franca | Classificação livre
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