10 de maio | 2026

Fake news, política rasteira e o aeroporto continua vivo

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Boatos espalhados por interesses políticos tentam criar sensação de fracasso e paralisia em Olímpia, mas documentos oficiais mostram que o projeto do aeroporto segue ativo, ainda que enfrentando atrasos, mudanças administrativas e entraves burocráticos típicos de grandes obras públicas.

José Antônio Arantes – Esta semana, Olímpia voltou a conviver com um fenômeno que infelizmente se tornou comum na política brasileira: a circulação organizada de fake news com objetivos claramente eleitorais. Bastou surgir um comentário em grupos, redes sociais e rodas de conversa para que rapidamente se espalhasse a versão de que o aeroporto internacional da cidade teria sido cancelado.

O mais grave não é apenas a mentira em si. O mais preocupante é perceber que existe, segundo comentários que circularam nos bastidores políticos, gente disposta a atuar como instrumento de desinformação, espalhando versões distorcidas em troca de interesses pessoais ou políticos. Uma espécie de marionete moderna, manipulada por quem aposta no quanto pior, melhor.

A VERDADE DOCUMENTAL

A resposta do prefeito Eugênio José Zuliani foi curta, objetiva e simbólica: “Esquece! Tá mais próximo do que nunca”. A frase, embora política, encontra respaldo em algo muito mais importante do que discurso: os documentos oficiais pesquisados pela própria editoria deste jornal.

A investigação realizada em fontes federais, estaduais e municipais não encontrou absolutamente nenhum ato oficial de cancelamento do aeroporto de Olímpia. Nenhum decreto. Nenhuma portaria extinguindo o projeto. Nenhuma decisão administrativa enterrando a proposta. O que existe, na verdade, é uma reestruturação burocrática do modelo de implantação.

E aqui está o ponto central que os propagadores da fake news convenientemente esconderam da população: houve a rescisão do convênio municipal original de 2021, mas isso ocorreu justamente porque o projeto passou para outra modelagem institucional, envolvendo diretamente a Infraero e o Ministério de Portos e Aeroportos. Ou seja, extinguiu-se um instrumento jurídico para substituí-lo por outro mais amplo. Não o aeroporto.

CONFUSÃO PROPOSITAL

Na prática, pegaram um documento técnico isolado e tentaram transformá-lo politicamente em “cancelamento”. É o velho método da meia verdade usada para produzir uma mentira inteira.

Quem conhece minimamente a burocracia brasileira sabe que grandes projetos públicos passam constantemente por revisões, mudanças de gestão, adequações ambientais, alterações de convênios, revisões orçamentárias e reconfigurações institucionais. Ainda mais um empreendimento aeroportuário, que depende de uma infinidade de órgãos reguladores e licenciamentos.

Isso não significa ausência de problemas. O aeroporto claramente enfrenta atrasos. Ainda depende de homologações. O processo ambiental não aparece concluído publicamente. Há necessidade de novas definições financeiras e de priorização federal. Tudo isso é real e faz parte da análise séria dos fatos. O que não existe é cancelamento formal.

Aliás, se houvesse efetivamente desistência oficial do empreendimento, dificilmente o governo federal manteria Olímpia listada nos registros oficiais como aeródromo “pendente de homologação”. Muito menos continuariam existindo movimentações relacionadas ao PAC, licenciamento ambiental, pareceres do IPHAN e registros de poligonais aeroportuárias oficiais.

O JOGO POLÍTICO

É evidente que o aeroporto virou também um campo de batalha política. E isso era previsível. Um empreendimento desse porte mexe com interesses econômicos, valorização imobiliária, turismo, projeção regional e capital eleitoral.

Há quem torça para dar certo e há quem torça desesperadamente para fracassar, não porque pense na cidade, mas porque calcula dividendos políticos futuros.

Infelizmente, Olímpia já viveu isso em outras ocasiões. Projetos importantes muitas vezes acabam contaminados por paixões partidárias pequenas, rivalidades pessoais e campanhas subterrâneas de desgaste. Em vez de discutir seriamente viabilidade, custos, impactos e prioridades, prefere-se fabricar versões alarmistas para criar sensação de caos.

E isso produz um efeito perverso. A fake news não atinge apenas o prefeito da vez. Ela atinge investidores, empresários, comerciantes, trabalhadores e até a imagem institucional da cidade perante quem acompanha o projeto de fora.

ENTRE A REALIDADE E A PROPAGANDA

Também é preciso evitar o extremo oposto: transformar o aeroporto em peça de propaganda milagrosa. Um aeroporto internacional não nasce apenas no discurso político, em outdoors ou em vídeos promocionais.

Existe uma enorme distância entre intenção, planejamento e execução concreta. O Brasil está cheio de obras anunciadas com pompa que demoraram décadas para sair do papel ou jamais se materializaram integralmente.

Por isso, o mais correto neste momento é trabalhar com os fatos objetivos: há terreno comprado, há registros oficiais ativos, há movimentações administrativas e há continuidade formal do projeto. Mas há também lentidão, burocracia e incertezas naturais de uma obra dessa magnitude.

O que não se pode aceitar é que interesses políticos menores tentem transformar uma discussão séria em guerra de boatos.

A população merece informação verdadeira, baseada em documentos, e não em conversas de bastidores ou correntes de WhatsApp fabricadas para confundir.

JORNALISMO CONTRA A DESINFORMAÇÃO

Talvez a maior lição desse episódio seja justamente a importância do jornalismo profissional. Enquanto redes sociais produzem velocidade, o jornalismo precisa produzir verificação.

Foi exatamente isso que esta editoria fez ao buscar documentos, portarias, registros oficiais, movimentações administrativas e publicações governamentais para compreender o que realmente aconteceu. E a conclusão foi clara: o aeroporto de Olímpia não foi cancelado. O que houve foi mudança de arranjo institucional e continuidade de um projeto ainda cercado de desafios.

Num tempo em que qualquer pessoa grava um áudio, publica uma frase ou espalha uma versão sem compromisso com a verdade, o papel do jornalismo sério torna-se ainda mais essencial.

Porque uma cidade não pode planejar o futuro baseada em boatos.

 

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