27 de julho | 2025
O amor segundo Nicole

Nicole, com a coragem bruta da juventude, escreve como quem atira verdades:
“Estranho fala tanto de amor e não consegue vir falar com a própria neta!”
Do outro lado da tela, o avô filósofo tenta responder como sabe: com palavras. Mas palavras são rios e, às vezes, netas de 13 anos querem pontes.
“Por que será?”, ele provoca, como se a pergunta fosse uma porta.
“Pq não tem amor incondicional”, ela rebate, sem vírgulas nem concessões.
Ela o desarma. Ele, homem de livros e reflexões, é pego pelo argumento mais simples e implacável: o amor que não age, não é amor.
O filósofo, então, desce do púlpito e pisa no chão duro da humanidade:
“O amor incondicional é uma conquista diária, uma luta gigantesca e cheia de recaídas…”
Ele sabe – e tenta dizer – que até o amor mais puro é feito de tropeços. Que ser avô não é ser perfeito, é ser humano com saudades, falhas e silêncios.
Mas Nicole, com seus 13 anos, não quer tratados. Quer presença.
Quer ser compreendida, não interpretada. Quer o abraço antes da explicação.
Ela não quer o avô pensador; quer o avô inteiro, mesmo cansado, mesmo inseguro.
Quer que ele aceite suas sandices, suas mudanças bruscas, seus silêncios barulhentos, como quem ama o sol mesmo quando ele queima.
Porque o amor incondicional, para ela, é isso:
ficar mesmo quando tudo parece um campo minado.
É ouvir sem corrigir. É não fugir quando o outro está em chamas.
E entre os dois — a ponte tênue entre gerações — está a mãe.
Ela ouve os gritos em silêncio, traduz os dois idiomas, tenta acalmar sem apagar o fogo de nenhum dos lados.
Vê a filha exigindo amor absoluto e o pai tentando ensinar que ele também é feito de dúvidas.
Ela entende ambos. Sofre com ambos. E, como mãe, deseja que se vejam não como adversários em trincheiras emocionais, mas como partes do mesmo laço.
Ela sabe que Nicole quer amor sem medida, mas também sabe que o avô ama mais do que mostra.
E que às vezes o que falta não é sentimento, mas coragem de se despir das defesas — inclusive as filosóficas.
Talvez, no fim, o amor incondicional não seja perfeito nem pleno.
Mas seja esse esforço honesto de seguir tentando, mesmo quando a alma já está cansada e as palavras não bastam.
E talvez amar alguém de 13 anos seja o maior exercício filosófico que um avô pode enfrentar.
E talvez — talvez — o filósofo precise apenas fazer silêncio… e ir até ela.
Porque às vezes, o gesto mais sábio… é só estar lá.
E nesse gesto, quem aprende… é o avô.
E quem ensina… é a neta.
E quem sustenta tudo isso… é a mãe.
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