19 de abril | 2025

Uma fotografia em construção: 100 dias do 3º governo de Geninho

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Entrevista no Pod Pai e Filha revela os principais desafios enfrentados por Geninho Zuliani em sua volta ao comando da Prefeitura e traça metas ousadas para saúde, habitação, funcionalismo e o futuro aeroporto de Olímpia.

José Antônio Arantes – Cem dias depois de reassumir a Prefeitura, Eugênio José “Geninho” Zuliane pintou no Pod Pai e Filha um quadro simultaneamente alentador e incômodo. A entrevista de mais de uma hora revelou um gestor que combina energia matinal às seis da manhã com um diagnóstico severo das estruturas públicas que herdou.

O prefeito fala de “força‑tarefa” para quase tudo: integrar secretarias, recuperar prédios escolares, digitalizar prontuários, destravar obras e, sobretudo, reconquistar a confiança de um funcionalismo que, segundo ele, passou oito anos em isolamento e desânimo​.

A franqueza é ponto positivo. Ao admitir que o PPA, a LDO e a LOA são hoje “peças de ficção”, Geninho reconhece o estrago que um orçamento mal feito causa à gestão​. Fala de Business Intelligence, dashboards e dados em tempo real — instrumentos indispensáveis a uma cidade que pretende dobrar de tamanho quando o aeroporto sair do papel.

SERVIDOR: RECUPERAR A ALMA

O prefeito insiste em que a “alma” da Prefeitura são os seus 1.600 servidores, e atira contra a rotulação de “lambões” feita na gestão anterior​. Oferece-lhes formação, análise de perfil e até suporte em saúde mental. O tom humanizador merece aplauso, mas vem acompanhado de uma meta ambiciosa: transformar o RH público num espelho das melhores práticas privadas.

Num contexto de salários achatados e carreiras pouco atrativas, o desafio é manter o ímpeto para além dos primeiros 100 dias e entregar o prometido plano de capacitação contínua.

SAÚDE: AVANÇOS NA UPA,
DÉFICIT NA ATENÇÃO BÁSICA

Na saúde, Geninho celebra o entrosamento entre UPA e Santa Casa, que teria reduzido a disputa por leitos e acelerado transferências​. O prefeito sustenta que a unidade de pronto atendimento “dá de dez a zero” em muitos convênios particulares. A boa notícia, porém, vem ladeada de um reconhecimento inquietante: a atenção primária foi diluída a ponto de criar a “cultura de resolver tudo na UPA”.

Promessas de prontuário eletrônico, telemedicina 24 h e reativação das Estratégias de Saúde da Família podem recolocar o foco na prevenção. A meta é realista, mas depende de concurso ou contratação seletiva de médicos — justamente a especialidade que falta no País e sem ampliar força de trabalho, a digitalização corre o risco de virar mais um sistema subutilizado.

TERCEIRIZAÇÃO E CONTRATOS

Geninho não demoniza a terceirização; prefere qualificá‑la. Rememora escândalos passados, admite contratos “mal feitos” e garante que as novas licitações virão com exigências de capital social robusto e fiscalização ativa​.

O argumento técnico — “prefeitura não precisa executar tudo, mas regular bem” — faz sentido, desde que o órgão regulador não seja capturado por pressões políticas. Transparência em tempo real dos pagamentos e metas contratuais ajudaria a transformar o discurso em controle social concreto.

HABITAÇÃO POPULAR: ENTRE O MÉRITO E O TETO

O prefeito lembra que a construção de três mil moradias em mandatos anteriores conteve o surgimento de favelas e derrubou aluguéis à época. Agora, quer mais duas mil unidades até 2028, embora admita que o déficit ultrapassa cinco mil inscrições​. A conta é apertada: o preço da terra urbana encareceu, e lotear periferia distante impõe custos de água, esgoto e transporte. Geninho ensaia uma saída negociada com proprietários privados para baratear áreas vazias dentro do perímetro urbano. Sem clareza sobre quais incentivos serão ofertados, a estratégia pode soar a música para especuladores.

O VOO DO AEROPORTO

Talvez nenhum tema desperte tanto entusiasmo quanto o futuro aeroporto federal. O cronograma de gabinete prevê edital até junho, ordem de serviço até dezembro e inauguração em meados de 2027​.

Geninho vende o projeto como polo logístico para todo o Noroeste paulista, capaz de atrair Polícia Federal, receita aduaneira e uma nova onda de investimentos turísticos. Em paralelo, cobra do governo do Estado a duplicação da rodovia Guapiaçu‑Olímpia — condição sine qua non para evitar gargalos.

A análise é correta: aeroporto sem estrada vira gargalo; estrada sem controle urbanístico vira espraiamento desordenado. Falta, porém, detalhar o plano de mitigação social: onde se alojarão os trabalhadores migrantes? Como evitar a explosão dos aluguéis até que as novas casas fiquem prontas?

INFRAESTRUTURA E ENERGIA

A licitação de R$ 21,7 milhões para restaurar a vicinal Natal Breda foi empenhada e deve iniciar em poucos meses. No pacote, a CPFL ergue nova subestação para dar “15 anos de sobrevida” ao sistema elétrico​.

Boa notícia, mas insuficiente se a população realmente dobrar pós‑aeroporto. Olhar de longo prazo exigirá diversificação da matriz energética e proteção de mananciais.

BALANÇO PROVISÓRIO

Os primeiros 100 dias de Geninho Zuliani revelam vigor administrativo e diagnóstico realista, mas também dependência de fatores externos — licitações federais, mercado imobiliário, contratação de pessoal especializado. O prefeito tem capital político, conhece Brasília e gosta de números; ainda assim, precisará de um colchão de governança capaz de atravessar crises e mudanças de vento até 2027.

Olímpia já não é a cidade de 2010: é um polo turístico que sonha com asas internacionais. Cabe ao governo conduzir esse voo sem perder de vista quem continua pisando o chão das UBSs, das escolas com telhado furado e dos bairros onde pode faltar o ônibus das seis.

 

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