19 de agosto | 2025
Denúncia sobre superexposição de crianças na internet mira pais e big techs
Vídeo “Adultização”, que já ultrapassou 40 milhões de visualizações, expõe como algoritmos favorecem a exploração de menores e reacende debate sobre regulamentação das plataformas
Da Redação com Diário da Região – A publicação do vídeo “Adultização”, no YouTube, produzido pelo influenciador Felipe Bressanim, conhecido como Felca, desencadeou forte repercussão nacional sobre os riscos da superexposição de crianças na internet. O conteúdo denuncia a monetização de materiais com menores de idade, aponta a omissão das big techs na filtragem ética e mostra como comunidades de pedófilos se aproveitam dos algoritmos para acessar esse tipo de material. O vídeo ultrapassou 40 milhões de visualizações e já gerou prisões, como a do influenciador Hytalo Santos, ocorrida na última sexta-feira, 15.
PAIS INFLUENCIADOS PELO ENGAJAMENTO
Segundo a psicóloga Karina Caldo, especialista em políticas públicas para a infância, a sociedade foi “normalizando” esse tipo de exposição, a ponto de crianças passarem a performar em troca de curtidas. Para ela, muitos pais publicam fotos e vídeos acreditando ser apenas um ato de afeto ou incentivo, mas não percebem que o mesmo conteúdo pode ser usado por predadores sexuais.
A advogada Daiana Pessoa, coordenadora da Comissão de Direito da Criança e do Adolescente da OAB Rio Preto, alerta que a monetização de conteúdos infantis configura exploração do trabalho infantil disfarçada. “A busca por fama e dinheiro não pode justificar colocar crianças em risco”, afirmou.
IMPACTOS NA SAÚDE E NA VIDA SOCIAL
Os especialistas destacam que a exposição precoce leva a consequências como depressão infantil, transtornos de ansiedade, baixa autoestima e até gravidez precoce. Dados do Hospital da Criança e Maternidade de Rio Preto revelam que, entre 2020 e 2024, foram registrados 960 partos de adolescentes de 12 a 17 anos.
Além disso, a psicóloga Karina ressalta que o comportamento repetitivo para atender expectativas digitais faz com que crianças deixem de estabelecer vínculos reais e habilidades sociais, criando personagens artificiais para as redes.
RESPONSABILIZAÇÃO DAS PLATAFORMAS
O Supremo Tribunal Federal (STF) reinterpretou, em junho, o artigo 19 do Marco Civil da Internet, permitindo responsabilizar as plataformas sem ordem judicial em casos de conteúdos ilícitos e graves, como pornografia infantil. Apesar do avanço, especialistas em Direito Digital apontam que ainda existem lacunas na responsabilização direta de big techs quando o conteúdo não é crime grave, mas expõe menores.
O professor da Unesp Adriano Mauro Cansian lembra que já existem ferramentas tecnológicas capazes de coibir a disseminação de materiais com crianças, como o PhotoDNA da Microsoft e o Thorn Safer Predict, mas afirma que nada substitui a responsabilização de pais e criminosos.
AÇÃO DAS AUTORIDADES E LEGISLAÇÃO
O juiz Evandro Pelarin, da Vara da Infância e Juventude de Rio Preto, lembra que o Estatuto da Criança e do Adolescente já prevê punição a pais que exploram os filhos na internet, mesmo fora do campo pornográfico. Ele defende penas mais severas e até a perda do poder familiar em casos de reincidência.
Na esfera policial, a Operação Cassiel, da Polícia Federal, já está na 24ª fase desde 2022 e prendeu 11 pedófilos em flagrante na região de Rio Preto, além de apreender computadores e celulares com material ilícito. O Deinter-5, da Polícia Civil, também mantém equipe premiada internacionalmente em investigações de exploração sexual infantil.
NOVAS AMEAÇAS COM INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
Delegados especializados apontam a deepfake como um dos maiores desafios atuais, com a criação de imagens de crianças por inteligência artificial. O delegado seccional Everson Contelli afirma que esse tipo de material tem causado preocupação crescente e até afastamento de policiais que não suportam lidar com a gravidade das imagens.
Nesta semana, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara aprovou projeto de lei que amplia a pena para aliciadores de menores pela internet, passando de 3 para 4 anos de prisão, em tentativa de acompanhar a complexidade do problema.
Comentários
Os comentários não representam a opinião do iFolha; a responsabilidade é do autor da mensagem.
Você deve se logar no site para enviar um comentário. Clique aqui e faça o login!
Ainda não tem nenhum comentário para esse post. Seja o primeiro a comentar!






