11 de maio | 2025
Mães no século XXI: entre o amor sublime e o peso insustentável das cobranças
Neste Dia das Mães, é hora de refletir sobre os desafios reais enfrentados pelas mulheres que maternam em um mundo hiperconectado, desigual e exigente, onde a liberdade conquistada trouxe consigo uma avalanche de responsabilidades, pressões sociais e solidão emocional.

Mais do que um papel biológico ou cultural, a maternidade tornou-se uma construção complexa, atravessada por disputas simbólicas, escolhas políticas e conflitos emocionais. Entre o amor incondicional e as exigências infinitas, muitas mulheres se veem soterradas por uma carga mental que segue invisível aos olhos de muitos, mas que pesa como chumbo em seus ombros.
A MÃE IDEAL AINDA É UMA PRISÃO
As conquistas femininas do último século são inegáveis: direito ao voto, escolarização, inserção no mercado de trabalho, autonomia reprodutiva. Porém, a maternidade parece ter ficado à margem desses avanços. Em vez de libertação, muitas mulheres experimentam uma substituição de correntes: saíram da clausura doméstica, mas entraram na jaula da superperformance.
Esperam-se mães que amamentem por dois anos, alimentem com orgânicos, cuidem da carreira, da casa, da saúde emocional dos filhos, estejam bem maquiadas e ainda postem fotos felizes no Instagram. O mito da supermãe não liberta – oprime. E a idealização do maternar como missão sagrada apenas camufla a negligência com a saúde física e mental dessas mulheres.
A TECNOLOGIA CONECTA,
MAS TAMBÉM ISOLA
No lugar das praças e ruas de antigamente, os filhos de hoje crescem em frente às telas. As mães, por sua vez, tentam desesperadamente manter vínculos com crianças que preferem o TikTok a conversa de mesa. Respondem mensagens de trabalho enquanto supervisionam tarefas escolares, gravam vídeos para redes sociais enquanto esquentam a mamadeira.
A vida multitarefa virou rotina. E a conexão digital, ao mesmo tempo em que aproxima por um clique, impõe barreiras invisíveis entre corpos e afetos. Nunca foi tão difícil estar presente de fato, e nunca foi tão comum sentir-se culpada por não conseguir.
QUANTO MAIS LIBERDADE,
MAIS RESPONSABILIDADE
Escolher se, quando e como ser mãe é um direito conquistado com muito custo. Hoje, as mulheres decidem se querem filhos, quantos terão e como criá-los. Mas essa liberdade trouxe outra cobrança: se escolheu ser mãe, então que dê conta de tudo. Se não deu conta, é porque não se preparou o suficiente.
A autonomia feminina, em vez de ser acompanhada por redes de apoio, políticas públicas e divisão real das tarefas parentais, muitas vezes se traduz em solidão. A maternidade deixou de ser destino para ser projeto. Mas um projeto que, se fracassa, recai inteiramente sobre os ombros da mulher.
AS MÃES DO PASSADO TINHAM REDE,
AS DE HOJE TÊM JULGAMENTO
Se é verdade que as mães de antigamente enfrentavam outras formas de sofrimento – como submissão legal ao marido, pobreza extrema e falta de acesso à saúde –, elas ao menos contavam com vizinhas, avós e comadres que ajudavam, acolhiam, dividiam.
Hoje, muitas mães estão ilhadas em apartamentos minúsculos, afastadas da família, sem ajuda real. Trocam conselhos por comentários anônimos na internet. E, no lugar da escuta, recebem julgamento: “não amamentou?”, “não voltou a trabalhar?”, “trabalha demais?”, “deixa na creche?”. Qualquer escolha vira motivo para crítica.
MATERNIDADE PRECISA SER ESCUTADA,
NÃO MITIFICADA
É hora de parar de exigir que as mães sejam santas, fortes, perfeitas, resilientes o tempo inteiro. Mãe também é gente. Sente dor, cansaço, raiva, arrependimento. Tem direito ao descanso, ao erro, ao cuidado. O amor materno não é um recurso infinito – é um laço que se fortalece quando é nutrido também por quem está ao redor.
Não basta enaltecer as mães uma vez por ano. É preciso políticas públicas que garantam creches, licença parental estendida, acesso à saúde mental. É necessário respeito cotidiano, divisão justa de responsabilidades, reconhecimento concreto.
ENTRE A CIÊNCIA, A FÉ E A FILOSOFIA:
UMA EXPERIÊNCIA HUMANA COMPLEXA
A filosofia revela que a maternidade não é um destino biológico, mas uma escolha existencial. A sociologia mostra que ela é um papel social mutável. A ciência comprova que o cuidar é um comportamento aprendido, influenciado por fatores ambientais. E a religião, mesmo ao santificar a figura materna, nem sempre protege as mulheres da opressão cultural.
Todas essas perspectivas convergem para um ponto essencial: ser mãe é uma experiência complexa e profundamente humana, marcada por contradições, emoções intensas, angústias e alegrias.
FELIZ DIA DAS MÃES – TODOS OS DIAS
Neste domingo, muitas mães vão sorrir entre lágrimas. Vão se emocionar com desenhos coloridos e mensagens tocantes. Mas também vão dormir preocupadas com o amanhã.
Que este 11 de maio não seja apenas mais um dia de homenagens vazias. Que seja um convite à escuta real, à presença concreta e à mudança estrutural. Porque ser mãe, hoje, é mais do que dar a vida: é sustentar o mundo – e ninguém deveria carregar isso sozinha.
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