08 de fevereiro | 2026
O legado de Benatti e a Revolução das águas
A implantação do Eco-Termas surge como o projeto mais ambicioso da história do Thermas dos Laranjais, prometendo elevar o patamar turístico da região ao unir inovação radical e preservação natural.
José Antônio Arantes – O documentário que resgata a história do Thermas dos Laranjais, realizado e exibido no sábado passado pelo SBT, não é apenas um registro cronológico de um parque aquático; é um estudo de caso sobre como a visão estratégica e o desprendimento individual podem alterar permanentemente o DNA econômico de uma região.
Em 1960, quando a broca da Petrobras perfurou o solo olimpiense em busca de petróleo e encontrou apenas água quente, o sentimento geral foi de frustração.
“OURO TRANSPARENTE”
O “ouro negro”, que prometia riqueza fácil e imediata, foi substituído pelo “ouro transparente”, cujo valor só seria compreendido décadas depois. Essa transição do acaso para o planejamento é o primeiro grande pilar que sustenta o sucesso de Olímpia.
A figura de Benito Benatti emerge nesse cenário como o antípoda do empresariado predatório. Ao optar pela criação de uma associação sem fins lucrativos em 1984, em vez de uma empresa limitada, Benatti estabeleceu um pacto de confiança com a comunidade.
THERMAS CRESCEU COM OLÍMPIA
Cada toboágua construído e cada nova piscina inaugurada representavam, na prática, a capitalização do patrimônio da própria cidade.
O Thermas não cresceu apesar de Olímpia, mas com Olímpia, transformando uma economia estritamente agrícola em uma potência de serviços que hoje responde por 65% do PIB municipal.
A ENGENHARIA DA CRIATIVIDADE
O segundo pilar dessa história foi a técnica personificada pelo seu fiel escudeiro, Jorge Noronha. Se Benatti foi o arquiteto social do projeto, Noronha tornou-se o arquiteto físico e tecnológico.
Diante da impossibilidade de importar equipamentos caros ou de encontrar fornecedores que entendessem suas curvas audaciosas, o Thermas tornou-se uma fábrica de si mesmo.
A criação de uma ferramentaria interna para desenvolver patentes e brinquedos exclusivos é o que garantiu ao parque uma identidade única, impossível de ser replicada por competidores que apenas compram catálogos internacionais.
“ESCOLA DE INVENTORES”
Essa “escola de inventores” liderada por Noronha transformou o parque em um laboratório vivo. A piscina de ondas, mencionada no documentário como um marco de 2000, exemplifica essa audácia: a engenharia reversa aplicada para entender a mecânica dos fluidos e a coragem de testar protótipos com a própria equipe demonstram um nível de comprometimento técnico que vai além da gestão administrativa.
É uma gestão de “chão de fábrica”, onde o presidente conhece a espessura da fibra de vidro e a pressão das bombas de recalque. Essa proximidade técnica é a maior garantia de segurança para os mais de 2 milhões de turistas que visitam o complexo anualmente.
O SALTO ESTRATÉGICO DO ECO-TERMAS
A análise do momento atual revela que o Thermas dos Laranjais está prestes a realizar seu movimento mais ambicioso: o Eco-Termas.
Localizado na área recém-adquirida do outro lado do riacho Olhos D’água, este novo projeto sinaliza uma maturidade institucional. Enquanto o parque original é uma explosão de cores e adrenalina artificial, o Eco-Termas propõe uma reconciliação com a natureza.
O investimento de 300 milhões de reais não visa apenas aumentar a capacidade de público, mas diversificar o perfil do visitante, atraindo aqueles que buscam a contemplação e o contato com o meio ambiente, inspirando-se em ícones como Capitólio.
RAPEL, TIROLESAS E CACHOEIRAS
Este novo complexo utilizará a topografia acidentada a seu favor, transformando o que seriam obstáculos em atrações de rapel, tirolesas e cachoeiras integradas.
A transição para um parque que minimiza o uso de concreto e exalta a vegetação nativa é uma resposta direta às demandas contemporâneas por sustentabilidade, provando que o Thermas sabe envelhecer com inteligência.
SUSTENTABILIDADE E RESPONSABILIDADE SOCIAL
A sustentabilidade, aliás, é um tema que não se pode ignorar. O documentário expõe números que desmistificam a ideia de que parques aquáticos são vilões ambientais.
Com uma estação de tratamento de água de 400 metros cúbicos por hora e um sistema de reaproveitamento que beira os 100%, o Thermas opera com uma eficiência hídrica superior à da própria rede urbana de muitas cidades brasileiras.
O uso da água ionizada e o controle rigoroso de efluentes mostram que a preservação do Aquífero Guarani não é apenas uma obrigação legal para o parque, mas uma necessidade vital de sobrevivência do negócio.
THERMAS SOCIAL
No campo social, o “Thermas Social” revela a face humana da organização. O apoio à Santa Casa de Olímpia, iniciado em um momento de crise aguda do hospital, transformou-se em uma estrutura permanente de auxílio que já destinou milhões de reais à saúde local. Esse senso de responsabilidade estende-se aos mais de 500 colaboradores diretos.
O documentário apresenta depoimentos de funcionários com décadas de casa, o que indica uma política de retenção de talentos e valorização do capital humano. Em um setor onde a rotatividade costuma ser alta, o Thermas consegue manter uma “família” técnica fiel.
O DESAFIO DA PRESERVAÇÃO DO LEGADO
A morte de Benito Benatti em 2025 marcou o fim de uma era, mas não o fim do projeto. A transição para a liderança de Jorge Noronha parece ter sido pavimentada com uma harmonia rara em grandes organizações.
O desafio agora é manter a cultura da inovação constante (o compromisso de inaugurar algo novo a cada ano) em uma escala cada vez maior.
O complexo esportivo que levará o nome de Benatti é um gesto simbólico necessário, mas a verdadeira homenagem ao fundador será a manutenção do Thermas como uma associação voltada ao desenvolvimento de Olímpia.
ECOSISTEMA DE ENTRETENIMENTO
Olímpia hoje não é mais a “Cidade Menina” do passado; é a “Capital Nacional do Folclore” e o “Distrito Turístico” que dita tendências. O sucesso do Thermas serviu de âncora para a chegada de grandes redes hoteleiras, criando um ecossistema de entretenimento único no interior do país.
O Thermas é a prova de que o desenvolvimento regional não depende apenas de incentivos governamentais, mas de lideranças locais que tenham a coragem de transformar um erro de perfuração de poço em uma história de sucesso mundial.
O legado de Benito Benatti e a execução magistral de Jorge Noronha transformaram um sonho improvável em uma realidade sólida que orgulha não apenas Olímpia, mas todo o turismo brasileiro.
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