29 de junho | 2025

A educação que fingimos valorizar

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Análise crítica sobre as contradições das políticas educacionais brasileiras e a sistemática desvalorização dos professores.

José Antônio Arantes – O anúncio de que monitores (policiais aposentados) das escolas cívico-militares receberão salários superiores aos dos professores da rede estadual paulista não deveria surpreender. Trata-se apenas do mais recente capítulo de uma história de desprezo sistemático pela educação pública brasileira, disfarçado por um discurso politicamente correto sobre a importância da educação.

A contradição é gritante: em um país que ocupa posições vergonhosas nos rankings educacionais internacionais, escolhe-se investir mais em disciplinadores que em educadores.

Segundo reportagem do Diário da Região de São José do Rio Preto, o salário mensal de um monitor das escolas cívico-militares (policias aposentados) pode chegar a ser mais de R$ 1000,00 superior ao dos professores da rede estadual. A diferença não é apenas salarial, mas conceitual: revela uma sociedade que acredita mais na força que no conhecimento, mais na imposição que na construção dialógica do saber.

O MITO DA DISCIPLINA SALVADORA

A crença ingênua de que disciplina militar resolverá os problemas educacionais brasileiros ignora décadas de pesquisa pedagógica e a experiência internacional. Os países com os melhores sistemas educacionais do mundo – Finlândia, Singapura, Canadá – não militarizaram suas escolas. Pelo contrário: investiram na formação e valorização dos professores, criaram ambientes estimulantes de aprendizagem e desenvolveram metodologias inovadoras.

O Brasil, no entanto, prefere a ilusão dos atalhos. Diante da complexidade dos problemas educacionais, escolhe soluções aparentemente simples, mas fundamentalmente equivocadas. A indisciplina nas escolas não é causa, mas consequência de um sistema educacional precarizado, desigual e desconectado da realidade dos estudantes.

A RAIZ DO PROBLEMA: PROFESSORES DESVALORIZADOS

A crise educacional brasileira tem nome e sobrenome: desvalorização docente. Não há sistema educacional de qualidade sem professores motivados, bem formados e adequadamente remunerados. Esta é uma lei universal, comprovada por todos os países que conseguiram construir sistemas educacionais eficientes.

No Brasil fazemos exatamente o oposto. Oferecemos salários incompatíveis com a formação exigida, condições de trabalho precárias, falta de recursos materiais e, como se não bastasse, constantemente responsabilizamos os professores pelos problemas do sistema e da falta de educação que deveria vir do berço. Agora, para completar a humilhação, decidimos pagar mais a ex-policiais sem formação pedagógica que aos verdadeiros profissionais da educação.

A FALSA DICOTOMIA ENTRE EDUCAÇÃO E DISCIPLINA

A implementação das escolas cívico-militares parte de uma premissa falsa: a de que educação e disciplina são conceitos opostos, que precisam ser conciliados através da militarização. Esta visão revela um desconhecimento profundo sobre o que significa educar no século XXI.

Educação de qualidade não elimina a disciplina – ela a constrói de forma natural, através do engajamento dos estudantes, da relevância do conteúdo e da qualidade das relações pedagógicas. Quando os alunos se sentem respeitados, desafiados intelectualmente e veem sentido no que aprendem, a disciplina surge como consequência natural, não como imposição externa.

O EXEMPLO INTERNACIONAL: VALORIZAÇÃO DOCENTE

A Finlândia, referência mundial em educação, trata seus professores como profissionais de elite. Para ingressar nos cursos de Pedagogia, os candidatos enfrentam uma seleção mais rigorosa que a de Medicina. Os professores finlandeses recebem salários competitivos, têm autonomia pedagógica e são socialmente respeitados. O resultado é conhecido: estudantes entre os melhores do mundo em avaliações internacionais.

Singapura, outro exemplo de sucesso, investe massivamente na formação de professores e oferece carreiras atrativas na educação. Coreia do Sul, que em poucas décadas saiu do atraso educacional para a vanguarda mundial, priorizou a valorização docente como política de Estado.

A MILITARIZAÇÃO COMO SINTOMA

A adoção do modelo cívico-militar representa mais que uma política educacional equivocada – é sintoma de uma sociedade que perdeu a confiança na educação como processo democrático e emancipatório. Revela uma visão autoritária que confunde ordem com aprendizagem, disciplina com medo, autoridade com autoritarismo.

Quando uma sociedade decide que ex-policiais são mais importantes que professores para a educação de seus jovens, ela está, na verdade, desistindo da educação como processo de formação crítica e cidadã. Está escolhendo a conformidade em detrimento da criatividade, a obediência em vez do questionamento, a reprodução ao invés da inovação.

O CUSTO SOCIAL DA DESVALORIZAÇÃO DOCENTE

A sistemática desvalorização dos professores produz consequências que vão muito além dos muros escolares. Primeiro, afasta os melhores talentos da educação. Jovens brilhantes que poderiam se tornar excelentes professores escolhem outras profissões, mais valorizadas social e economicamente.

Segundo, desmotiva os profissionais em exercício. Pesquisas mostram que o Brasil é um dos países onde mais se adoecem mentalmente os professores. Depressão, ansiedade e síndrome de Burnout são epidêmicas na categoria. Como esperar qualidade educacional de profissionais constantemente desrespeitados?

A URGÊNCIA DE UMA REVOLUÇÃO EDUCACIONAL

O Brasil precisa de uma revolução educacional, mas não do tipo que imagina. Não precisamos de mais militarização, mais disciplina autoritária ou mais responsabilização dos professores. Precisamos de uma revolução na forma como vemos e tratamos a educação e os educadores.

Esta revolução começa com a valorização real dos professores: salários dignos, formação continuada de qualidade, condições de trabalho adequadas e reconhecimento social. Contínua com investimento em infraestrutura escolar, recursos pedagógicos e redução do número de alunos por sala. E se completa com a construção de um projeto educacional que prepare os jovens para os desafios do século XXI, não para a submissão acrítica.

OLÍMPIA E O ESPELHO DO BRASIL

A cidade de Olímpia, que receberá uma das escolas cívico-militares da região, representa o Brasil em miniatura: uma sociedade que quer educação de qualidade, mas não está disposta a investir no que realmente importa. A escola Dr. Wilquem Manoel Neves poderia ser um laboratório de inovação pedagógica, um espaço de formação integral dos jovens olímpienses. Em vez disso, será mais um experimento de militarização educacional.

Os estudantes olímpienses, como todos os jovens brasileiros, merecem mais que disciplina militar. Merecem professores valorizados, bem formados e motivados. Merecem escolas equipadas, metodologias inovadoras e um projeto educacional que os prepare para serem protagonistas de suas próprias vidas.

A FARSA DO DISCURSO EDUCACIONAL

O Brasil é especialista em discursos sobre a importância da educação. Políticos de todos os matizes partidários fazem da educação sua bandeira de campanha. Empresários repetem que “educação é o futuro do país”. A sociedade civil clama por melhor educação. Mas quando chega a hora de tomar decisões concretas, de alocar recursos, de definir prioridades, a educação fica sempre em segundo plano.

A criação das escolas cívico-militares com monitores mais bem pagos que professores é apenas o exemplo mais recente desta farsa. Preferimos pagar mais a quem não tem formação pedagógica que investir na valorização de quem dedicou anos de estudo para entender o complexo processo de ensinar e aprender.

A educação brasileira não precisa de mais militares. Precisa de mais investimento, mais respeito e mais valorização dos verdadeiros profissionais da educação: os professores.

 

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