13 de julho | 2025

Vício em apostas online já faz jovens trancarem faculdade e colapsarem emocionalmente

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Estudos apontam que dívidas com plataformas de apostas estão prejudicando o ingresso e a permanência de estudantes no ensino superior. Casos de evasão escolar, ansiedade, mentiras à família e até risco de suicídio vêm crescendo, enquanto especialistas pedem regulamentação e intervenção urgente.

Da Redação com Francine Moreno (matéria publicada originalmente no Diário da Região de Rio Preto).

A dependência em apostas esportivas online já ultrapassou os limites do entretenimento e está se tornando uma crise social e educacional entre jovens brasileiros. Pesquisa da Associação Brasileira de Mantenedores do Ensino Superior (Abmes), em parceria com o Educa Insights, revelou que 14% dos estudantes matriculados em instituições particulares de ensino superior atrasaram suas mensalidades ou trancaram o curso em razão dos gastos excessivos com apostas.

O estudo, realizado entre os dias 20 e 24 de março de 2025 com 2.317 pessoas entre 18 e 35 anos, mostra que esse impacto é ainda maior nas classes B1 e B2, com 17% dos entrevistados relatando prejuízos à vida acadêmica. Além disso, 41% dos jovens do Sudeste associam o adiamento da graduação à prática das chamadas “bets”.

REGIÕES MAIS AFETADAS E PERSPECTIVA PARA 2026
Quase 1 milhão de potenciais alunos da rede privada podem não se matricular no próximo ano

Segundo a mesma pesquisa, dos 2,9 milhões de brasileiros com potencial de ingressar em instituições privadas de ensino superior no primeiro semestre de 2026, cerca de 986 mil correm o risco de não efetivar a matrícula por causa do comprometimento financeiro com apostas online.

Esses dados se somam a outro levantamento, da Sociedade Brasileira de Consumo e Varejo (SBVC) com a AGP Pesquisas, que apontou que 63% dos apostadores online comprometeram parte de sua renda. O impacto não se limita à educação: 23% deixaram de comprar roupas, 19% diminuíram as compras em supermercados e 11% afetaram até os cuidados com a saúde.

DEPOIMENTO DE UM JOVEM EM COLAPSO
Estudante de 19 anos perdeu o foco no vestibular, mentiu para a família e cogita ajuda psicológica

Luiz (nome fictício), de 19 anos, queria cursar Nutrição e decidiu apostar em jogos online para ganhar algum dinheiro extra. No início, teve pequenos ganhos, mas a frequência aumentou, e logo passou a usar até o valor do consórcio da moto para tentar recuperar perdas.

“Perdi o foco do meu objetivo principal que é a faculdade pública. Minha cabeça não para de pensar em como vou recuperar o dinheiro”, desabafou à reportagem. O jovem relata que começou a mentir para a mãe e a namorada e agora cogita buscar ajuda psicológica.

EFEITOS NA SALA DE AULA E EVASÃO ESCOLAR
Professora da Fatec de Rio Preto aponta queda de rendimento e isolamento dos estudantes

A professora Liszeila Martingo, da Fatec de Rio Preto, confirma que a evasão escolar provocada pelas apostas online é um problema silencioso, mas crescente. Ela vê, entre os universitários, uma redução acentuada do desempenho acadêmico e isolamento social causado pela vergonha de admitir o vício.

Liszeila destaca fatores como a busca por dinheiro fácil, falta de educação financeira, baixa autoestima e até violência familiar como gatilhos para o vício. Ela alerta ainda que o uso de algoritmos, gatilhos mentais e acesso facilitado ao crédito tornam o ambiente das plataformas online especialmente perigoso para os jovens mais vulneráveis.

SAÚDE MENTAL EM COLAPSO
Psicóloga aponta riscos de suicídio e compara vício em apostas ao uso de drogas

A psicóloga cognitivo-comportamental Mara Lucia Madureira afirma que as apostas esportivas online ativam o sistema de recompensa do cérebro da mesma forma que o abuso de substâncias químicas. A imprevisibilidade dos ganhos e os estímulos constantes geram impulsividade, perda de controle e sensação de urgência.

Ela alerta que os primeiros sinais do vício incluem alterações de humor, mentiras, prejuízos nas relações pessoais, insônia, ansiedade e sentimento de culpa. Em casos extremos, podem surgir surtos psicóticos, ideação suicida e tentativas de autoextermínio.

TRATAMENTO É POSSÍVEL, MAS EXIGE APOIO
Terapia, grupos de apoio e intervenção familiar ajudam na recuperação

O tratamento, segundo Mara, envolve intervenções terapêuticas como Terapia Cognitivo-Comportamental, participação em grupos como os Jogadores Anônimos e, em muitos casos, acompanhamento psiquiátrico. A presença da família é essencial para oferecer suporte e estabelecer limites.

“O transtorno do jogo compromete a tomada de decisões e desestrutura planos de vida. A pessoa deixa de investir em formação acadêmica e passa a viver endividada, envergonhada e dependente”, explica a psicóloga.

CAMINHO JURÍDICO E RESPONSABILIDADE DAS PLATAFORMAS
Apostadores podem buscar indenização por vício de consentimento ou propaganda abusiva

Segundo o advogado Henrique Casseb, apesar da falta de regulamentação específica sobre apostas no Brasil, o Código de Defesa do Consumidor pode ser aplicado nesses casos. Se o jogador comprovar vulnerabilidade ou influência de propaganda enganosa, é possível pleitear reparações na Justiça.

“O vício de consentimento implica em nulidade da relação contratual. A dependência ou transtornos mentais tornam o apostador incapaz de avaliar plenamente o que está fazendo”, afirma o jurista. Ele alerta para a urgência de uma regulamentação mais firme no país, enquanto a Justiça já começa a tratar os casos sob o prisma da proteção ao consumidor.

 

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