12 de outubro | 2026
A fotografia política que saiu das urnas de Olímpia
Olímpia mostrou preferência conservadora, força das lideranças locais e uma nova maneira de escolher representantes.
José Antônio Arantes – As urnas de domingo, 4 de outubro, não disseram apenas quem Olímpia prefere para presidente, governador, senador ou deputado. Elas produziram uma fotografia política bastante nítida da cidade. E, quando olhamos os números com um pouco mais de atenção, aparecem mudanças que podem ter reflexos muito além desta eleição.
A primeira delas é impossível ignorar: Olímpia consolidou-se como uma cidade majoritariamente conservadora nas disputas nacionais e estaduais.
Flávio Bolsonaro recebeu 64,14% dos votos válidos para presidente. Lula ficou com 27,82%. Quatro anos antes, Jair Bolsonaro havia recebido 59,49% no primeiro turno e Lula, 33,13%.
Ou seja: comparando os dois primeiros turnos, o campo bolsonarista aumentou sua participação no eleitorado olimpiense, enquanto Lula perdeu espaço.
TARCÍSIO FOI AINDA MAIS FORTE
A diferença foi maior na disputa pelo governo paulista.
Tarcísio de Freitas recebeu praticamente três de cada quatro votos válidos de Olímpia: 74,96%. Fernando Haddad ficou com 24,64%.
Não é uma pequena vantagem. É uma diferença que permite dizer que, pelo menos neste momento, o eleitorado olimpiense demonstra uma clara preferência política nas disputas majoritárias.
Os dois senadores mais votados seguiram praticamente a mesma direção. Guilherme Derrite e André do Prado lideraram a votação local.
Seria simplista, entretanto, concluir que Olímpia votou apenas olhando partido ou ideologia.
Quando chegamos à eleição proporcional, a fotografia fica bem mais complexa.
NA HORA DO DEPUTADO, A CIDADE OLHA PARA CASA
Fernando Cunha é talvez o exemplo mais evidente.
O ex-prefeito recebeu 9.471 votos para deputado estadual somente em Olímpia. Foi uma votação muito superior à de qualquer adversário e representou praticamente um terço dos votos válidos para o cargo.
Entretanto, não conseguiu reproduzir fora daqui a mesma força que possui dentro do município.
Essa diferença revela uma característica tradicional do eleitor olimpiense: quando existe um nome local conhecido e com trajetória política construída dentro da cidade, uma parcela expressiva do eleitorado ainda prefere votar em quem conhece.
Não importa, nesse caso, apenas a legenda.
Cunha disputou pelo PSD. Ainda assim, teve muito mais votos do que candidatos do PL, partido que dominou a eleição presidencial e que obteve enorme votação para governador, senador e deputados em Olímpia.
Isso mostra que existe um voto ideológico para alguns cargos e um voto pessoal para outros.
MAS AS REDES SOCIAIS ENTRARAM DEFINITIVAMENTE NA URNA
Ao mesmo tempo em que Fernando Cunha demonstrou a sobrevivência do voto local, Lucas Pavanato mostrou exatamente o fenômeno contrário.
Pavanato não é de Olímpia, não construiu sua carreira política aqui e não possui uma história tradicional de atuação no município.
Mesmo assim, recebeu 5.756 votos e foi o candidato a deputado federal mais votado da cidade.
Eduarda Campopiano repetiu parcialmente esse fenômeno na disputa para deputada estadual. Recebeu 2.151 votos em Olímpia e ficou atrás apenas de Fernando Cunha.
Os dois pertencem ao PL, são jovens e construíram grande parte de sua projeção política pela internet.
Juntos, receberam quase oito mil votos em Olímpia.
Esse talvez seja um dos sinais mais importantes desta eleição.
Durante décadas, para um candidato de fora conseguir votação expressiva numa cidade como Olímpia, precisava praticamente possuir uma liderança política local fazendo campanha para ele.
Prefeito, ex-prefeito, vereador, empresário ou grupo político apresentava o candidato à população.
As redes sociais estão quebrando essa intermediação.
Hoje, alguém pode nunca ter colocado os pés em Olímpia e, mesmo assim, conversar diariamente com milhares de eleitores daqui pelo celular.
O CABO ELEITORAL AGORA CABE NO BOLSO
Esse fenômeno muda profundamente a política.
O vereador que antes dizia “meu candidato teve tantos votos” precisa começar a perguntar quantos daqueles votos realmente foram transferidos por ele.
O prefeito que antes controlava boa parte da escolha dos deputados precisa entender que concorre agora com Instagram, TikTok, YouTube, WhatsApp e outras plataformas.
O eleitor recebe conteúdo político diretamente, cria identificação com uma personalidade e chega à urna com o nome escolhido sem necessariamente passar por qualquer liderança municipal.
É uma mudança que provavelmente ainda estamos começando a compreender.
A DIREITA É FORTE, MAS O VOTO NÃO É MONOLÍTICO
Também seria errado dizer que Olímpia se transformou numa cidade onde existe apenas um pensamento político.
João Paulo Rillo, do PT, recebeu 1.009 votos para deputado estadual. Erika Hilton, do PSOL, conseguiu 1.306 para federal. Edinho Silva, do PT, teve 700.
Há, portanto, um eleitorado progressista relevante e organizado.
Mas os números gerais deixam pouca dúvida sobre qual campo político é hoje majoritário na cidade.
O PL teve grande presença entre os candidatos escolhidos pelos olimpienses, especialmente quando não havia um nome local muito forte concorrendo.
O resultado presidencial confirma essa tendência.
E EXISTE UM OUTRO PARTIDO: O PARTIDO DE OLÍMPIA
Talvez essa seja a conclusão mais interessante.
O eleitor olimpiense pode votar numa linha política para presidente e governador e abandonar essa mesma linha quando aparece alguém da cidade que considera próximo.
É quase como se existisse um partido informal acima das siglas: o partido de Olímpia.
Foi ele que permitiu a Fernando Cunha ter 9.471 votos mesmo concorrendo por uma legenda que não liderou as principais disputas estaduais ou nacionais dentro do município.
Lucimara do Povão também teve 938 votos para estadual, mostrando que o componente local continua relevante.
A dificuldade aparece depois.
Olímpia consegue concentrar votos em seus candidatos dentro de casa, mas não consegue necessariamente exportá-los.
E eleição para deputado não se ganha apenas dentro de uma cidade de pouco mais de 50 mil habitantes.
É preciso construir região.
AÍ ESTÁ UMA DAS FRAQUEZAS POLÍTICAS DA CIDADE
Olímpia tem importância turística, arrecadação expressiva, projeção estadual e um dos maiores parques aquáticos do mundo.
Politicamente, entretanto, ainda encontra dificuldade para transformar esse peso econômico em representação própria permanente em Brasília ou na Assembleia Legislativa.
Elegemos prefeitos fortes.
Temos vereadores conhecidos.
Produzimos candidatos capazes de obter milhares de votos dentro da cidade.
Mas frequentemente dependemos de deputados de Rio Preto, Barretos, Votuporanga, São Paulo ou de outras regiões para representar nossos interesses.
Isso não significa que esses deputados não possam ajudar Olímpia. Muitos ajudam e continuarão ajudando.
A pergunta é outra: por que uma cidade com a projeção econômica que Olímpia conquistou ainda tem tanta dificuldade para construir uma liderança regional capaz de atravessar suas divisas?
22% NEM FORAM VOTAR
Existe ainda um número que não pode ser esquecido.
Olímpia possuía 41.874 eleitores aptos. Compareceram 32.569.
Foram 9.305 pessoas que não foram às urnas, uma abstenção de 22,22%.
Mais de um em cada cinco eleitores preferiu não participar da escolha.
É muita gente.
Em determinadas disputas, esse contingente é maior do que toda a votação recebida por candidatos considerados importantes.
A fotografia política de uma eleição também é feita pela ausência.
E O QUE ESSA FOTO DIZ SOBRE 2028?
As eleições municipais ainda estão a dois anos de distância, e tentar antecipá-las agora seria precipitado.
Mas nenhuma liderança política de Olímpia deixará de olhar para os números de domingo pensando nelas.
Fernando Cunha mostrou que conserva um eleitorado pessoal muito forte na cidade.
O campo ligado à direita mostrou que possui ampla maioria nas escolhas para presidente e governador.
O PL mostrou capacidade de alcançar o eleitor mesmo sem depender exclusivamente das estruturas políticas municipais.
As redes sociais provaram definitivamente que conseguem produzir milhares de votos dentro da cidade.
E os políticos tradicionais receberam um recado: o eleitor está cada vez menos dependente de quem lhe diz em quem votar.
Talvez essa seja a verdadeira fotografia de 2026.
Olímpia é hoje uma cidade majoritariamente conservadora, ainda fortemente influenciada por lideranças locais, mas cada vez mais aberta a candidatos que chegam diretamente ao eleitor pela tela do celular.
É uma mistura do velho e do novo.
O velho voto de confiança em quem mora aqui, apertou a mão, administrou a cidade ou fez parte da política local.
E o novo voto de identificação com alguém que talvez o eleitor nunca tenha visto pessoalmente, mas que acompanha todos os dias na internet.
Quem entender essa fotografia talvez compreenda melhor a próxima eleição.
Quem continuar olhando apenas para as antigas estruturas políticas corre o risco de descobrir, tarde demais, que a urna mudou antes que a política percebesse.
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