12 de julho | 2026

O novo ladrão não pula muros. Ele entra pela confiança

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A explosão dos golpes financeiros revela uma transformação silenciosa da criminalidade: hoje, o maior patrimônio roubado pode ser a boa-fé das pessoas.

José Antônio Arantes – Durante muito tempo, quando se falava em crime patrimonial, a imagem que vinha à mente era a de um ladrão escalando muros, arrombando portas ou quebrando vitrines. O criminoso precisava estar presente, correr riscos e enfrentar a possibilidade de ser surpreendido pela vítima ou pela polícia.

Hoje, essa realidade mudou profundamente.

O criminoso moderno, na maioria das vezes, sequer precisa sair de casa. Ele utiliza um telefone celular, um computador e, acima de tudo, conhece muito bem o comportamento humano. Seu principal instrumento já não é uma arma, mas a capacidade de convencer.

GOLPES VARIADOS

Nas últimas meses, as páginas policiais têm registrado uma sucessão de casos envolvendo golpes dos mais variados tipos.

Falso advogado, falsa revisão de juros, empréstimos fraudulentos, compras realizadas em nome de terceiros, golpes do Pix, falsas amizades, clonagens e inúmeras outras modalidades fazem parte de uma lista que parece crescer diariamente.

Não se trata mais de episódios isolados, mas de uma verdadeira epidemia silenciosa que atravessa todas as classes sociais e atinge pessoas de diferentes idades, em grande parte dos casos, tristemente, idosos aposentados.

UMA CRIMINALIDADE QUE EVOLUIU

Se antes o criminoso precisava estudar a rotina da vítima para invadir sua residência, hoje ele pesquisa perfis nas redes sociais, acompanha publicações, identifica vínculos familiares e coleta informações disponíveis publicamente.

Muitas vezes sabe onde a pessoa trabalha, conhece o nome dos filhos, identifica amigos e até descobre quais instituições financeiras ela utiliza.

Quanto maior a quantidade de informações disponíveis, maior a capacidade de construir uma história aparentemente verdadeira.

EXPLORANDO A CONFIANÇA

O mais preocupante é que esses golpes exploram justamente aquilo que deveria ser uma qualidade humana: a confiança.

Ninguém é enganado apenas por falta de inteligência. Pessoas extremamente instruídas, empresários, profissionais liberais, aposentados e servidores públicos também figuram entre as vítimas.

O criminoso trabalha com urgência, medo, esperança ou ganância. Ele cria situações emocionalmente intensas para impedir que a vítima pare, reflita e confirme as informações antes de tomar uma decisão.

A TECNOLOGIA ABRIU PORTAS PARA O BEM E PARA O MAL

Nunca foi tão fácil resolver problemas financeiros, fazer pagamentos, contratar serviços ou transferir dinheiro. Em poucos segundos, qualquer pessoa movimenta valores elevados diretamente pelo celular. Essa facilidade representa um enorme avanço da sociedade, mas trouxe consigo uma responsabilidade igualmente grande: a necessidade de desenvolver uma cultura permanente de segurança digital.

Os criminosos compreenderam rapidamente essa mudança. Enquanto bancos e empresas investem em tecnologia para proteger seus sistemas, muitos golpes continuam sendo aplicados não contra os computadores, mas contra as pessoas.

O elo mais vulnerável não é o aplicativo bancário. É o ser humano. E é justamente por isso que tantas fraudes ainda conseguem fazer vítimas diariamente.

A INFORMAÇÃO É A PRIMEIRA LINHA DE DEFESA

É impossível imaginar que a polícia conseguirá impedir todos os golpes. Muitos deles são praticados por organizações criminosas instaladas em outros estados ou até mesmo em outros países.

As investigações costumam ser complexas, envolvem contas bancárias abertas com documentos falsos, empresas de fachada e uma cadeia de intermediários criada justamente para dificultar a identificação dos verdadeiros responsáveis.

Por isso, a prevenção torna-se tão importante quanto a repressão. Informar, orientar e repetir constantemente os principais cuidados pode parecer cansativo, mas continua sendo uma das ferramentas mais eficazes para reduzir o número de vítimas.

Confirmar uma ligação, desconfiar de mensagens urgentes, nunca fornecer senhas, evitar clicar em links desconhecidos e conversar com familiares antes de realizar pagamentos são atitudes simples que podem evitar prejuízos financeiros e emocionais enormes.

UMA RESPONSABILIDADE DE TODA A SOCIEDADE

Também é necessário reconhecer que combater esse tipo de criminalidade não é tarefa exclusiva das forças de segurança. Bancos, empresas de telefonia, plataformas digitais, órgãos públicos, escolas, veículos de comunicação e famílias têm papel fundamental na construção de uma sociedade mais preparada para enfrentar essas novas ameaças.

Os meios de comunicação, especialmente os jornais locais, possuem uma responsabilidade ainda maior. Cada notícia publicada sobre um golpe não deve servir apenas para registrar mais uma ocorrência policial. Ela precisa funcionar como um alerta coletivo. Ao conhecer a estratégia utilizada pelos criminosos, outras pessoas podem reconhecer situações semelhantes e impedir que o mesmo golpe continue fazendo novas vítimas.

O MAIOR PREJUÍZO NEM SEMPRE É O DINHEIRO

Em muitos casos, o dinheiro perdido pode até ser recuperado parcialmente. O que dificilmente volta é a tranquilidade. Há vítimas que passam meses convivendo com vergonha, culpa, medo e desconfiança.

Algumas deixam de utilizar serviços digitais, outras passam a desconfiar de qualquer ligação telefônica e há quem evite até atender mensagens de familiares por receio de estar diante de mais uma fraude.

Esse impacto psicológico costuma receber pouca atenção, mas merece ser discutido. Afinal, o objetivo do criminoso não é apenas retirar dinheiro da conta bancária. Ele também destrói a sensação de segurança, compromete relações de confiança e alimenta um ambiente em que todos passam a olhar o próximo com suspeita.

MAIS DO QUE NUNCA, É PRECISO DESCONFIAR

Vivemos uma época em que a informação circula em velocidade impressionante e, ao mesmo tempo, a mentira tornou-se sofisticada. Fotografias, documentos, vozes e até vídeos podem ser manipulados para convencer uma vítima de que está diante de uma situação verdadeira.

Isso exige uma mudança de comportamento.

A confiança continua sendo um valor indispensável para qualquer sociedade saudável, mas ela precisa caminhar ao lado da prudência.

O novo ladrão realmente não pula muros. Ele atravessa a tela do celular, entra pelas redes sociais, pelas mensagens instantâneas e pelas ligações aparentemente inofensivas.

Seu alvo não é apenas o dinheiro depositado em uma conta, mas a boa-fé que sustenta as relações humanas.

Combater essa nova criminalidade exige investigação, tecnologia e punição, mas, acima de tudo, exige informação. Porque, diante de golpes cada vez mais sofisticados, conhecimento continua sendo a melhor forma de proteção.

 

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