10 de maio | 2026
Caos na Sabesp gera uma pergunta bem simples: quem vai resolver essa bagunça?
SANEAMENTO EM COLAPSO?
A crise da Sabesp em Olímpia já não é apenas operacional e começa a atingir o centro político e institucional do município.
José Antônio Arantes – A concessão do sistema de água e esgoto de Olímpia para a Sabesp Olímpia S/A, apresentada inicialmente como solução para modernizar o antigo DAEMO, reduzir perdas, ampliar investimentos e melhorar o atendimento à população, entrou em uma fase de desgaste total.
O que era vendido como avanço administrativo pelo ex-prefeito Fernando Cunha passou a ser associado, por parte da população, a filas, cobranças contestadas, ameaças de corte, demora em religação, interrupções no abastecimento, água com alteração de cor e dificuldade para resolver problemas básicos do dia a dia.
Uma verdadeira bagunça que parece não estar sendo saneada.
Os dados públicos analisados mostram que a concessão nasceu juridicamente estruturada. A gestão do ex-prefeito Fernando Cunha aprovou a Lei Municipal 4.763/2022, instituiu a política municipal de saneamento, regulamentou o plano municipal, delegou fiscalização à ARES-PCJ e abriu a Concorrência 2/2023, posteriormente vencida pela Sabesp, que assinou contrato de aproximadamente R$ 1,18 bilhão com vigência até 2053. A operação começou oficialmente em dezembro de 2023.
O QUE ERA PROMESSA DE MODERNIZAÇÃO
VIROU TEMA DE REVOLTA
A transferência do sistema foi acompanhada de um discurso técnico e administrativo de eficiência. A Prefeitura afirmava que o município continuaria titular do serviço, enquanto a concessionária assumiria investimentos, operação e cobrança.
A promessa incluía modernização da rede, melhoria do abastecimento, ampliação de investimentos e reestruturação operacional do sistema de água e esgoto da cidade.
Na prática, porém, o debate público passou rapidamente da expectativa para a desconfiança. Em redes sociais, grupos de mensagens, começaram a surgir relatos repetitivos envolvendo contas supostamente cobradas novamente após pagamento, ameaças de corte consideradas indevidas, demora em atendimento, dificuldades nos canais digitais, filas na agência física e interrupções frequentes no abastecimento.
Embora nem todas as reclamações tenham comprovação técnica definitiva, o volume delas passou a criar uma sensação coletiva de descontrole operacional.
O CASO DEIXOU DE SER POLÍTICO
O ponto mais importante é que a crise já ultrapassou o simples campo político. A concessão foi judicializada ainda durante a licitação. Em abril de 2023, o processo chegou a ser suspenso por decisão liminar da Justiça, sendo retomado posteriormente após revogação da medida judicial. Ou seja, mesmo antes da assinatura do contrato, o modelo já enfrentava questionamentos jurídicos.
Posteriormente, a Defensoria Pública do Estado de São Paulo ajuizou ação civil pública questionando reajustes tarifários. Em 2025, houve decisão judicial limitando aumento nas tarifas de água e esgoto em Olímpia.
O próprio fato de a Justiça já ter interferido diretamente no contrato mostra que o debate deixou de ser mera disputa política e passou a ter repercussão institucional concreta.
AUDIÊNCIAS PÚBLICAS MOSTRARAM
DESGASTE CRESCENTE
Outro dado importante é que a própria Câmara Municipal de Olímpia passou a tratar o tema como prioridade. Em abril de 2025 foi realizada audiência pública para discutir o primeiro ano da operação da concessionária.
Os relatos apresentados envolviam demora em religação, problemas no atendimento e reclamações sobre cortes de água. Posteriormente, outra audiência tratou da revisão extraordinária do contrato.
A movimentação institucional aumentou ainda mais quando a própria ARES-PCJ realizou audiências e levou ouvidoria itinerante ao município para receber manifestações da população.
Esse tipo de iniciativa normalmente ocorre quando os canais convencionais de atendimento já não conseguem absorver adequadamente o volume de reclamações existentes.
A RESPONSABILIDADE FICOU
ESPALHADA ENTRE VÁRIOS ATORES
O estudo mostra que existe hoje uma espécie de cadeia compartilhada de responsabilidade. A concessionária aparece como responsável operacional direta pelo abastecimento, cobrança, atendimento, cortes, religação e investimentos. A controladora Sabesp aparece como responsável societária e financeira do grupo.
Mas o município não desaparece da equação. Mesmo após a concessão, a Prefeitura continua sendo o poder concedente e permanece com dever legal de fiscalização política e contratual do serviço.
Isso significa que a atual administração de Geninho Zuliani, embora não tenha criado o modelo original, continua pressionada politicamente pela população para encontrar soluções práticas para os problemas apresentados.
FERNANDO CUNHA CONTINUA
NO CENTRO DO DEBATE
Embora a crise recaia diariamente sobre a gestão atual, o nome de Fernando Cunha permanece ligado diretamente à origem do modelo. Foi durante sua administração que foram aprovadas as leis, editados os decretos, aberta a licitação, assinado o contrato e iniciada a transição do antigo DAEMO para a concessionária privada.
Por outro lado, os próprios dados analisados deixam claro que responsabilização pessoal do ex-prefeito dependeria de provas mais robustas de ilegalidade, omissão grave ou falha estrutural no processo de concessão.
RECLAMAÇÕES PASSARAM
A FORMAR UM PADRÃO PÚBLICO
Entre 2025 e 2026 começaram a aparecer reclamações públicas mais organizadas. Há registros de consumidores relatando contas muito acima da média, cortes considerados irregulares, demora para religação, dificuldades para solicitar ligações de água e esgoto, além de relatos sobre água amarelada e com odor forte em determinados bairros.
Além disso, a própria agência reguladora publicou comunicados oficiais sobre interrupções programadas e emergenciais no abastecimento em diferentes períodos de 2025 e 2026.
Embora interrupções técnicas possam ocorrer em qualquer sistema de saneamento, a repetição desses episódios acabou ampliando o desgaste da imagem da concessionária perante a população.
ROMPER O CONTRATO NÃO É SIMPLES
Apesar da pressão popular crescente, os dados analisados apontam que romper o contrato está longe de ser uma solução simples ou rápida. Especialistas apontam que medidas extremas como encampação, anulação ou retomada do serviço pelo município exigiriam processos técnicos complexos, eventual indenização milionária e disputas judiciais prolongadas.
Os próprios precedentes paulistas envolvendo a Sabesp mostram forte resistência judicial contra rupturas abruptas de contratos sem amplo processo administrativo, produção técnica de provas e garantia de indenização prevista em lei.
Na prática, isso significa que a tendência mais provável no curto prazo é o aumento da fiscalização, da pressão regulatória e da judicialização pontual dos problemas.
O MAIOR PROBLEMA TALVEZ
SEJA A PERDA DE CONFIANÇA
Existe ainda um fator invisível, mas extremamente importante: a perda de confiança da população. Água não é um serviço qualquer. Quando há dúvida sobre abastecimento, cobrança ou qualidade da água, o desgaste emocional costuma ser muito maior do que em outros serviços públicos. A sensação de insegurança doméstica rapidamente se transforma em indignação coletiva.
Talvez seja exatamente isso que esteja acontecendo em Olímpia. A crise deixou de ser apenas técnica. Ela se tornou política, social e institucional. E quando um serviço essencial entra nesse estágio, normalmente o problema já não se resolve apenas com notas oficiais, discursos administrativos ou promessas de melhoria.
Comentários
Os comentários não representam a opinião do iFolha; a responsabilidade é do autor da mensagem.
Você deve se logar no site para enviar um comentário. Clique aqui e faça o login!
Ainda não tem nenhum comentário para esse post. Seja o primeiro a comentar!







