29 de junho | 2025
Policiais aposentados podem ganhar mais que professores em escolas cívico-militares
O PARADOXO DA EDUCAÇÃO!
Educação pública paulista sofre com políticas contraditórias, descaso educacional. Estado vai colocar escolas cívico-militares em funcionamento e pagar salários superiores a ex-policiais, enquanto educadores seguem desvalorizados e enfrentam condições precárias. Em Olímpia, Wilquem Neves inaugura novo modelo no segundo semestre e reacende debate sobre prioridades no ensino público.
Na contramão de qualquer discurso de transformação social, o governo estadual de São Paulo anunciou recentemente a criação de 100 escolas cívico-militares em todo o estado, com previsão de início das atividades já no segundo semestre de 2025.
Um dado em especial, no entanto, chamou a atenção da comunidade escolar e da sociedade: os monitores contratados para atuar nessas escolas —policiais militares aposentados — podem receber mais R$ 1 mil a mais do que os próprios professores da rede estadual.
O fato, amplamente noticiado pelo Diário da Região de São José do Rio Preto, causou espanto na comunidade escolar da região, inclusive em Olímpia, onde a Escola Estadual Dr. Wilquem Manoel Neves foi selecionada para implementar o novo modelo.
DISCIPLINA ACIMA DA EDUCAÇÃO
No papel, o objetivo é criar um ambiente mais seguro e disciplinado. Mas, na prática, o que se vê é um reforço do paradoxo histórico brasileiro: a educação, reconhecida como principal ferramenta de progresso, é sistematicamente deixada em segundo plano quando se trata de valorizar quem realmente está no centro do processo educativo.
UM RETRATO DO DESCASO
Segundo edital recente da Secretaria de Estado da Educação (Seduc), os monitores das escolas cívico-militares recebem R$ 301,70 por dia de trabalho, podendo chegar a R$ 6.335,70 em um mês de 21 dias úteis, com 40 horas semanais.
Para um professor efetivo da rede estadual, o salário-base é de R$ 4.867,77; para quem aderiu à chamada Nova Carreira Docente, o valor sobe para R$ 5.300, ainda assim inferior ao dos monitores.
Essa inversão de valores se materializa também em incentivos extras: o monitor-chefe, responsável pela liderança da equipe de monitores, recebe mais 10% de gratificação. Enquanto isso, o professor, responsável por planejar, executar e avaliar o processo de aprendizagem, vê seu prestígio e poder aquisitivo cada vez mais achatados.
ESCOLAS CÍVICO-MILITARES NA REGIÃO
Na área de São José do Rio Preto, treze instituições adotarão o sistema ainda em 2025, incluindo cidades como Catanduva, Fernandópolis, Birigui e Olímpia. O modelo foi selecionado após consulta pública envolvendo 302 comunidades escolares, onde mais de 106 mil pessoas votaram — 87% a favor da implantação.
Os critérios para seleção envolveram indicadores de vulnerabilidade social e desempenho no Índice de Desenvolvimento da Educação do Estado de São Paulo (Idesp). Em Olímpia, a escolha da Wilquem Neves foi celebrada por parte da comunidade, mas também motivou protestos e questionamentos sobre a real eficácia do modelo e, sobretudo, sobre o investimento público.
O PARADOXO DAS PRIORIDADES
Não é de hoje que a resposta padrão para a falta de valorização dos professores é a ausência de recursos. No entanto, como mostram os próprios editais, dinheiro não falta para contratações consideradas “estratégicas”. “Falta dinheiro” apenas quando o assunto é salário de professor, condições de trabalho ou investimento em formação continuada.
A disparidade salarial se torna símbolo de uma política que privilegia a lógica do controle e da disciplina em detrimento do desenvolvimento pedagógico e intelectual. A mensagem transmitida aos educadores é inequívoca: há mais valor em garantir disciplina pela força do que em investir na construção do conhecimento e do pensamento crítico.
O ALTO CUSTO DA DESVALORIZAÇÃO
A desvalorização docente não é um fenômeno novo, mas tem se agravado nos últimos anos. Segundo o artigo do professor Valter Mattos da Costa, publicado no ICL Notícias, “a crise educacional tem nome, rosto e contracheque: professores desvalorizados em um país que finge não ver.
Professores de todo o Brasil adoecem em ritmo acelerado, pressionados por jornadas extenuantes, baixos salários, sobrecarga burocrática e desvalorização pública. O Brasil figura entre os países em que mais se adoece na profissão docente. Em vez de suporte, os professores recebem cobranças — muitas vezes, pelo próprio fracasso do sistema, que não lhes dá condições adequadas de trabalho.
EDUCAÇÃO COMO FERRAMENTA DE TRANSFORMAÇÃO
Reforçar a importância da educação nunca foi tão urgente. Como dizia Paulo Freire, “Educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo.” No entanto, sem condições dignas para o exercício da docência, todo projeto pedagógico se esvazia. Não há como exigir excelência de profissionais que se sentem desamparados, desvalorizados e, agora, ultrapassados na própria hierarquia salarial dentro do espaço escolar.
A criação de escolas cívico-militares, com salários elevados para monitores, parece uma resposta rápida a problemas complexos — mas ignora o essencial: só haverá mudança real quando o professor for reconhecido como agente central da educação.
UM CHAMADO À SOCIEDADE
O debate não pode se restringir ao valor pago no contracheque, embora ele seja fundamental. Valorizar o professor é garantir condições dignas, respeito, autonomia e formação continuada. É entender que sem professores valorizados e bem preparados, não existe educação de qualidade. E, sem educação, não há futuro sustentável para o Brasil.
A escola Wilquem Neves, em Olímpia, entra para a história como uma das primeiras da região a experimentar o novo modelo. O olhar atento da sociedade deve se voltar para o impacto dessa política não apenas nos índices de disciplina, mas, sobretudo, na aprendizagem e no clima escolar.
O verdadeiro investimento transformador é aquele que se faz nas pessoas. E, na educação, isso começa — e deveria terminar — por quem ensina.
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