01 de fevereiro | 2026

Olímpia sob as águas: A conta da impermeabilização chegou e o carnê está vencido

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A chuva de 95mm não é culpa da Prefeitura, mas o alagamento é consequência de escolhas. Entre a água que estacionou no céu e o asfalto que selou o chão, Olímpia precisa decidir o que fazer antes que a próxima tempestade leve embora mais do que apenas a esperança da população.

 José Antônio ArantesA quarta-feira, dia 28 de janeiro de 2026, serviu um prato frio e indigesto à população de Olímpia: a realidade. A natureza nos lembrou, com a brutalidade de 95 milímetros de água em três horas, que não existe cidade viável sem chão que beba água. O evento não foi um acidente; foi um sintoma agudo de uma doença crônica chamada urbanização impermeável.

A pergunta que ecoa de norte a sul da cidade é: por que chove tanto ultimamente? A ciência nos dá a primeira metade da resposta. Estamos sob a influência de uma Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS). Para o leigo, imagine um rio voador que nasce na Amazônia e deságua exatamente sobre as nossas cabeças.

Esse sistema estacionou sobre o Sudeste, alimentado por um oceano mais quente e uma atmosfera global em ebulição. O “novo normal” climático não é uma teoria para o futuro; é a água que entrou na loja da avenida e na casa da moradora do Jardim Glória na quarta-feira. Eventos extremos, que antes ocorriam a cada década, agora viraram rotina de verão.

O PARADOXO DO PROGRESSO ASFÁLTICO

Mas culpar apenas São Pedro não é a solução. A segunda metade da resposta está aqui embaixo, no solo que pisamos e selamos. Olímpia cresceu vertiginosamente. A cada novo loteamento aprovado, a cada nova avenida duplicada, a cada terreno concretado, retiramos da terra sua capacidade natural de absorção. Transformamos a cidade em uma pista de autorama para a água da chuva. Sem ter onde infiltrar, a água corre. E corre rápido. E corre com raiva, buscando o fundo do vale, onde, infelizmente, construímos nossas principais avenidas e a vida de milhares de pessoas.

O colapso das obras na Avenida Andrade e Silva e na Menina Moça é a prova cabal desse descompasso. Não se trata apenas de “má execução” de uma empresa terceirizada, embora isso deva ser punido com o rigor da lei. Trata-se de uma engenharia que parece estar sempre correndo atrás do prejuízo.

Construímos galerias para a chuva de ontem, mas o clima nos manda a tempestade de amanhã. A pressa em entregar obras viárias – liberando o tráfego sobre galerias ainda não consolidadas – revela uma prioridade perigosa: a fluidez do carro vale mais do que a segurança da infraestrutura? O asfalto que cedeu e engoliu a via é a metáfora perfeita de um planejamento que privilegia a superfície estética em detrimento da fundação sólida.

PISCINÕES: A SOLUÇÃO OU O PALIATIVO?

A administração municipal acena com a solução dos “piscinões”. O conceito é correto: se não podemos evitar a chuva, devemos segurá-la antes que ela destrua o centro. Mas a execução é lenta. A burocracia estatal, a demora nos repasses e, sejamos francos, a falta de prioridade política histórica para obras que ficam enterradas nos trouxeram a este ponto.

O piscinão do Bar Landão e as obras de retenção precisam sair do papel com urgência de guerra. Não podem ser obras de “gestão”, têm que ser obras de “salvação”.

ENFRENTAR INIMIGO MORTAL

Além disso, piscinão sozinho não faz milagre. Olímpia precisa rever seu Plano Diretor com a coragem de quem enfrenta um inimigo mortal. É preciso exigir taxas de permeabilidade reais nos novos empreendimentos.

Não adianta o resort ter uma piscina gigante se o estacionamento é um deserto de concreto que joga toda a água na rua.

Precisamos de “jardins de chuva”, de calçadas que respirem, de parques lineares que aceitem ser inundados para proteger as casas. Precisamos copiar de Orlando não apenas o Mickey, mas a engenharia de gestão de águas da Flórida, uma região que vive em pântanos e sabe lidar com tempestades.

A CULTURA DO “JÁ PASSOU”

O maior risco agora, passados alguns dias do susto, é o esquecimento. O sol vai sair, a lama vai secar, o restaurante vai reabrir e a vida vai seguir. E é nesse “seguir” que mora o perigo. Se tratarmos o dia 28 de janeiro apenas como “aquele dia que choveu muito”, estaremos condenados a repeti-lo, talvez com consequências trágicas.

A indignação das redes sociais, os vídeos dos carros arrastados e o choro das famílias que perderam pertences devem servir de combustível para uma cobrança cívica permanente.

O ATÍPICO É NOVO PADRÃO

Não se pode aceitar mais a desculpa da “chuva atípica”. Em tempos de mudanças climáticas, o atípico é o novo padrão.

A Prefeitura precisa liderar essa mudança de paradigma, fiscalizando com mão de ferro a qualidade das obras públicas e freando a ganância imobiliária que ignora a hidrologia.

Mas a sociedade também tem seu papel, parando de jogar lixo nos bueiros e entendendo que o custo de uma cidade resiliente é alto, mas o custo da reconstrução é impagável.

Que as águas de janeiro lavem nossa inércia, mas não levem nossa esperança de uma Olímpia mais segura.

 

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