09 de agosto | 2025
Fefol: um evento cultural que mantém as raízes enquanto se adapta às transformações do tempo
Tradição que resiste e se renova no palco do Festival do Folclore de Olímpia. A festa, que chega à sua 61ª edição, reafirma os valores do professor Sant’anna ao preservar o espírito das manifestações populares e dar voz a novas formas de viver o folclore.

Não é segredo para quem conviveu com o mestre que sua ideia nunca foi realizar um evento que conquistasse o grande público, um evento de massa. Para ele, o necessário era cumprir um único objetivo: ter um palco para que as manifestações folclóricas, todos os anos, tivessem um local para se mostrar para aqueles que conseguem enxergar a importância das tradições, do conhecimento da nossa própria história. E principalmente para que pudessem trocar ideias, se conhecer e continuar a perpetuar a tradição, passando os folguedos para filhos e seguidores.
FESTIVAL REAFIRMA
MISSÃO CULTURAL
Nesse ponto, não há o que contestar. O Fefol, neste ano, não só manteve os objetivos do professor como ampliou sua proposta, trazendo mais de dois mil integrantes de grupos folclóricos e parafolclóricos para respirarem as tradições brasileiras, para discutirem e entenderem o que somos, de onde viemos e até para onde estamos caminhando.
O público? Ah, tirando os estudiosos do tema e os visitantes, embora vários tenham sido os eventos realizados pela cidade, entre escolas, movimentação pelas ruas e até em empresas, e tenha havido um ligeiro aumento, continua sendo considerado pequeno, significando que o olimpiense, após dezenas de festivais, ainda não tem percepção da amplitude e da importância da realização que sua cidade promove.
O “QUERMESSÃO”
COMO PILAR POPULAR
Como sempre costumo contar, o professor foi salvo por leigos no assunto, ou seja, por aqueles que viam a necessidade de conseguir alguma forma de angariar fundos para um evento que iria se tornar gigante e passaram a vender espaços para o comércio e outras exposições que acabaram criando uma outra coisa que hoje não se pode negar que também é folclórica: o “quermessão” no entorno do palco, hoje arena, ou praça de atividades folclóricas que leva o nome do mestre.
A população acabou sendo peça importante na perpetuação do evento, já que até hoje aguarda com ansiedade a semana do nosso festival, para comer o churrasquinho, a cuiabana, o lanche de linguiça, comer um “quebra-queixo”, uma maçã do amor, tomar um vinho e até levar as crianças nos parques que há décadas são armados ao redor, quando a festa acontecia na praça, no Ginásio de Esportes, e hoje tem seu próprio local, o Recinto do Folclore, como ficou conhecido.
RAÍZES POPULARES
QUE MANTÊM O EVENTO
Foi justamente essa “infolcloriedade”, na época, que deu sustentabilidade ao gigantismo do Festival. Pois, aquém do apelo e da importância cultural, até para se conseguir verbas públicas e manter as dezenas de grupos vindo para a cidade, precisaria do apelo do número de pessoas reunidas no recinto.
Mais de 60 grupos, mais de dois mil integrantes destes mesmos grupos e um público do “quermessão” que não está decepcionando. Ah, o público das arquibancadas, com exceção da abertura onde centenas de famílias levam seus filhos, alunos da rede municipal para dançar, também teve um ligeiro aumento.
TRADIÇÃO E PROJEÇÃO
CAMINHAM JUNTAS
A verdade, gente, é que, com certeza, a festa deste ano está mostrando que as duas coisas caminham de braços dados e têm condições de continuar por muito tempo. Não só pela magnitude do evento, mas, principalmente, por uma constatação que este aluno do mestre chegou e que, sem dúvidas, é um alento para quem acreditava que no futuro a tradição de famílias e comunidades preservando suas tradições daria lugar para a mera projeção estilizada disso tudo.
Em contato direto com vários grupos durante estes dias, este discípulo do mestre e louvador de Curupiras, Sacis, Bois-Tatás e Mulas sem Cabeça, que sempre foi um observador e crítico de nossas tradições, também um pesquisador, chegou a duas conclusões extremamente importantes.
FOLGUEDOS DESAPARECEM,
MAS OUTROS RENASCEM
Embora muitos folguedos estejam se dissolvendo pela falta de interesse de seus integrantes, como o Caiapó, que sempre chamava atenção com o rapto da Bugrinha (Toninho Clemêncio cansou de correr com a bugrinha na maioria dos festivais que o grupo participou), outros estão se multiplicando, com integrantes formando outros cultuando a mesma tradição.
Em Olímpia mesmo, nós já tivemos o exemplo vivo de famílias que carregavam consigo tradições de Folias de Reis e do Congado e mantinham as duas tradições. Mas o que mais chamou a atenção deste ano foi a história de um grupo do Rio Grande do Sul, o Centro de Pesquisas Folclóricas Raízes Litorâneas/RS, que acabou optando por ser uma dissidência dos chamados CTGs (Centro de Tradições Gaúchas), por estes estarem estilizando e projetando demais suas tradições para competir entre eles, preferindo continuar próximo das raízes, para participar não de competições, mas de festivais como os de Olímpia, onde as raízes e não a suntuosidade, o apelo para as massas ou para os jurados, são o destaque.
TRADIÇÃO QUE
SE TRANSMITE VIVA
Isso mostra que quem estuda as próprias raízes quer mantê-las próximas de sua própria realidade. E, em muitos desses casos, a tradição vai se perpetuar de pai para filho, de mestre para discípulo e assim por diante.
Mas o que mais chamou a atenção deste pensador foi a constatação, a interpretação, o entendimento da quebra das amarras de que folclore é só aquilo que é velho, aquilo que pertence ao passado distante.
O FOLCLORE É DINÂMICO
E ATUALIZÁVEL
O choque, a quebra das amarras, veio da entrevista feita com o líder do Cordão Sucatas Ambulantes/SP, que demonstrou, deu sustentação para o surgimento da tese de que o folclore é dinâmico e, embora sempre acompanhando tradições oriundas, sobretudo, de negros, indígenas e portugueses — os principais formadores da base étnica do nosso povo —, pode ser atualizado por novas danças, novas músicas, novas histórias, novas tradições.
O grupo, que surgiu em comunidades de Itaquera, bairro da capital São Paulo, tem ligações com o carnaval, que, por sua vez, no Brasil, foi introduzido pelos portugueses por meio do entrudo e, com o tempo, foi profundamente transformado pela influência dos ritmos, sons e expressões culturais de origem africana.
TRADIÇÃO CRIADA
EM TEMPOS RECENTES
O Cordão Folclórico de Itaquera Sucatas Ambulantes foi fundado em 2007 e sempre vai às ruas com a batucada do samba de bumbo, contribuindo com a preservação de uma das expressões mais antigas do carnaval, levando muita alegria e diversão aos foliões, além de uma chuva de brilho, fantasias criativas e serpentinas de todas as cores.
O grupo trabalha na preservação do samba de bumbo e se enquadra com certeza no conceito de grupo folclórico, e não parafolclórico ou de projeção folclórica, pois seus integrantes vivem uma tradição formada no bairro, respiram essa tradição e com certeza estarão passando de pai para filho, de mestre para discípulo, ao longo de sua existência.
VIDA LONGA AO FOLCLORE,
SALVE SANT’ANNA
Vida longa para o folclore e que Sant’anna continue a fomentar em seus seguidores o gosto pelo entendimento das tradições.
Sua bênção, grande mestre.
Que seu exemplo continue a nos guiar, para que sejamos folguedos vivos enquanto pudermos respirar a essência de nossa história e viver com alegria o legado das nossas raízes.
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