03 de novembro | 2025
Eficiência policial não impede explosão de homicídios e estupros em Olímpia
Dados da SSP-SP revelam alta de 200% em assassinatos e 167% em crimes sexuais, apesar da queda em furtos; especialistas apontam falha do modelo focado apenas na repressão.

Os dados da Secretaria de Estado da Segurança Pública (SSP-SP) demonstram que os delitos que envolvem violência física e sexual cresceram significativamente. Os homicídios dolosos triplicaram, passando de 1 para 3 casos no período. As lesões corporais dolosas (agressões intencionais) cresceram 26,61%, chegando a 157 casos. A situação é ainda mais grave nos crimes sexuais: os estupros saltaram de 3 para 8 ocorrências, e os estupros de vulnerável cresceram de 14 para 20 casos. O mês de outubro de 2025 foi marcado por eventos que chocaram a população, como o registro de um feminicídio (20/10/2025) e a brutal agressão a uma mãe de outra vítima de tentativa de feminicídio (25/10/2025).
O FRACASSO DO MODELO REPRESSIVO
O paradoxo de Olímpia expõe como a prioridade dada à “guerra ao crime”, focada no aumento de flagrantes e tráfico de entorpecentes, é ineficaz para controlar a violência que ocorre no âmbito privado e interpessoal. Este mesmo modelo, quando levado ao extremo, expõe o fracasso da estratégia que prioriza o confronto sobre a inteligência, como visto no Rio de Janeiro.
A recente operação nos Complexos do Alemão e da Penha, no Rio, foi classificada como a mais letal da história do estado, com mais de 120 mortos. Deputados federais da oposição elevaram essa estimativa para mais de 200, classificando a ação como “a maior chacina do Brasil” e uma “chacina continuada”. A ação mobilizou 2.500 policiais contra o Comando Vermelho, resultando em “cenas de guerra”. Especialistas classificaram a ação como necropolítica, uma gestão seletiva da morte que tem como alvo o homem negro, jovem e periférico.
LETALIDADE NÃO REDUZ CRIMINALIDADE
A tragédia no Rio de Janeiro prova que a alta letalidade não reduz a criminalidade. O modelo de confronto é comprovadamente ineficaz. Estudos do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) demonstraram que a letalidade policial no estado, embora seja a maior do país, não está relacionada à variação de crimes contra a vida e contra o patrimônio. O Rio possui a polícia mais letal, mas não está entre os dez estados mais violentos, evidenciando que a repressão extrema é uma escolha política.
O fracasso é agravado pela estrutura anacrônica do sistema de segurança, que antecede a transição democrática. A divisão entre Polícia Militar (ostensiva) e Polícia Civil (investigativa) produz ineficiência operacional e descoordenação , privilegiando o confronto em detrimento da inteligência. A operação no Rio gerou críticas internacionais, com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Direitos Humanos e o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, clamando por investigação e uma “reforma policial abrangente”.
O ALERTA INTERNACIONAL DA SUÉCIA
O debate sobre modelos de segurança não é exclusivo do Brasil. A Suécia, país conhecido por ser um dos mais seguros do mundo, enfrenta hoje uma crise de violência urbana. Atualmente, é o segundo país da Europa com maior taxa de mortalidade por crimes com armas de fogo, atrás apenas da Albânia.
A escalada da violência entre gangues levou a 50 mortes em tiroteios em 2023. O país registrou mais de 140 explosões em 2023 e um alto aliciamento de adolescentes e jovens , que já representam 19% de todos os suspeitos de crimes. Enquanto o governo sueco de centro-direita tem culpabilizado as políticas de imigração , especialistas argumentam que a causa real reside na baixa capacidade da sociedade de integrar imigrantes, levando à “guetização” e exclusão econômica.
A SOLUÇÃO PELA PREVENÇÃO SOCIAL
A crise sueca oferece uma lição crucial, reforçando que a causa fundamental da violência, em qualquer latitude, é a desigualdade social. Para o Brasil e para cidades como Olímpia, a segurança pública não pode se limitar à repressão. É preciso tratar a segurança como uma política social, focando em programas de prevenção primária e secundária.
As ações devem ser adaptadas às realidades locais e envolver a participação da comunidade, oferecendo soluções eficazes para problemas como a violência de gênero e o aliciamento juvenil. A eficácia na redução do uso da força, vista em algumas unidades policiais de São Paulo, ocorreu onde o Policiamento Comunitário (PC) atingiu “profundidade” institucional. Isso exigiu o envolvimento de lideranças policiais, a quebra de lógicas burocráticas e a participação plural de atores locais, como o Ministério Público e a sociedade civil.
Comentários
Os comentários não representam a opinião do iFolha; a responsabilidade é do autor da mensagem.
Você deve se logar no site para enviar um comentário. Clique aqui e faça o login!
Ainda não tem nenhum comentário para esse post. Seja o primeiro a comentar!






