09 de novembro | 2025

“Patifaria” e “afronta à dignidade”: polícia é criticada por divulgar ficha criminal dos cobradores assassinados no PR

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DURA CRÍTICA!
Caso de chacina em Icaraíma completa 3 meses com suspeitos foragidos e investigação na estaca zero. Advogada das famílias questiona a motivação de expor antecedentes das vítimas. Viúvas viajaram mais de 600km para cobrar respostas do delegado e saíram da reunião “chorando”, sem nenhuma informação, horas antes da polícia divulgar a nota polêmica.

 

Três meses após o desaparecimento e brutal assassinato de quatro homens em Icaraíma, no noroeste do Paraná, o caso segue sem prisões e com os principais suspeitos foragidos. Agora, a investigação da Polícia Civil do Paraná (PC-PR) está sob intenso fogo cruzado, com críticas severas vindas da advogada das famílias e da imprensa, que acusam a corporação de “afrontar a dignidade” das vítimas ao divulgar suas fichas criminais.

O crime aconteceu em agosto. Robishley Hirnani de Oliveira, Rafael Juliano Marascalchi e Diego Henrique Afonso (morador de Olímpia) viajaram de São José do Rio Preto (SP) para encontrar Alencar Gonçalves de Souza, morador de Icaraíma. Juntos, os quatro foram cobrar uma dívida rural e desapareceram em 5 de agosto. Após 44 dias de angústia, seus corpos foram encontrados enterrados em uma área rural, vítimas de uma execução com requintes de crueldade.

VIÚVAS COBRAM RESPOSTAS
E SAEM DE MÃOS VAZIAS

Na quarta-feira (5), data que marcou os três meses do crime, duas das viúvas, Meire e Fabrícia, acompanhadas da advogada Josiane Monteiro, viajaram mais de 630 quilômetros para uma reunião com o delegado responsável em Icaraíma. Segundo relatos de um repórter local, a jornada foi exaustiva: “viajaram a noite inteira […] não comeram, não tomaram café da manhã”.

A reunião, no entanto, terminou em profunda frustração. O delegado Thiago teria recebido o grupo, mas se recusou a fornecer detalhes sobre o caso. “Ele falou: Ó, eu não tenho nada para falar para vocês, tá tudo em sigilo, não posso falar nada”. As mulheres saíram da delegacia “chorando, gente, chorando”, relatou o jornalista.

A NOTA POLÊMICA
E A REAÇÃO DA ADVOGADA

Horas após esse encontro, a Polícia Civil divulgou uma nota à imprensa detalhando extensas fichas criminais de três das quatro vítimas (Diego, Rafael e Robishley), informando que apenas Alencar não possuía antecedentes. A advogada Josiane Monteiro, que representa três das famílias, reagiu com indignação, classificando a divulgação como uma “afronta à dignidade e a honra” dos mortos e de seus familiares.

“Qual é o motivo da autoridade policial divulgar uma situação como aquela, anos e anos depois, querendo induzir a sociedade que aquilo foi fator fundamental pro fato que aconteceu?”, questionou Monteiro em entrevista. Ela argumentou que muitos dos crimes citados são antigos e que, hoje, poderiam estar “julgados ou absolvidos”, embora não tenha citado exemplos específicos de absolvição.

IMPRENSA ACUSA POLÍCIA
DE “INVESTIGAÇÃO PREGUIÇOSA”

A reação da imprensa local foi ainda mais dura. Um repórter da Ric Record, que acompanhava as viúvas, fez um desabafo ao vivo, chamando a ação policial de “tremenda de uma sacanagem” e “patifaria”. “Querer ficar falando de 2006, 2008 para um crime que aconteceu em 2025 é falta de respeito”, disse. Ele acusou a polícia de desrespeitar “a família das pessoas que morreram”, “o serviço de advogado” e “o serviço da imprensa”.

O jornalista acusou a corporação de conduzir uma “investigação preguiçosa” e criticou o delegado por se recusar a dar entrevistas: “Por que que a Polícia Civil só vive falando por meio de nota?”. O repórter destacou a contradição de o delegado alegar sigilo total às viúvas pela manhã e, horas depois, “mandar uma nota que ninguém sabe da onde surgiu, falando um monte de coisa que não tinha nada a ver”. “Se a pessoa é vítima, ela é vítima e ponto final”, concluiu.

A JUSTIFICATIVA OFICIAL DA POLÍCIA CIVIL

Em sua nota, a Polícia Civil defendeu a divulgação, afirmando que “o andamento das investigações revelou a necessidade de levantamento do histórico criminal de todas as partes envolvidas”. A corporação declarou estar apurando “novas pistas” e o “possível envolvimento das partes (autores e vítimas) com o crime organizado”.

Segundo a PC-PR, “chegou ao conhecimento da Polícia Civil que a dívida e a cobrança não teria como base apenas o desacerto envolvendo a propriedade rural […], mas também negócios ilícitos entre as partes”. Apesar da grave insinuação, a própria polícia admitiu na nota: “No momento, não é possível afirmar que existia essa relação ilícita entre as partes, mas tudo está sendo apurado”.

O HISTÓRICO CRIMINAL DIVULGADO

Os antecedentes criminais listados pela polícia são extensos. Para Diego Henrique Affonso, foram citados registros de 2018 a 2024, incluindo ameaça (inclusive no âmbito da Lei Maria da Penha), estelionato, redução à condição análoga à de escravo, difamação, injúria e apropriação indébita. A polícia observou que Diego, “não chegou a ser preso, apenas houve os registros contra ele”.

Para Rafael Juliano Marascalchi, a lista vai de 2005 a 2025 e inclui tentativa de homicídio (2005), tráfico de drogas (2007), tráfico e associação para o tráfico (2008), além de múltiplas acusações de ameaça (uma delas sob a Lei Maria da Penha) e “exercício arbitrário das próprias razões”. Rafael foi preso em 2005, 2007, 2008 e 2010.

Robishley Hirnani de Oliveira tinha registros de 2003 a 2018, começando com furto qualificado (2003) e incluindo múltiplos registros de estelionato, ameaça (duas no âmbito da Lei Maria da Penha), exercício arbitrário das próprias razões, lesão culposa no trânsito com fuga do local, embriaguez ao volante e crime ambiental. Robishley foi preso em 2022.

RELEMBRE O CRIME
E A DESCOBERTA MACABRA

A motivação oficial do crime foi uma dívida de R$ 255 mil. Alencar vendeu uma propriedade rural para a família dos suspeitos, Antonio e Paulo Buscariollo. O pagamento seria feito em dez notas promissórias de R$ 25 mil cada, mas “nenhuma parcela deste valor foi paga”. Familiares informaram à polícia que os homens de São Paulo trabalhavam com cobrança de dívidas há cerca de 13 anos. (Outros valores, como R$ 1 milhão e R$ 100 mil, foram mencionados, mas apenas os R$ 255 mil foram confirmados pela investigação).

Os quatro homens foram vistos com vida pela última vez em 5 de agosto, por volta das 10h, em uma panificadora em Icaraíma. As famílias perderam contato com eles por volta do meio-dia. Suspeita-se que, na padaria, eles encontraram os suspeitos, Antonio e Paulo, que os atraíram para a emboscada. A esposa de Robishley registrou o desaparecimento no dia 6 de agosto.

Após 44 dias, os corpos foram encontrados na noite de 18 de setembro. A descoberta só foi possível após o pai de uma das vítimas receber uma carta anônima indicando a localização da picape e com a ajuda de um informante. O veículo estava escondido em um “bunker” subterrâneo, coberto por lona, com marcas de sangue e tiros.

Os corpos estavam a 650 metros do carro, enterrados em solo arenoso e úmido, o que ajudou na preservação. Pertences como celulares e mochilas foram encontrados enterrados juntos. As declarações de óbito indicaram que as vítimas sofreram politraumatismo, traumatismo craniano e ferimentos por arma de fogo. Duas munições calibre 9mm foram encontradas na propriedade dos suspeitos, próxima ao local.

SUSPEITOS FORAGIDOS
E A POSIÇÃO DA DEFESA

Os principais suspeitos, Antonio Buscariollo e seu filho, Paulo Ricardo Costa Buscariollo, estão foragidos. Eles chegaram a ser levados à delegacia em 6 de agosto. Na ocasião, “confirmaram que havia um negócio envolvendo a compra e venda de uma propriedade rural”, mas alegaram “que não tinham relação direta com a dívida”. Após o depoimento, foram liberados e desapareceram.

A polícia também investiga outros familiares dos suspeitos, pois foi relatado que “todos os familiares que moravam com eles desapareceram”. O advogado de defesa dos Buscariollo, Renan Farah, nega o crime. Ele argumenta que a localização dos corpos, “em propriedade de pessoa que não tem qualquer relacionamento com a família Buscariollo, reforça a […] negativa de autoria”. Farah informou na quarta-feira (5) que pediu a revogação dos mandados de prisão temporária, alegando que não são mais necessários e que seus clientes poderiam “auxiliar nas investigações” se voltassem a Icaraíma.

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