06 de setembro | 2026
Pensar por conta própria também é um ato de coragem
Em um cenário político marcado pela polarização, questionar as próprias convicções pode ser tão importante quanto criticar o adversário.

Em um ano eleitoral, talvez essa seja uma boa imagem para pensarmos sobre a política brasileira.
QUANDO A CONVICÇÃO IMPEDE DE ENXERGAR
Vivemos um período em que ter uma posição política parece já não ser suficiente. É preciso pertencer a um lado e, muitas vezes, defendê-lo independentemente do que aconteça. O problema não está em possuir convicções, mas em permitir que elas nos impeçam de enxergar os erros daqueles que escolhemos para nos representar.
Se o adversário erra, condenamos. Quando o nosso candidato pratica algo semelhante, procuramos uma justificativa: “o outro também fez” ou “o outro fez pior”. Mas desde quando o erro de alguém transforma o nosso erro em acerto?
SÓCRATES E O EXERCÍCIO DA DÚVIDA
Há mais de dois mil anos, Sócrates já incomodava seus contemporâneos com suas perguntas. Nos diálogos de Platão, ele aparece como alguém que leva seus interlocutores a examinar aquilo que acreditam saber. Talvez essa seja uma das atitudes que mais nos fazem falta na política: questionar não apenas o outro, mas também a nós mesmos.
Platão deixou outra imagem que atravessou os séculos: a Alegoria da Caverna. Nela, homens acostumados a observar sombras projetadas numa parede passam a acreditar que aquelas sombras constituem toda a realidade. Guardadas as diferenças de época, é difícil não pensar que, atualmente, os algoritmos das redes sociais tendem a nos mostrar conteúdos e opiniões semelhantes àquilo que já consumimos. Aos poucos, podemos ter a sensação de que todos enxergam o mundo como nós, quando, na verdade, estamos vendo apenas uma parte dele.
OUVIR O OUTRO SEM ABANDONAR A RAZÃO
Por isso, pensar por conta própria exige ouvir quem pensa diferente. Não para concordar com tudo, mas para comparar argumentos e submeter também nossas próprias convicções ao exame da razão. É nesse contexto que o justo meio de Aristóteles me parece atual. Não se trata de ficar em cima do muro nem de imaginar que a resposta esteja sempre no centro, mas de não permitir que o excesso, a paixão ou a ideologia ocupem o lugar da razão e da prudência.
Embora distintos, o justo meio aristotélico e determinados ensinamentos budistas permitem uma reflexão semelhante sobre os excessos e a busca por equilíbrio. A metáfora da corda do violão, então, retorna. Um Estado frouxo demais pode abandonar o cidadão à própria sorte. Precisamos de leis, instituições e mecanismos de proteção. Mas apertar demais essa corda também traz problemas: um Estado que pretende controlar tudo pode avançar sobre espaços que pertencem à liberdade das pessoas.
ENTRE A AUTORIDADE E A LIBERDADE
Instituições precisam ser respeitadas, mas não estão acima de críticas. A liberdade de expressão deve ser preservada, assim como a responsabilidade pelo que se diz e pelo que se faz. Talvez a pergunta mais importante não seja se determinada ideia veio da direita ou da esquerda. Deveríamos perguntar: essa ideia é boa? É justa? Funciona? Respeita a liberdade e o próximo?
Em 1 Tessalonicenses 5:21, Paulo diz: “Examinai tudo. Retende o bem”. Se uma proposta é boa, não deveria ser descartada simplesmente porque veio de alguém de quem não gostamos. Da mesma maneira, uma proposta ruim não se torna boa porque veio do nosso lado.
QUANDO A PESQUISA PASSA A INFLUENCIAR A ESCOLHA
Isso também vale na hora do voto. Às vezes ouvimos: “Eu gosto daquele candidato, mas ele tem apenas 1% das intenções de voto. Não tem chance”. Mas, se depois de conhecer os candidatos, analisar propostas, trajetórias e princípios você concluiu que aquele é quem melhor representa suas convicções, por que deixar uma pesquisa escolher por você?
Pesquisa eleitoral informa o eleitor; não precisa pensar por ele. Antes de aceitar que uma eleição se resume aos polos que dominam as discussões, vale conhecer quem está fora deles, comparar propostas, investigar trajetórias e questionar discursos. E fazer o mesmo exercício com aquele candidato de quem você já gosta.
CONVICÇÕES TAMBÉM PRECISAM SER QUESTIONADAS
Não precisamos abandonar nossas convicções. Precisamos ter convicções suficientemente maduras para submetê-las ao questionamento. Sócrates nos provoca a questionar. Platão nos lembra que podemos confundir sombras com realidade. Aristóteles nos chama à razão e à prudência.
Em tempos de polarização, talvez pensar por conta própria já seja um ato de coragem. Portanto, vote em quem sua consciência e sua razão indicarem. Mas nunca entregue a ninguém o direito de pensar por você.
Fábio Augusto Silva Albergaria Prado é bacharelando em Teologia, pós-graduado lato sensu em Gestão da Qualidade e bacharel em Ciência da Computação.
Comentários
Os comentários não representam a opinião do iFolha; a responsabilidade é do autor da mensagem.
Você deve se logar no site para enviar um comentário. Clique aqui e faça o login!
Ainda não tem nenhum comentário para esse post. Seja o primeiro a comentar!




