25 de maio | 2025

Fumaça que encobre, problemas que se perpetuam: é preciso romper o ciclo das queimadas em Olímpia

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Crise das queimadas evidencia descaso histórico, agrava problemas de saúde e impõe à população de Olímpia o desconforto de conviver com o ar poluído e o cheiro de fumaça constrangedor, exigindo mudança de atitude de toda a sociedade.

 

José Antônio Arantes – Vivemos em Olímpia, nesta época do ano, sob um céu tingido de marrom e cinza, reféns de uma névoa que rouba a claridade e impõe o desconforto silencioso do ar pesado. O cenário se repete a cada período de estiagem e, embora previsível, parece sempre nos pegar de surpresa – seja pela intensidade, seja pela negligência com que, ano após ano, a questão é tratada.

É preciso refletir sobre o que nos trouxe até aqui, sobre o que naturalizamos e sobre a responsabilidade de cada setor da sociedade na perpetuação desse ciclo.

A NATURALIZAÇÃO DO FOGO
COMO FERRAMENTA

O uso do fogo como ferramenta de manejo agrícola e limpeza urbana tem raízes históricas profundas em toda a região do interior paulista. Há décadas, a queimada é vista como solução rápida, barata e, para muitos, inofensiva.

Apesar do avanço da mecanização no campo, sobretudo no corte da cana, a cultura do “limpar com fogo” resiste, seja nas pequenas propriedades rurais, seja nos bairros urbanos, onde o lixo e os restos vegetais se acumulam em terrenos baldios e quintais esquecidos pelo poder público.

No entanto, o que antes parecia aceitável hoje se revela insustentável. O impacto da fumaça, da fuligem e do material particulado na saúde pública é indiscutível, e já não é possível fingir que a prática não traz consequências sérias, que se acumulam a cada temporada de seca.

As estatísticas de atendimentos médicos por doenças respiratórias aumentam; a vegetação nativa cede lugar à paisagem queimada; a fauna foge ou sucumbe. Mas talvez mais preocupante que tudo isso seja a resignação coletiva diante desse quadro.

O CUSTO INVISÍVEL DA FUMAÇA

Uma das características mais perversas do problema é sua sutileza: a fumaça não destrói casas, não derruba árvores centenárias em um único dia, não faz tanto barulho quanto um temporal. Ela atua aos poucos, corroendo a saúde da população, contaminando o solo, se infiltrando em lares e escolas.

Crianças faltam à aula por crises de asma, idosos passam dias inteiros confinados, trabalhadores rurais e urbanos enfrentam jornadas sob ar impróprio para respiração. Tudo isso tem um custo social e econômico difícil de calcular, mas sentido por todos.

E, ainda assim, a responsabilização costuma recair sobre o “outro”: para os moradores, o problema está no vizinho que queima; para o agricultor, no pequeno produtor ao lado; para o poder público, na dificuldade de fiscalizar todas as áreas. É a cultura do empurra, em que todos sabem do problema, mas ninguém se reconhece como parte dele.

EDUCAÇÃO AMBIENTAL:
DO DISCURSO À PRÁTICA

Falar em educação ambiental virou lugar-comum, mas pouco se faz para transformar a teoria em ação. Campanhas informativas, palestras e cartilhas não têm efeito se não vierem acompanhadas de fiscalização efetiva, incentivos à destinação correta de resíduos e, principalmente, de exemplos vindos do topo.

Enquanto grandes propriedades rurais ainda recorrem ao fogo para manejo do solo, ou enquanto a prefeitura não dá conta do recolhimento de galhos e entulhos, o discurso perde força.

Mais do que informar, é preciso criar alternativas reais e acessíveis. Coleta seletiva eficiente, pontos de descarte de resíduos, orientação técnica para o manejo agrícola sem fogo e, principalmente, punição exemplar a quem insiste na ilegalidade. O medo da multa, por vezes, é o único argumento que convence o reincidente.

O PAPEL DO PODER PÚBLICO

Não se pode ignorar o papel do poder público na condução do enfrentamento às queimadas. Cabe à prefeitura e às secretarias envolvidas investir em políticas de prevenção, manter equipes de fiscalização bem treinadas, agir rapidamente diante das denúncias e buscar parcerias com órgãos estaduais e federais para monitoramento da qualidade do ar e combate aos incêndios.

Mas é fundamental também que o poder público promova a transparência, divulgando estatísticas, mostrando onde e como ocorrem as queimadas, incentivando a participação popular no controle do problema.

É igualmente urgente investir em tecnologia: monitoramento por satélite, uso de drones, criação de canais de denúncia ágeis e, sobretudo, planejamento urbano que evite o abandono de áreas que rapidamente viram focos de lixo e fogo.

UM DESAFIO QUE É DE TODOS

Ao mesmo tempo, é injusto esperar que só o Estado resolva um problema que é estrutural e que exige mudanças culturais profundas. A solução está na soma de pequenas atitudes: não queimar lixo em casa, não jogar bituca de cigarro na beira da estrada, denunciar quem insiste no fogo, cobrar ações efetivas dos órgãos responsáveis. E, sobretudo, não aceitar a fumaça como parte do “normal” da cidade.

O futuro de Olímpia depende de uma virada de chave. Persistir na lógica do improviso é aceitar que, a cada ano, o céu fique mais opaco, a saúde mais frágil e o ambiente mais degradado.

Que este ciclo de estiagem e fumaça sirva como alerta definitivo para a necessidade de repensar o modo como tratamos o solo, o lixo, o vizinho e o ar que respiramos.

O tempo da resignação passou; agora é tempo de ação e de cobrança coletiva.

 

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