27 de abril | 2025

Chega de silêncio!

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Explosão de abusos sexuais contra crianças em Olímpia expõe omissão, covardia e a falência de um sistema que não protege a infância.

José Antônio Arantes – Os dados são brutais. Em apenas quatro meses de 2025, Olímpia já registrou 16 casos de estupro de vulnerável — o mesmo número de todo o ano passado. E o mais assustador: as vítimas são, em sua maioria, meninas. Crianças. Violentadas dentro de casa. O agressor? Quase sempre um parente próximo: pai, padrasto, tio ou avô. O local do crime? O lar. O lugar que deveria protegê-las.

Essa realidade não é nova. Mas se tornou impossível de ignorar depois da entrevista do sargento Jean Beltramello no podcast Pod Pai e Filha. Ele não trouxe apenas números, trouxe vozes — vozes de crianças que, muitas vezes, só conseguiram pedir socorro por meio de bilhetes anônimos deixados em caixas de papelão nas escolas. Bilhetes que dizem, com palavras curtas e sofridas: “me ajuda”.

O SILÊNCIO É CÚMPLICE DO CRIME

Estamos falhando. Todos nós. A sociedade, as instituições, o Estado. Há décadas sabemos que a maioria dos abusos contra crianças acontece dentro de casa. Há décadas ouvimos estatísticas revoltantes. Mas o que mudou de fato? Onde estão os investimentos reais em prevenção, em educação, em acolhimento? Onde estão as políticas públicas consistentes, permanentes, e não só as campanhas de maio?

Enquanto as autoridades fingem que estão fazendo algo, as crianças continuam sendo abusadas. Em silêncio. Em segredo. Na noite, no quarto, no medo. E quando têm coragem de contar, muitas vezes não são acreditadas. Pior: são desacreditadas pela própria mãe, pela avó, pela escola, pelo vizinho. Vivemos numa sociedade que desconfia da vítima e protege o criminoso. Que tapa os olhos para preservar “a boa imagem da família”.

UMA EPIDEMIA
ESCONDIDA DENTRO DAS CASAS

Não é exagero: vivemos uma epidemia de abusos sexuais contra crianças. No Brasil, três a cada quatro vítimas de estupro têm menos de 14 anos. Mais de 60% dos casos acontecem dentro da casa da vítima. E isso é apenas o que é registrado. O que vem à tona. Especialistas estimam que menos de 10% dos casos chegam até a polícia.

Se isso não é suficiente para parar tudo e gritar por mudanças, então o que será?

É PRECISO MUDAR
A POSTURA AGORA

A primeira mudança precisa ser de postura. De coragem. De atitude. Não dá mais para aceitar que escolas funcionem sem preparo para lidar com esse tipo de situação. Não dá para aceitar que professores e diretores não saibam reconhecer sinais de abuso. Não dá para aceitar que não haja psicólogos, assistentes sociais, gente capacitada para ouvir, acolher e agir. E mais: não dá para aceitar que a única saída para uma criança seja escrever um bilhete escondido.

O trabalho feito por Beltramello nas escolas, com o Proerd e com as caixinhas de denúncia, deveria ser expandido para toda a rede. Deveria virar política pública. Porque funciona. Porque salva vidas. Porque é, hoje, a única porta de saída para muitas dessas vítimas.

A VÍTIMA PRECISA DE ACOLHIMENTO,
NÃO DE ABANDONO

Mas é preciso mais. É preciso que o Conselho Tutelar tenha estrutura. Que a Delegacia da Mulher atenda com agilidade. Que o Ministério Público denuncie com firmeza. Que a Justiça condene com rigor. E que o agressor, uma vez identificado, nunca mais tenha contato com a vítima.

O agressor precisa ser punido. Mas a vítima precisa ser cuidada. E é isso que não acontece. A menina violentada continua tendo que dividir o teto com o estuprador. Continua indo para a escola traumatizada, sem atendimento psicológico. Continua sendo julgada, silenciada, esquecida. O crime acontece. A dor fica e transforma um ser humano em adulto infeliz, com medo da própria vida.

EDUCAÇÃO EM CASA:
PRIMEIRA BARREIRA CONTRA O ABUSO

É em casa que a educação começa. É dentro do lar que se forma a base moral e emocional das crianças. Pais e mães precisam entender que não basta alimentar, vestir e levar à escola. É preciso ensinar desde cedo que o corpo da criança é dela. Que ninguém tem o direito de tocá-la sem consentimento. Que carinho e afeto não devem provocar medo. Que confiança não deve se transformar em silêncio forçado.

Conversar com os filhos sobre limites, respeito e intimidade não é “coisa de adulto”, é coisa de responsável. E precisa acontecer cedo, com linguagem apropriada e sem tabu. A criança que aprende em casa o que é certo e o que é invasivo tem mais chance de se proteger, de reconhecer o perigo e de buscar ajuda. A omissão dos pais, nesse ponto, pode ser tão devastadora quanto o próprio crime.

ESCOLA TEM PAPEL DE PROTEÇÃO,
NÃO APENAS DE ENSINO

A escola, por sua vez, é o principal espaço público de proteção infantil. Ali, professores e funcionários têm contato diário com alunos e podem perceber sinais que escapam até da própria família. Mudanças de comportamento, isolamento, tristeza constante, medo excessivo — tudo isso pode ser um pedido de socorro disfarçado. Mas para isso, o profissional da educação precisa estar preparado. Precisa ser treinado. Precisa saber como agir, como acolher e a quem recorrer.

Educar também é ensinar o que é abuso. O que é respeito. O que é consentimento. Criança informada é criança protegida. O tabu de falar sobre o corpo, sobre sentimentos e sobre limites precisa ser rompido. E esse rompimento se dá com formação continuada, materiais adequados e a institucionalização de espaços de escuta e acolhimento dentro da escola.

NÃO É UM PROBLEMA INDIVIDUAL.
É COLETIVO.

Estamos diante de um problema estrutural, sim. Mas, acima de tudo, estamos diante de uma covardia coletiva. Porque todos sabem. Todos veem. Mas quase ninguém age.

Chegou a hora de romper o ciclo. De romper o silêncio. De proteger, de verdade, nossas crianças. E isso só vai acontecer quando deixarmos de tratar abuso sexual como tabu e passarmos a tratá-lo como o que ele é: um crime hediondo, covarde, cruel — que só existe porque ainda há quem feche os olhos.

A INFÂNCIA NÃO ESPERA.
AÇÃO JÁ.

A infância não espera. Cada dia conta. Cada dia em silêncio é uma nova agressão. Que o grito dessas crianças ecoe. Que os bilhetes lidos nas escolas virem políticas públicas. E que a sociedade pare, de uma vez por todas, de fingir que não é com ela.

Porque é. É com todos nós.

 

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