18 de maio | 2025
Muito além do turismo: o que está em jogo com os grandes projetos de Olímpia
Grandes projetos colocam o município diante de uma decisão histórica. O desenvolvimento só será real se houver planejamento, políticas públicas, transparência e participação da sociedade.

Mas há uma lição fundamental que precisa guiar cada passo dessa trajetória: nem todo crescimento gera desenvolvimento. Projetos de grande porte exigem escolhas estratégicas, políticas públicas sólidas e, sobretudo, participação da sociedade para que os ganhos econômicos se traduzam em qualidade de vida, proteção ambiental e fortalecimento do tecido social.
EXEMPLOS INTERNACIONAIS:
SUCESSOS E FRACASSOS
É importante observar o que aconteceu em outros destinos turísticos que apostaram em obras de impacto. Em Las Vegas, nos EUA, os cassinos e a indústria de entretenimento criaram riqueza, empregos e fama mundial, mas também enfrentaram graves problemas sociais – de criminalidade à dependência em jogos – só amenizados com políticas de saúde pública, educação e forte regulação.
Em Singapura, a liberação dos cassinos só aconteceu após amplo debate social, regulamentação rigorosa, fiscalização tecnológica contra lavagem de dinheiro e campanhas de conscientização sobre ludopatia. O país asiático se tornou referência ao equilibrar receita turística, oferta cultural e mecanismos para mitigar impactos negativos.
RISCO DE SUBUTILIZAÇÃO
Por outro lado, cidades que investiram em aeroportos ou centros de convenções sem considerar o real potencial de demanda – como ocorreu em alguns municípios do Nordeste brasileiro – viram seus projetos se transformarem em “elefantes brancos”: estruturas modernas e subutilizadas, fonte de despesas e decepção para a população.
A experiência de Aracati (CE) ou mesmo aeroportos regionais em cidades do Centro-Oeste mostra que a ausência de planejamento de longo prazo, análise de viabilidade e parceria com o setor privado leva ao fracasso de obras que, no papel, prometiam desenvolvimento acelerado.
AVANÇO SUSTENTÁVEL
DEPENDE DE POLÍTICAS PÚBLICAS
Para Olímpia não repetir esses erros, é fundamental que cada projeto venha acompanhado de políticas públicas claras e eficazes. O aeroporto deve ser parte de um plano integrado de mobilidade urbana e logística, evitando gargalos viários e impactos ambientais.
A gestão pública precisa garantir conexões eficientes entre o terminal, os resorts, o centro da cidade e cidades vizinhas, além de investir em formação profissional local para ocupar as novas vagas geradas. A fiscalização ambiental precisa ser reforçada para preservar o entorno rural e os recursos naturais da região.
CENTRO TEM QUE DIALOGAR
COM CALENDÁRIO DE EVENTOS
O centro de eventos, por sua vez, só será um motor de desenvolvimento se dialogar com o calendário de eventos locais, parcerias empresariais e ações de promoção nacional e internacional.
Gramado, na Serra Gaúcha, tornou-se referência ao combinar turismo de lazer e de negócios, integrando eventos, gastronomia, cultura e natureza – um modelo que Olímpia pode adaptar, buscando diferenciação e agregando valor ao seu portfólio de atrações.
DESAFIOS ÉTICOS,
SOCIAIS E DE GESTÃO
No caso dos cassinos, a principal lição internacional é a necessidade de regulamentação forte, fiscalização eletrônica permanente, mecanismos de exclusão voluntária de apostadores problemáticos, campanhas de prevenção à dependência e estrutura de saúde pública para atendimento de casos de ludopatia (transtorno comportamental no qual a pessoa perde o controle sobre o impulso de jogar, seja em cassinos, bingos, apostas online, loterias ou outros tipos de jogos envolvendo dinheiro).
Cidades como Punta del Este, no Uruguai, conseguiram se beneficiar da legalização dos jogos porque investiram em segurança, infraestrutura de apoio e regras rígidas contra lavagem de dinheiro. Sem isso, os riscos sociais e econômicos rapidamente superam os benefícios aparentes.
IDENTIDADE SOCIAL
Olímpia também deve considerar o impacto na identidade e na coesão social local. Um crescimento desenfreado, sem debate com a comunidade, pode criar desigualdades, inflacionar o mercado imobiliário, pressionar serviços públicos e afastar moradores tradicionais.
É preciso olhar para cidades como Balneário Camboriú (SC) e Caldas Novas (GO), que cresceram rapidamente com o turismo, mas enfrentaram desafios sérios para manter qualidade de vida, segurança e urbanismo.
PLANEJAMENTO,
PARTICIPAÇÃO E TRANSPARÊNCIA
O segredo está no planejamento contínuo, no controle social e na transparência. Grandes decisões como essas exigem audiências públicas, consultas populares e a criação de conselhos com participação da sociedade civil, do setor produtivo e de especialistas.
É preciso definir metas claras, indicadores de sucesso, mecanismos de avaliação permanente e ajustes de rota. A gestão dos impactos ambientais, sociais e culturais deve ser levada a sério, com previsão de fundos compensatórios, programas de qualificação profissional, fortalecimento da rede de saúde e promoção de cultura e lazer para toda a população.
EXEMPLOS A SEREM EVITADOS
É fundamental evitar que Olímpia repita erros vistos em outros lugares do Brasil, como a proliferação de investimentos de curto prazo, dependência de poucos setores ou “gentrificação” do espaço urbano (processo de transformação urbana em que áreas tradicionais de uma cidade passam por valorização imobiliária, resultando na expulsão de moradores de baixa renda e na mudança do perfil socioeconômico local).
Cidades que apostaram tudo em cassinos, turismo ou grandes eventos sem preparar suas bases econômicas e sociais viram-se vulneráveis a crises e a ciclos de decadência quando o interesse dos investidores diminuiu.
Oportunidades históricas, como as que Olímpia vive agora, devem ser celebradas, mas também encaradas com responsabilidade e espírito público. O debate precisa ir além dos interesses imediatos e envolver a construção de uma cidade para as próximas gerações.
DESENVOLVIMENTO VERDADEIRO
EXIGE CORAGEM E PARTICIPAÇÃO
O futuro de Olímpia está em jogo – literalmente e simbolicamente. O sucesso dos grandes projetos dependerá menos do tamanho das obras e mais da capacidade de planejar, fiscalizar, envolver a sociedade e garantir que a riqueza gerada seja convertida em desenvolvimento humano, inclusão social e respeito à história local.
Crescimento só será desenvolvimento real se for compartilhado, sustentável e democrático. Cabe a todos os setores – poder público, empresários e comunidade – fiscalizar, propor e debater.
Olímpia pode e deve se inspirar nos melhores exemplos internacionais, corrigir rumos quando necessário e garantir que, ao fim desse ciclo de grandes apostas, reste não apenas progresso econômico, mas orgulho, qualidade de vida e pertencimento para quem vive aqui.
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