20 de julho | 2025

O Amor cansado e a poesia do final que teima em se manifestar

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José Antônio Arantes – Era uma manhã qualquer, como tantas outras. O relógio ainda tentava se acostumar com o dia, quando dois dedos trêmulos escreveram um desabafo que talvez ecoasse há anos dentro do peito. “Por que você me maltrata desse jeito?”, digitou ele, não mais com a força de um apaixonado, mas com o lamento exausto de quem carregava o peso do mundo — e de uma relação que se tornou silenciosa demais.

Do outro lado, ela respondeu com uma franqueza que corta mais fundo que qualquer grito: “Acredito que o meu poço de amor secou”. Não era raiva. Era o esgotamento. O tipo de cansaço que não se cura com sono, nem com flores.

Ambos, ali, não pediam amor. Pediam socorro.

O que se desdobrou em seguida não foi uma briga. Foi um concerto em dois atos, com vozes trêmulas cantando a mesma melodia de exaustão. Ele falava da mente sobrecarregada, do corpo em repetição automática, da escravidão moderna disfarçada de produtividade. Ela falava da alma apagada, da ausência de si mesma, da vida reduzida a uma função. Não eram inimigos. Eram soldados feridos, voltando de batalhas diferentes, sem conseguir se reconhecer mais.

O amor, aquele que antes transbordava, agora pingava pelas frestas do cotidiano, como uma torneira mal fechada que incomoda de madrugada.

Quando ela disse: “Já pensei em abandonar tudo”, ele repetiu sua pergunta como um eco sem resposta: “Até quando vou ficar levando porrada, porrada, porrada?”. E, por um momento, pareciam dois adolescentes cansados de fingir que crescer era um prêmio. Mas ali estavam, maduros, experientes, lúcidos… e ainda assim perdidos.

Então entrou a poesia. Não aquela rimada e delicada, mas a que vem com guitarra, com dor, com a voz rouca de Cazuza. Ele digitou os versos como quem escreve no espelho: “Minha metralhadora cheia de mágoas / Eu sou um cara… cansado de correr na direção contrária…”. A música não foi uma fuga. Foi um espelho. Uma tradução. Uma tentativa de dizer: “Sinto tudo isso, e não sei mais como explicar”.

Ela entendeu. Disse que o mundo é assim mesmo, que ninguém ouve ninguém, que até os que pouco têm a fazer estão igualmente exaustos. E falou dos cachorros, seres simples e intensos, que amam sem cobrança. Talvez desejasse ser um deles.

Mas então, veio a fresta de sol no meio do cinza: “Ainda sou útil na Terra”. E foi talvez a frase mais esperançosa daquele diálogo todo. A utilidade como último fio que nos prende à vida. Não o amor romântico, não os planos, mas a sensação de ainda fazer falta para alguém. E por isso continuar.

No fim, ela escreveu o que talvez seja o antídoto para tantas angústias: “Depende só da gente. Não esperar nada de ninguém”. Não como um grito de independência fria, mas como um reencontro com a própria força. Com a parte de nós que ainda quer ficar.

Essa crônica não tem final feliz. Tem um final possível. Um abraço não dado, mas talvez sentido. Duas almas que ainda conversam, mesmo que em códigos tristes. E a certeza de que o tempo — ah, o tempo — não para. Mas, quem sabe, a gente ainda consiga parar um pouco… e respirar.

Mesmo que só por um instante.

 

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