25 de janeiro | 2026
Apreensões seguidas expõem avanço do comércio clandestino das canetas emagrecedoras na região
CONTRABANDO EM ALTA!
Mercado ilegal de remédios cresce impulsionado pela promessa de emagrecimento rápido. Operações da PRF e da Polícia Civil mostram que a tirzepatida e outros produtos proibidos circulam com facilidade, enquanto médicos alertam para riscos graves à saúde e pacientes relatam efeitos assustadores após o uso sem orientação.
O aumento expressivo de apreensões de medicamentos para emagrecimento contrabandeados nas rodovias do noroeste paulista acendeu um alerta entre autoridades de saúde e forças policiais.
Apenas nos primeiros dias de janeiro a Polícia Rodoviária Federal realizou três grandes apreensões envolvendo canetas emagrecedoras, anabolizantes e eletrônicos sem documentação fiscal, revelando a dimensão de um mercado clandestino que cresce impulsionado pela busca por resultados rápidos e pelo apelo das redes sociais.
TIRZEPATIDA
Na noite de quarta-feira, 21, um homem foi preso durante fiscalização na Rodovia Transbrasiliana, a BR-153, em São José do Rio Preto.
No veículo, que vinha de Foz do Iguaçu e era ocupado por três homens, os agentes encontraram 104 ampolas de tirzepatida, princípio ativo do medicamento conhecido comercialmente como Mounjaro, além de anabolizantes, produtos para emagrecimento e celulares importados ilegalmente.
COMPARTIMENTO OCULTO
A abordagem inicial encontrou mercadorias aparentemente regulares, como notebooks, tablets e garrafas de vinho. O nervosismo dos ocupantes levou os policiais a realizar uma vistoria minuciosa, que revelou um compartimento oculto no porta-malas onde estavam escondidos os medicamentos e parte dos eletrônicos.
Um dos ocupantes assumiu ser o dono da maior parte da carga e foi preso em flagrante. Os outros dois pagaram fiança e foram liberados.
SEGUNDA ONDA
DE APREENSÕES NA REGIÃO
O episódio não foi isolado. Segundo a PRF esta foi a terceira apreensão do mês envolvendo contrabando de emagrecedores no trecho regional das rodovias federais.
Somente nos primeiros 15 dias do ano, quase mil unidades dessas medicações foram retiradas de circulação no noroeste paulista. Em todo o Estado de São Paulo, em 2025, foram apreendidas 17.890 canetas e ampolas contrabandeadas.
OPERAÇÃO FIT
Paralelamente às ações nas estradas, a Polícia Civil realizou a chamada “Operação FIT” em Valparaíso, com o objetivo de combater a comercialização irregular de medicamentos controlados. Durante as buscas, foram apreendidos produtos como tramadol e tirzepatida mantidos sem registro ou prescrição médica.
Em um dos endereços, um técnico de enfermagem foi preso em flagrante suspeito de atuar no esquema. Em outro local, uma mulher foi flagrada com ampolas de tirzepatida e alegou uso pessoal, versão que ainda será analisada pelas autoridades.
QUESTÃO DE SAÚDE PÚBLICA
Para a Polícia Federal, além do crime fiscal e do contrabando, a situação representa um problema de saúde pública.
O delegado Alexandre Manoel Gonçalves explica que esses medicamentos só podem ser vendidos no Brasil com autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária. “Além da parte penal, todos terão responsabilização fiscal, porque são produtos de origem estrangeira sem regular internalização no país”, afirma.
USO SEM ORIENTAÇÃO
E SUSTO NO HOSPITAL
Os riscos não ficam apenas no campo jurídico. Um caso recente atendido em hospital da região ilustra os perigos do consumo sem acompanhamento médico.
Uma mulher, que preferiu não se identificar, relatou ter comprado uma caneta de lipoless pelas redes sociais, atraída pela promessa de resultados “milagrosos”. As ampolas vieram do Paraguai e foram aplicadas sem qualquer prescrição.
Horas depois da aplicação de uma única dose, surgiram náuseas, fraqueza intensa, dor de cabeça, falta de ar, taquicardia e formigamento nas mãos e nos pés. Encaminhada ao hospital, ela passou por exames e medicação.
ACHEI QUE IRIA MORRER
A mulher, embora não tenha precisado ser internada, descreveu o episódio como um dos momentos mais assustadores de sua vida. “Achei que iria morrer. Não vale a pena colocar a vida em risco por resultados rápidos”, relatou.
A paciente contou ainda que desconhecia a proibição da importação e venda desse tipo de produto no Brasil. A facilidade de acesso, segundo ela, foi decisiva: a compra ocorreu diretamente por redes sociais, sem qualquer verificação de procedência.
MEDICAMENTO LEGAL,
CANETA PROIBIDA
De acordo com especialistas, o princípio ativo da tirzepatida é aprovado no país apenas para o tratamento do diabetes tipo 2, mediante receita médica.
A Anvisa proíbe a importação e comercialização de canetas irregulares sem registro, grande parte produzida no Paraguai.
O endocrinologista Flávio Pirozzi, vice-presidente da Associação Brasileira de Diabetes em São Paulo, alerta que o problema não está apenas na substância, mas na forma como ela é obtida e utilizada.
CONDIÇÕES PRECÁRIAS
“Quando a pessoa usa uma medicação contrabandeada, não sabemos a procedência, nem se houve armazenamento adequado. Isso coloca em risco a própria saúde”, afirma.
Outro ponto crítico é o transporte. Segundo o delegado Alexandre Gonçalves, muitos desses produtos viajam longas distâncias sem refrigeração, expostos ao calor e ao sol. “São ampolas fracionadas que chegam em condições precárias. O consumidor fica ainda mais vulnerável”, ressalta.
UMA QUESTÃO
DE SAÚDE PÚBLICA
Para a PRF, o avanço do contrabando de emagrecedores reflete uma combinação perigosa: pressão estética, influência das redes sociais e facilidade de compra ilegal.
O inspetor Flávio Catarucci afirma que já há registros de danos permanentes à saúde causados por esses produtos. “No desespero para emagrecer, muita gente está colocando a própria vida em risco”, alerta.
SÓ COM PRESCRIÇÃO
E ACOMPANHAMENTO
Enquanto as apreensões se multiplicam e novas operações são realizadas, autoridades e médicos reforçam a orientação básica: medicamentos desse tipo só devem ser utilizados com prescrição e acompanhamento especializado.
Fora desse caminho, o que se vende como solução rápida pode terminar em hospital, processo criminal ou consequências irreversíveis para a saúde.
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