23 de agosto | 2025

“Adultização”: quando a infância vira produto e a sociedade se torna cúmplice

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O fenômeno exposto pelo vídeo de Felca e pelas prisões recentes mostra que a infância, pressionada por mercado e algoritmos, corre risco de desaparecer como tempo de brincar e aprender. A responsabilidade é coletiva: família, Estado, plataformas e sociedade precisam agir.

José Antônio Arantes
A palavra “adultização” entrou de vez no vocabulário nacional nos últimos meses. O vídeo publicado pelo influenciador Felca, denunciando práticas abusivas envolvendo crianças em ambientes digitais, ganhou milhões de visualizações e mobilizou uma onda de reações.

As prisões de criadores de conteúdo, como o caso de Hytalo Santos, escancararam que não se tratava de fatos isolados, mas de um padrão de exploração que se repete, movido por cliques, monetização e indiferença social.

Mais do que um choque momentâneo, o tema exige uma análise profunda. A adultização não é apenas uma tendência da internet: é a ponta visível de um processo social mais amplo, onde a infância se dissolve sob pressões econômicas, culturais e tecnológicas.

ECONOMIA DA ATENÇÃO E O ALGORITMO

Do ponto de vista filosófico e sociológico, a adultização é resultado de três forças centrais: a economia da atenção, que valoriza tudo o que retém o olhar do público; o design algorítmico, que amplia justamente os conteúdos de maior impacto emocional; e as desigualdades sociais, que empurram muitas crianças para papéis que não são delas, seja pela necessidade econômica, seja pela pressão de consumo.

Plataformas como TikTok e YouTube não apenas refletem o que acontece na sociedade: elas selecionam, impulsionam e recomendam o que mais prende usuários. Se a imagem de uma criança em posição adultizada gera mais engajamento, o algoritmo a multiplica. Assim, o que deveria ser exceção se transforma em regra.

A LEI EXISTE, MAS FALTA APLICAR

O Brasil não carece de legislação. O Estatuto da Criança e do Adolescente prevê proteção integral e criminaliza a exploração, mesmo sem nudez explícita. A Lei Geral de Proteção de Dados também é clara ao afirmar que qualquer uso de dados de menores deve obedecer ao princípio do melhor interesse. O problema é que a prática digital ainda funciona em sentido contrário: tudo é pensado para gerar engajamento e lucro, não para proteger.

Recentes decisões judiciais, como a que obrigou o YouTube a implementar alertas contra publicidade abusiva dirigida a crianças, mostram que a Justiça começa a responsabilizar as plataformas. Mas ainda estamos longe de uma regulação efetiva, que torne inviável o modelo de negócio baseado na exposição infantil.

O RISCO DO MORALISMO

Há um risco real em transformar esse debate em guerra cultural. O moralismo fácil costuma confundir proteção com censura e pode acabar silenciando expressões legítimas de educação ou cultura. A repressão deve ser firme quando há exploração, mas precisa andar de mãos dadas com políticas educativas e com uma regulação técnica das plataformas. Sem isso, continuaremos apagando incêndios sem enfrentar a causa do fogo.

Ao mesmo tempo, não podemos normalizar ou relativizar a exposição precoce. A linha entre a inocência e a exploração pode ser tênue, mas é justamente por isso que o debate precisa de critérios claros e políticas públicas bem estruturadas, não apenas de indignação momentânea.

O VIÉS RACIAL E DE GÊNERO

Outro ponto crucial é o recorte racial e de gênero. Pesquisas mostram que meninas negras são vistas como mais adultas desde cedo, expostas a punições mais duras e a processos de sexualização precoce. Esse viés estrutural, conhecido como “adultificação”, não nasceu nas redes sociais, mas encontrou nelas um terreno fértil para se espalhar e se intensificar.

Ignorar esse aspecto é repetir desigualdades sob a máscara de cuidado. Se o combate à adultização não considerar raça e gênero, continuará deixando as crianças mais vulneráveis expostas e desprotegidas.

RESPONSABILIDADE COMPARTILHADA

Proteger a infância não é tarefa de um único ator. É responsabilidade coletiva. Plataformas precisam assumir deveres de design que dificultem a circulação de conteúdos abusivos. O Estado deve fiscalizar e criar políticas de prevenção. Famílias precisam de apoio e formação para orientar o uso das redes. E a sociedade como um todo deve deixar de aplaudir e compartilhar conteúdos que, em vez de inocência, exploram fragilidades.

A adultização não é um acidente isolado: é o resultado lógico de uma cultura que transforma tudo em mercadoria, inclusive o olhar sobre a infância. Resistir a isso exige mais do que indignação. Exige cuidado institucionalizado, transformado em regra social, jurídica e cultural. Somente assim poderemos garantir que a infância continue sendo o que deve ser: tempo de brincar, aprender e se desenvolver, livre das pressões e dos interesses que não lhe pertencem.

 

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