09 de agosto | 2026
Zilá Garcia transforma a Guerra de Canudos em exposição que une história, cultura e identidade
Em entrevista ao podcast Pod Pai e Filha, a artista plástica Zila Zangirolami Garcia e o historiador canudense João Batista explicaram como nasceu a exposição “Terra”, em cartaz na Estação Cultural de Olímpia (ECO). A mostra reúne pinturas, instalações, documentário e pesquisas sobre Canudos, relacionando a história do sertão baiano à migração nordestina, ao folclore e às origens culturais de Olímpia.
A Guerra de Canudos, um dos acontecimentos mais dramáticos da história brasileira, ganhou uma nova leitura artística em Olímpia. A exposição “Terra”, da artista plástica olimpiense Zila Zangirolami Garcia, em cartaz na Estação Cultural de Olímpia (ECO), propõe ao visitante uma imersão na memória do povo sertanejo por meio de pinturas, instalações, objetos, documentário e relatos históricos.
Na quinta-feira (6), Zila participou do podcast Pod Pai e Filha, acompanhada do historiador João Batista, nascido em Canudos e descendente de sobreviventes da guerra. Durante quase duas horas de conversa, ambos explicaram como surgiu o projeto, a pesquisa realizada no sertão baiano e a intenção de apresentar um olhar mais amplo sobre Canudos, aproximando o público de uma história que, segundo eles, vai muito além dos livros escolares.
A ARTE NASCEU AINDA NA INFÂNCIA
Zila contou que sua ligação com a arte começou muito antes da carreira profissional. Filha de uma professora de pintura, cresceu em meio a tintas, porcelanas e telas no antigo Bazar das Noivas, na Rua São João. Ainda criança, ganhou das alunas da mãe o apelido de “Tintinha”, por estar sempre pedindo um pouco de tinta para pintar junto com elas.
A artista explicou que a inspiração para a atual exposição surgiu durante a leitura de Os Sertões, de Euclides da Cunha. No decorrer da pesquisa, descobriu que parte de sua família era originária da região de Quixeramobim, no Ceará, cidade ligada à trajetória de Antônio Conselheiro. A partir dessa descoberta decidiu viajar até Canudos para conhecer os locais onde ocorreu a guerra e compreender a história diretamente com seus habitantes.
Segundo ela, foi durante essa experiência que percebeu existir uma narrativa muito mais ampla do que aquela apresentada nos livros tradicionais.
“SAIR DA GAIOLA DE OURO”
Um dos conceitos centrais da exposição foi explicado pelo historiador João Batista. Inspirado nos estudos do professor José Calasans, ele utiliza a expressão “sair da gaiola de ouro” para defender que compreender Canudos exige ir além da narrativa clássica de Euclides da Cunha.
Segundo João, embora Os Sertões seja uma obra fundamental da literatura brasileira, conhecer Canudos significa também ouvir os descendentes dos conselheiristas, visitar o território onde tudo aconteceu e compreender a memória preservada pelas famílias que vivem na região até hoje.
Natural de Canudos, João Batista é historiador, pesquisador do Instituto Popular Memória de Canudos, atua na Universidade da Bahia e também desenvolve trabalhos no Centro de Memória Urbana da Unifesp. Ele destacou que sua própria família viveu os desdobramentos do conflito e que sua atuação busca preservar essa herança histórica.
UMA EXPOSIÇÃO PARA VIVER A HISTÓRIA
Em vez de simplesmente ilustrar fatos históricos, Zila buscou criar uma experiência sensorial.
A mostra apresenta cerca de doze obras, além de um documentário gravado durante sua permanência em Canudos. O visitante encontra pinturas inspiradas na paisagem sertaneja, reproduções de elementos históricos e uma instalação que representa uma trincheira construída pelos defensores de Canudos, utilizando pedras trazidas do próprio sertão baiano.
Outra obra de destaque é um espelho cercado por livros, intitulado “Quem é você nessa história?”. Segundo a artista, a intenção é levar cada visitante a refletir sobre suas próprias origens, sua ancestralidade e o papel que ocupa dentro da história do país.
Também integra a exposição um grande painel que retrata a destruição de Canudos, a construção do Açude do Cocorobó, a migração dos nordestinos para São Paulo em caminhões pau-de-arara e a influência dessa população na formação de cidades como Olímpia.
A GUERRA QUE MARCOU O BRASIL
Durante o podcast, João Batista fez um panorama histórico sobre Canudos.
Segundo ele, Antônio Conselheiro fundou, em 1893, o arraial de Belo Monte, reunindo sertanejos, indígenas, ex-escravizados e pequenos agricultores que buscavam viver em comunidade. A organização social e o crescimento do povoado despertaram desconfiança das autoridades republicanas da época, que passaram a enxergar o local como uma ameaça política.
Entre 1896 e 1897, quatro expedições militares foram enviadas contra Canudos. As três primeiras foram derrotadas pelos moradores. Somente a quarta, mobilizando milhares de soldados, conseguiu destruir completamente o arraial, provocando a morte de grande parte da população.
O historiador lembrou ainda que, décadas depois, a antiga Canudos foi novamente apagada fisicamente quando a construção do Açude do Cocorobó submergiu as ruínas da cidade. A atual Canudos, conhecida como terceira Canudos, surgiu após esse processo e hoje preserva museus, memoriais e centros de pesquisa dedicados ao episódio histórico.
CANUDOS E OLÍMPIA SE ENCONTRAM PELA CULTURA
Para João Batista, a aproximação entre Canudos e Olímpia ocorre justamente pela valorização da cultura popular.
Ele afirmou ter ficado impressionado com a dimensão do Festival do Folclore de Olímpia, que conheceu pela primeira vez nesta visita, destacando a preocupação da cidade em preservar manifestações tradicionais vindas de diversas regiões do país. Segundo ele, esse trabalho dialoga diretamente com o esforço realizado em Canudos para manter viva a memória de seu povo.
Zila também ressaltou sua profunda ligação com o Festival do Folclore. Filha do ex-prefeito Wilson Zangirolami, relembrou que acompanhou desde criança a construção do atual Recinto do Folclore, ajudando a família nos preparativos da obra e participando dos primeiros desfiles.
Ela contou ainda que conviveu com figuras históricas do folclore olimpiense, como Zeca Scura, Dona Cidinha Manzolli e outros pioneiros da festa, experiências que influenciaram diretamente sua formação artística.
EXPOSIÇÃO PERMANECE ATÉ FEVEREIRO
A exposição “Terra” permanece aberta gratuitamente na ECO até fevereiro de 2027. Além das obras, os visitantes podem assistir ao documentário produzido por Zila durante sua viagem a Canudos e participar de visitas guiadas realizadas pelos monitores da Estação Cultural.
Durante a entrevista, a artista destacou que espera receber principalmente estudantes e professores, por considerar que a mostra oferece uma oportunidade de aproximar as novas gerações de um dos episódios mais importantes da história brasileira e de refletir sobre identidade, cultura e pertencimento.
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