01 de agosto | 2026
Livro recupera a trajetória do professor José Sant’anna e as origens do Festival
“Zé da Festa”, de José Antônio Arantes, reúne entrevistas, documentos e lembranças para mostrar como pesquisas escolares deram origem ao FEFOL. A obra também expõe as contradições de seu criador, as mudanças provocadas pelo crescimento do evento e a solidão enfrentada pelo professor nos últimos anos de vida.
Publicado em 2025 e lançado durante o Festival do Folclore de Olímpia, o livro “Zé da Festa — Professor José Sant’anna” (que está disponível na redação desta Folha) nasceu de uma promessa feita ainda em vida ao criador do evento. O jornalista José Antônio Arantes, editor desta Folha, havia assumido o compromisso de registrar a trajetória do professor que transformou pesquisas realizadas com estudantes em um movimento permanente de defesa da cultura popular brasileira.
A obra não segue o formato de uma biografia limitada a datas, cargos e homenagens oficiais. Sant’anna é reconstruído pelas lembranças de familiares, alunos, amigos, professores, dirigentes culturais e pessoas que trabalharam diretamente na organização do festival. Ao reunir diferentes versões sobre o personagem, o livro apresenta um retrato mais humano e menos protocolar.
UMA PROMESSA INICIADA EM 1999
A preparação do material começou pouco depois da morte de Sant’anna, ocorrida em janeiro de 1999. Naquele período, o jornalista Orlando Rodrigues da Costa iniciou uma série de entrevistas com pessoas que haviam convivido com o professor. Publicados pela Folha da Região, os relatos já tinham a intenção de preservar informações para uma futura obra.
A história começa antes da primeira edição do festival. Nascido em Olímpia, em 8 de julho de 1937, José Sant’anna estudou magistério, contabilidade e Ciências Jurídicas e Sociais, mas foi como professor de Língua Portuguesa que encontrou o caminho que definiria sua vida. Na década de 1950 passou a desenvolver pesquisas sobre cultura popular com seus alunos.
As primeiras iniciativas foram exposições de objetos antigos e materiais ligados às tradições populares. Elas ocuparam vitrines do comércio, o antigo Colégio Olímpia e outros espaços da cidade. Em agosto de 1965, aquela movimentação ganhou a forma do primeiro Festival do Folclore, ainda modesto, com exposição, apresentações e desfile pelas ruas.
O FESTIVAL CRIOU UMA ESTRUTURA CULTURAL
O crescimento foi rápido. Em 1966 foi criado o Departamento de Folclore de Olímpia, responsável por ampliar cursos, pesquisas, palestras e atividades educativas. Em 1967 Sant’anna passou a integrar a Comissão Estadual de Folclore e Artesanato, ao lado de estudiosos como Rossini Tavares de Lima e Laura Della Mônica.
O trabalho do professor também ultrapassou a realização do evento anual. Ele participou da criação do Museu de História e Folclore “Maria Olímpia”, em 1973, e da Casa de Cultura “Álvaro Marreta Cassiano Ayusso”, em 1977. Organizou anuários, escreveu livros, documentou manifestações populares e exerceu funções públicas, incluindo mandatos de vereador, a presidência da Câmara e a primeira Secretaria Municipal de Educação, Cultura, Esportes, Turismo e Lazer.
AS VOZES MOSTRAM UM HOMEM COMPLEXO
Entre os personagens recuperados estão o irmão Clarismundo Sant’anna, Maria Jesus de Miranda, Victório Sgorlon, José Maria de Jesus Marangoni, Silvio Roberto “Bibi” Mathias Neto, Cidinha Manzolli, Altino Robazzi, Valdecir Casagrande, Débora Vicente e integrantes de grupos tradicionais. Cada depoimento revela uma parte diferente da personalidade do professor.
Sant’anna aparece como um homem de grande capacidade intelectual, mas também exigente e, em alguns momentos, difícil de compreender. Corrigia erros de português, cobrava comprometimento dos colaboradores e tratava o festival com uma seriedade nem sempre acompanhada por quem estava ao seu redor. Ao mesmo tempo, os relatos descrevem alguém generoso, simples e pouco interessado em patrimônio ou conforto pessoal.
O PREÇO PESSOAL DO PROJETO
O livro registra que Sant’anna usou recursos próprios para ajudar grupos, comprar materiais, custear fantasias e resolver problemas da organização. Nos primeiros festivais, sua casa e as residências de familiares e vizinhos transformavam-se em cozinhas e alojamentos improvisados. Alimentos eram preparados durante a madrugada em um esforço comunitário que envolvia professores, estudantes, parentes e moradores.
Essa dedicação teve consequências pessoais. Segundo os depoimentos, o professor abriu mão de dinheiro, tempo, relacionamentos e de uma vida particular mais estável para colocar o festival em primeiro plano. Nos últimos anos demonstrava frustração com a falta de apoio, o afastamento de antigos colaboradores e a aproximação de pessoas mais interessadas no prestígio do evento do que em sua amizade.
O CRESCIMENTO TROUXE NOVOS INTERESSES
Ao deixar os espaços escolares e a região central, passar pelo ginásio de esportes e chegar a um recinto permanente, o Festival do Folclore ganhou condições para receber mais grupos e público. A ampliação trouxe estrutura, projeção nacional e movimentação econômica, mas também modificou a relação da cidade com o evento.
Alguns depoimentos apontam que barracas, bebidas, alimentação, parque de diversões e outros interesses comerciais passaram a disputar espaço com a programação cultural. Para antigos colaboradores, parte do público deixou de frequentar o festival principalmente para conhecer as manifestações tradicionais. A obra não apresenta uma condenação definitiva, mas registra uma discussão ainda atual: como crescer sem transformar o folclore apenas em cenário de uma grande festa?
UM PERSONAGEM SEM A IDEALIZAÇÃO OFICIAL
Um dos méritos do livro está em não apresentar Sant’anna como uma figura sem defeitos. Ele é mostrado como alguém capaz de mobilizar uma cidade, mas também de criar atritos por causa de seu rigor. Era acolhedor com os grupos, porém intransigente quando considerava que o folclore estava sendo tratado sem o respeito necessário.
A narrativa não tenta transformar todas as lembranças em uma versão única. Depoimentos são marcados pelo afeto, pela passagem do tempo e pela experiência pessoal de cada entrevistado. Em vez de eliminar as diferenças, o livro utiliza essas contradições para mostrar que o criador do FEFOL foi mais complexo do que o personagem geralmente apresentado nas solenidades oficiais.
UM DOCUMENTO SOBRE A PRÓPRIA CIDADE
A obra também funciona como registro da transformação de Olímpia. Ao acompanhar Sant’anna, o leitor encontra as antigas escolas, os estabelecimentos que abrigaram as primeiras exposições, as famílias que alimentavam os grupos, os jornais que divulgavam as pesquisas e os moradores que ajudavam diretamente na organização.
Muitos dos entrevistados já morreram, aumentando o valor documental de suas lembranças. Isso também revela uma fragilidade: parte da história do festival ainda depende de arquivos particulares, antigos anuários, fotografias sem identificação e memórias que desaparecem com seus personagens. O livro organiza uma parcela importante desse material, mas não encerra a pesquisa sobre Sant’anna e o FEFOL.
UMA HISTÓRIA QUE AINDA COBRA RESPOSTAS
A homenagem ultrapassou as páginas. A partir do compromisso de preservar a memória do professor, Arantes compôs, sob o nome artístico Véi da Ni, a canção “Ô Zé da Festa, Abre a Roda”, transportando a história de Sant’anna para outra linguagem e buscando aproximá-la de novas gerações.
Mais de duas décadas depois da morte do professor, seu nome está no Recinto do Folclore, em medalhas e homenagens públicas. O risco é que permaneça apenas nas placas. “Zé da Festa” procura evitar esse esvaziamento ao recuperar suas escolhas, dificuldades, contradições e o preço que pagou para manter o projeto. Ao final, deixa para Olímpia uma pergunta que continua atual: o festival que cresceu e projetou a cidade ainda preserva, no centro de sua programação, o propósito cultural que levou um professor a criá-lo?
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