31 de dezembro | 2025
Olímpia 2025: do luto por Benatti à revolta com a Sabesp e o “Tronco da Vergonha”
Um ano histórico marcado pela perda do maior visionário da cidade, pelo sucesso estrondoso do Jubileu de Castanheira e pelas polêmicas ambientais e tarifárias que feriram o orgulho olimpienses.
José Antônio Arantes – O ano de 2025 entra para os anais da Estância Turística de Olímpia como um período de profundas dualidades. Foi o ano em que a cidade precisou aprender a caminhar sem a presença física de seu maior benfeitor, Benito Benatti, ao mesmo tempo em que celebrou a maior edição da história de seu Festival do Folclore.
Entre o luto e a festa, a população viveu sob a tensão de epidemias, o medo da violência urbana modernizada e a indignação contra corporações que pareceram atuar contra o interesse público.
PERDEU CARTÃO POSTAL
Se a economia do turismo continuou a girar com a força das águas termais, a infraestrutura e o custo de vida trouxeram dores de cabeça reais para o cidadão comum.
O registro histórico deste ano não pode ignorar os fatos: Olímpia cresceu, apareceu para o Brasil, mas também sangrou em sua identidade ambiental e no bolso de seus contribuintes.
O FIM DE UMA ERA E A ETERNIDADE DE BENITO
A data de 19 de junho de 2025 ficará marcada como o encerramento de um ciclo fundacional. Aos 93 anos, faleceu Benito Benatti, o “prefeito sem pasta” que transformou um poço de petróleo fracassado em um dos maiores complexos turísticos do mundo.
O luto oficial de sete dias decretado na cidade foi pouco para dimensionar o vazio deixado pelo homem que desenhou o futuro de Olímpia.
Sua partida, no entanto, não paralisou seu legado: o Thermas dos Laranjais anunciou a breve conclusão do complexo “Nações”, outras atrações de vulto em seu novo terreno e a cidade articulou em Brasília a nomeação do futuro Aeroporto Internacional com o nome de seu patriarca.
THERMAS CONTINUOU COMO MOTOR ECONÔMICO
A transição para a era pós-Benatti demonstrou a robustez do modelo que ele criou. Sob a gestão de Jorge Noronha e Débora Vicente, o parque manteve-se como o motor econômico da cidade, gerando empregos e atraindo parcerias globais, como a visita inédita de executivos da Coca-Cola para discutir sustentabilidade.
O ano provou que a visão de Benatti estava tão enraizada que a cidade seguiu prosperando, transformando a saudade em combustível para novos projetos.
A MOTOSSERRA DA VERGONHA E O CRIME CONTRA A HISTÓRIA
Se a cidade soube honrar seu criador humano, falhou miseravelmente em proteger seu patrimônio natural. Em outubro, Olímpia assistiu, incrédula e revoltada, ao que ficará conhecido como o “Tronco da Vergonha”.
A CPFL, com a frieza burocrática das grandes corporações e amparada por laudos técnicos que ignoraram a alma da cidade, passou a motosserra na Figueira centenária da Vicinal Álvaro Marreta.
MERO OBSTÁCULO
A árvore, um cartão-postal vivo que recebia quem chegava à cidade, foi tratada como um mero obstáculo para a passagem de fios e postes de uma nova subestação.
O ato foi um crime contra a memória afetiva de gerações.
A justificativa de que se tratava de uma espécie exótica em propriedade privada serviu como um escudo cínico para a falta de sensibilidade e de criatividade da engenharia elétrica.
FACETA CRUEL DO “PROGRESSO” A QUALQUER CUSTO
Derrubar um gigante verde, que sobreviveu há décadas de mudanças, para economizar no desvio de uma rede de energia, expôs uma faceta cruel do “progresso” a qualquer custo.
O toco deixado no chão não é apenas madeira morta; é um monumento à ganância e à falta de respeito com a paisagem urbana de Olímpia.
O ASSALTO DA SABESP E A TORNEIRA DO LUCRO
Não bastasse a agressão ambiental, o olimpiense sentiu no bolso o peso da exploração tarifária. A Sabesp protagonizou um dos capítulos mais amargos do ano ao aplicar um reajuste de 8,61% nas contas de água e esgoto em outubro.
O índice, muito acima da inflação, consolidou Olímpia como refém de uma das tarifas mais caras entre as cidades operadas pela concessionária.
VIROU AS COSTAS PARA A POPULAÇÃO
Enquanto a população sofria com o custo de vida, a empresa parecia virar as costas para as reclamações sobre a qualidade do serviço, tratando o fornecimento de um bem vital como um balcão de negócios de luxo.
A revolta popular foi palpável nas redes sociais. A sensação geral foi de que a cidade, rica em águas termais que geram milhões no turismo, penaliza seus moradores com água potável a preço de ouro.
O ESCÁRNIO DO AUMENTO
O aumento soou como um escárnio em um ano economicamente desafiador, reforçando a imagem de uma concessionária que prioriza dividendos em detrimento do bem-estar social da comunidade onde opera.
O ano de 2025 provou que ter a Sabesp na cidade custa caro, e custa cada vez mais, pois o atendimento também foi alvo de críticas e até questionamentos por corte de fornecimento.
A EPIDEMIA DE DENGUE E OS NÚMEROS DA DOR
Na saúde pública, os fatos falaram mais alto que qualquer discurso. Olímpia enfrentou uma batalha severa contra o Aedes aegypti. Foram 4.135 notificações e 1.446 casos confirmados de dengue, números que configuraram uma epidemia e levaram à decretação de Situação de Emergência em março.
O registro mais triste dessa guerra foi o falecimento de uma idosa de 72 anos, vítima confirmada da doença. Embora as ações de limpeza tenham derrubado os casos em 60% no final do ano, a cicatriz do medo permaneceu nos bairros mais afetados.
TRÊS MORTES POR COVID-19
Além da dengue, o sistema de saúde conviveu com o fantasma da Covid-19 e surtos de bronquiolite que lotaram a UPA.
Olímpia passou a maior parte de 2025 sem registrar mortes por Covid-19, com os primeiros óbitos ocorrendo apenas a partir de setembro. No total, o município contabilizou três mortes pela doença ao longo do ano, segundo dados oficiais da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo (SEADE)
MUTIRÕES DE LIMPEZA
A resposta veio na forma de mutirões de limpeza, que retiraram dezenas de caminhões de lixo das ruas, e na promessa de ampliação da Santa Casa para 2026.
O ano deixou claro que, em uma cidade turística com alto fluxo de pessoas, a vigilância sanitária não pode relaxar nem por um segundo, como ocorria na administração pública anterior.
O SANGUE NO NATAL E A CRÔNICA POLICIAL
A segurança pública em 2025 foi marcada pela audácia do crime.
O fato mais chocante ocorreu no dia sagrado do Natal: a execução de Danilo Vinicius Garcia, de 40 anos, fuzilado em plena luz do dia no bairro Harmonia.
A ação foi capturada por câmeras e divulgada pela própria viúva em um apelo desesperado por justiça.
Este homicídio, somado à prisão de um membro da facção “Cartel” em uma pousada local e à descoberta de traficantes usando máquinas de cartão e PIX, revelou que o submundo do crime em Olímpia se modernizou e se tornou mais violento.
As rodovias também cobraram seu preço em vidas.
O tombamento de um ônibus de turismo na véspera de Natal, que resultou na morte de uma mulher e uma criança, e o acidente fatal no Trevo do Tamanduá em maio, foram tragédias que reforçaram a urgência da duplicação da SP-425.
Estes eventos não foram casos isolados, mas sim pontos críticos em um ano onde a sirene das ambulâncias e das viaturas policiais fez parte da trilha sonora da cidade com uma frequência alarmante.
GRANDES OBRAS E A CONSAGRAÇÃO CULTURAL
No campo da infraestrutura e cultura, 2025 teve seus louros. A conclusão da Vicinal Natal Breda em outubro, após anos de espera e buracos, foi um alívio para produtores e turistas, representando um investimento estadual de R$ 22 milhões que finalmente saiu do papel.
Por outro lado, o sorteio das 150 casas do “Habita+Olímpia” gerou controvérsia, com denúncias de irregularidades que forçaram a prefeitura a abrir auditorias, mostrando que a questão habitacional ainda é um nervo exposto na sociedade local.
CULTURA EM DESTAQUE
Por fim, a cultura foi a grande redentora. O 61º Festival do Folclore, o “Jubileu de Castanheira”, foi um sucesso absoluto de crítica e público.
Com a participação inédita de grupos de todos os estados brasileiros e transporte gratuito para a população, o evento reafirmou Olímpia como a Capital Nacional do Folclore.
O lançamento do livro “Zé da Festa” eternizou a memória de quem plantou essa semente, fechando o ano com a certeza de que, apesar dos problemas, das perdas e das injustiças, a identidade de Olímpia permanece viva e pulsante.
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