09 de março | 2025
A luta das mulheres por igualdade: um desafio que ainda está longe do fim
Apesar dos avanços, a disparidade salarial, a violência de gênero e a baixa representatividade política mostram que há pouco a se comemorar no Dia Internacional da Mulher
José Antônio Arantes – O Dia Internacional da Mulher, celebrado mundialmente em 8 de março, nasceu da luta por direitos e melhores condições de vida e trabalho. Em sua origem, não havia flores, brindes ou mensagens genéricas de reconhecimento. Havia greve, protestos e enfrentamento de um sistema que historicamente negou às mulheres a participação política, a autonomia econômica e até o direito de decidir sobre suas próprias vidas.
Mais de um século depois, é impossível ignorar que houve avanços, mas também é inegável que a desigualdade de gênero ainda impõe desafios gigantescos, tornando esta data muito mais um dia de reivindicação do que de celebração.
A ILUSÃO DA IGUALDADE:
O ABISMO ENTRE DIREITOS FORMAIS E REALIDADE
Nas últimas décadas, mulheres conquistaram direitos fundamentais, como o voto, acesso à educação e ao mercado de trabalho. No entanto, a promessa de igualdade plena ainda não se concretizou.
Segundo o Banco Mundial, globalmente as mulheres possuem, em média, apenas 77% dos direitos legais dos homens, e apenas 14 países garantem igualdade plena na legislação.
No Brasil, onde as mulheres são maioria entre os formandos do ensino superior (21,3% contra 16,8% dos homens), a expectativa seria que essa qualificação superior resultasse em melhores oportunidades e remuneração. No entanto, os dados mostram o contrário.
A diferença salarial de gênero é uma das maiores provas de que a equidade ainda não passou do papel.
No Brasil, o rendimento médio das mulheres equivale a apenas 78,9% do dos homens, ou seja, elas ganham cerca de 21% a menos mesmo quando exercem funções equivalentes. Essa disparidade é ainda mais brutal quando se observa o recorte racial: mulheres negras ganham, em média, 32% a menos que mulheres brancas e 47% a menos que homens brancos.
Em um mercado de trabalho que ainda valoriza mais a mão de obra masculina, muitas mulheres são empurradas para setores informais e de menor remuneração, com menos direitos e segurança.
O PESO DA DUPLA JORNADA
E A SUB-REPRESENTAÇÃO NO PODER
Mesmo aquelas que conseguem espaço no mercado enfrentam um obstáculo invisível, mas poderoso: a sobrecarga do trabalho doméstico.
No Brasil, as mulheres dedicam 21,3 horas semanais a tarefas domésticas e cuidados com familiares, enquanto os homens gastam apenas 11,7 horas – uma diferença de quase 10 horas a mais por semana. Isso significa que muitas mulheres enfrentam uma jornada dupla, equilibrando trabalho remunerado e funções domésticas, o que impacta diretamente suas oportunidades de ascensão profissional.
Essa desigualdade estrutural se reflete também na política.
No Brasil, mulheres representam 52% da população, mas ocupam apenas 17,7% das cadeiras na Câmara dos Deputados e 16% no Senado. No ranking mundial de participação feminina no parlamento, o Brasil ocupa uma posição vergonhosa, ficando atrás de países com menor desenvolvimento econômico e democrático.
Em mais de 90 anos de eleições desde a conquista do voto feminino, a política brasileira segue dominada por homens, o que se traduz na baixa prioridade dada a políticas públicas voltadas para questões essenciais como licença-maternidade, combate à violência de gênero e acesso a creches.
O BRASIL AINDA É UM DOS PIORES
LUGARES PARA SER MULHER
Mas se há um dado que deveria fazer qualquer um refletir sobre a real situação das mulheres no Brasil, é o da violência. O país ocupa o quinto lugar no ranking mundial de feminicídios, com 1.410 mulheres assassinadas em 2022 apenas pelo fato de serem mulheres – uma média de uma morte a cada seis horas.
Além disso, mais de 640 mil novos processos de violência doméstica foram registrados no Judiciário apenas no último ano. Ou seja, todos os dias, milhares de mulheres precisam recorrer à Justiça para tentar se proteger de agressores, muitas vezes dentro de suas próprias casas.
A Lei Maria da Penha e a tipificação do feminicídio foram conquistas importantes, mas não suficientes. A cultura da impunidade ainda impera, e as redes de proteção às mulheres são insuficientes.
Delegacias da Mulher ainda são poucas, muitas vítimas não conseguem acesso a casas de abrigo e a justiça é lenta para conceder medidas protetivas. Enquanto isso, o discurso machista e a resistência a mudanças estruturais continuam fortalecendo a cultura da violência.
DIA DA MULHER: CELEBRAR OU LUTAR?
Diante desse cenário, fica a pergunta: há motivos para comemorar o Dia Internacional da Mulher?
Para algumas, sim.
Afinal, a luta feminina arrancou do mundo direitos que antes eram impensáveis. As mulheres votam, trabalham, conquistam espaço em diversas áreas e provaram – há muito tempo – que são tão capazes quanto os homens. No entanto, para a maioria, o 8 de março ainda é um dia de reivindicação, porque a igualdade plena não foi atingida.
E se as projeções estiverem corretas, essa igualdade ainda levará mais de 130 anos para ser alcançada no ritmo atual. Isso significa que as próximas gerações continuarão enfrentando as mesmas barreiras, a menos que as mudanças sejam aceleradas por meio de políticas públicas eficazes, comprometimento real das empresas e, principalmente, uma mudança cultural profunda.
No fim, o que o Dia Internacional da Mulher realmente escancara não é apenas a força e resiliência das mulheres, mas a vergonha de uma sociedade que ainda insiste em tratá-las como cidadãs de segunda classe.
Enquanto for necessário pedir por direitos básicos, enquanto mulheres forem mortas pelo simples fato de serem mulheres e enquanto a desigualdade salarial for uma realidade, o 8 de março não será uma data de celebração, mas de luta.
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