22 de março | 2025

Violência contra mulheres cresce em Olímpia e exige ações permanentes

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Crescimento de denúncias e casos em meio à pandemia, cultura machista ainda presente e estrutura pública limitada indicam que o combate à violência de gênero precisa ser prioridade permanente da sociedade e do poder público.

 José Antônio Arantes – A violência contra a mulher deixou de ser um problema invisível em Olímpia. Com dados crescentes, casos chocantes e uma realidade que atinge vítimas de todas as idades e classes sociais, a cidade vem enfrentando um desafio que exige mais do que ações pontuais ou discursos de ocasião. É hora de enfrentar essa realidade com coragem, responsabilidade e, principalmente, com políticas públicas contínuas, eficazes e humanas.

Os números falam por si. Em 2022 Olímpia registrou 33 casos de estupro, um aumento de 62% em relação ao ano anterior. O crescimento colocou o município entre os quatro com maior índice de crimes sexuais no Estado de São Paulo, de acordo com levantamento do Instituto Sou da Paz. E isso sem contar os inúmeros casos de agressão doméstica que nem chegam a ser formalizados, por medo, vergonha ou falta de apoio às vítimas. Esses dados, embora alarmantes, refletem apenas a ponta do iceberg de um problema estrutural e cultural que assola a sociedade brasileira como um todo.

CASOS QUE CHOCAM
E GANHAM REPERCUSSÃO NACIONAL

Mas se os números por si já impressionam, o que dizer dos casos reais, cruéis, que são registrados oficialmente e expõem o drama vivido por tantas mulheres? Recentemente, Olímpia ganhou destaque no noticiário nacional com um caso que chocou o país: um homem não apenas agrediu fisicamente a companheira, mas também a humilhou de forma brutal ao raspar sua cabeça à força, como forma de punição e controle. Um ato covarde, que expôs o rosto mais perverso da violência doméstica e a necessidade urgente de resposta firme por parte das autoridades.

Mas poucos meses antes, em dezembro, uma faxineira, de 58 anos, faleceu devido a traumatismo craniano provocado possivelmente por golpe sofrido de um sobrinho.

Por outro lado, a pandemia de Covid-19 escancarou ainda mais esse quadro. O confinamento forçado expôs mulheres à convivência contínua com seus agressores, ao passo que dificultou o acesso aos canais de denúncia e apoio. Em Olímpia, como em outras cidades, os índices de violência doméstica cresceram de forma significativa durante esse período, revelando a fragilidade das redes de proteção e a urgência de um olhar mais atento do poder público.

RAÍZES CULTURAIS
E ESTRUTURAIS DO MACHISMO

Mas não basta apenas analisar os números. É preciso compreender as causas. E elas não são novas. Vivemos ainda em uma sociedade marcada pelo machismo estrutural, pela desigualdade de gênero e por uma cultura que, muitas vezes, naturaliza o controle, o ciúme e a agressividade como expressões aceitáveis dentro das relações afetivas. A violência contra a mulher é, na essência, uma manifestação do poder desigual entre os sexos, mantido ao longo da história por normas sociais, religiosas e institucionais.

Quando uma mulher é espancada dentro de casa, quando é estuprada por alguém próximo, ou quando é assassinada por não aceitar mais uma relação abusiva, não se trata de um “problema familiar”. Trata-se de uma violação grave dos direitos humanos, de um crime que diz respeito a toda a sociedade. E, nesse sentido, o silêncio coletivo se transforma em cumplicidade.

AVANÇOS LOCAIS EXISTEM,
MAS AINDA SÃO INSUFICIENTES

É preciso reconhecer os avanços. Olímpia conta com uma Delegacia de Defesa da Mulher, hoje sob o comando da delegada Débora Cristina Abdala Nóbrega, que tem se mostrado sensível e proativa no atendimento às vítimas. A Guarda Civil Municipal, por sua vez, disponibilizou o número 153 como canal direto para denúncias de violência doméstica, além de realizar rondas e prisões em flagrante em casos de descumprimento de medidas protetivas. Campanhas como o “Agosto Lilás”, ações nos CRAS e eventos promovidos pela OAB local também são importantes ferramentas de conscientização e informação.

No entanto, essas ações ainda são insuficientes diante da gravidade e complexidade do problema. A estrutura de apoio às vítimas precisa ser ampliada. Não há, por exemplo, um abrigo específico para mulheres em risco iminente, algo que já deveria estar funcionando há anos. O atendimento multidisciplinar – psicológico, jurídico e social – ainda não está disponível de forma permanente e eficiente em todos os casos. E, talvez mais grave, ainda há muitos profissionais na rede pública sem preparo adequado para lidar com situações de violência de gênero, o que pode agravar ainda mais o sofrimento da mulher em busca de ajuda.

É PRECISO TORNAR
AS POLÍTICAS PERMANENTES

Embora o Estado, mesmo timidamente venha tentando implementar medidas que reduzam os números, a sociedade precisa fazer sua parte. Isso inclui educar meninos e meninas desde cedo sobre igualdade, respeito e empatia. Significa denunciar agressões, mesmo quando não se é a vítima direta. Significa ouvir, acolher e apoiar quem sofre violência, sem julgamentos ou culpabilizações. E, sobretudo, exige a construção de uma nova cultura em que a mulher não seja vista como propriedade, mas como sujeito de direitos, dona de sua própria vida e liberdade.

O caminho é longo, e os obstáculos são muitos. Mas é preciso começar – ou continuar – enfrentando essa realidade com seriedade e firmeza. O aumento nos registros pode indicar um avanço na conscientização e na busca por ajuda, mas também revela que ainda estamos longe de erradicar essa chaga. A violência contra a mulher é um problema de todos nós, e só será superado quando houver vontade política, engajamento social e, acima de tudo, respeito à vida e à dignidade de todas as mulheres.

Como sociedade, temos uma escolha: calar diante da dor ou agir com coragem. Que Olímpia escolha, cada vez mais, o caminho da coragem.

 

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