30 de agosto | 2026

O voo de Olympia

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Prof. Dr. João Victor Moré Ramos – O tempo passa e já passamos da época em que as novidades tinham em sua base telúrica a ficção mesclada de realidade sob os auspícios da liberdade. Tínhamos, como em Guimarães Rosa em seu Grande Sertão: Veredas, a força ontológica do ser sertanejo figurada em nossa identidade nacional. Tínhamos a novidade enquanto expressão máxima da destruição criativa na beleza de um teatro épico de Zé Celso e companhia ilimitada, quando o futuro, como um fim em si mesmo, projetava o humano como imagem e semelhança. Merda!!! E assim começamos. E assim traduzimos a boa sorte de primeira mão aos incautos mais desvalidos e de boa-fé.

Mas, se antes tínhamos, o que hoje temos, além de enfrentar os desafios que nos coloca o espírito do tempo, é que as novidades já não são mais fabricadas como antigamente. Quero dizer: já não são mais fabricadas a toque de caixa cujas ideias retrógradas, vestidas por novas roupagens, não se cansavam de ser consumidas em massa, sem um blockchain que garantiria a rastreabilidade e a confiabilidade do “produto”. É que hoje vivemos em uma época avançada das teses da “sociedade do espetáculo” de Guy Debord, quando previu, ainda nos anos 1960, os desdobramentos da fusão do espetáculo integrado entre mercadorias e imagens como estágio ulterior da dominação do Estado e do mercado. Infelizmente, Debord só não previu como se daria essa fusão — até porque filósofos materialistas costumam ter cautela em suas previsões.

Mas, a bem da verdade, já não há mais dúvidas de que estamos hoje diante de um príncipe de Maquiavel eletrônico 3.0 nesse limiar do século XXI, onde as ideias já não têm mais peso, e o controle das emoções (em massa) agora é tudo. Ou quase tudo. Afinal, tudo é muito pouco quando o repertório se limita pela máxima: “Recordar é esquecer”, isto é, quando a virtù e a fortuna maquiavélicas se mesclam perdidas em laissez-faire, ou naquele pop “let it be” beatnik do qual os não-coetâneos não tardariam em se voltar à Guerra do Vietnã. E assim seguimos. Seguimos atrás de novidades; e à frente, só as vontades, se o pessimismo da inteligência predomina em nossos arraiais. E me desculpe, leitor, se meu “modernês” folclórico é permeado de alegorias fantasmagóricas. É que de voo sei muito pouco, mas sei diferenciar o voo de uma galinha do de um fuselo, sendo que deste último nosso capitalismo brasileiro, despenado por um voluntarismo letárgico, deveria aprender.

E de aprendizado, a curva é longa, como bem sabemos — ou deveríamos saber —, a começar pela resiliência asiática contrariando o leitmotiv keynesiano de que no futuro todos estaremos mortos. Mas, voltando ao voo de dona maria-menina-moça, entre galinhas e fuselos, é preciso ter um plano que ultrapasse os arremedos. É preciso folclorizar com os gregos, como Ícaro, que não levou em conta as advertências do pai sobre a virtù de voar sob as prudências do meio (fortuna). Hoje, os limites da natureza sob a civilização humana de Ícaro já dão sinais cada vez mais claros e agressivos, exigindo da virtù de todos nós um plano que caiba tudo e todos. Que caiba o humano como um fim em si e como fonte do amanhã. Que caiba de nós, olympieses, uma inserção ativa no processo de metropolização regional ora em curso capitaneado por São José do Rio Preto.

Menina-moça, bem sabes da pujança que as frentes pioneiras do café, tomadas pelos imigrantes, legaram à autonomia do status de Maria Olympia. E bem sabes também da crise e da estagnação por décadas desse arraial, estrangulado por outras formações regionais industrializantes ao longo do século XX, como bem assinalou a geógrafa Ely Goulart. Como não lembrar do título de “Califórnia Brasileira” nos anos 1990, que logo desapareceu pelo expansionismo da Cutrale e pela substituição por canaviais da nossa velha Guarani. Hoje, se o turismo se apresenta como a locomotiva do virtuoso desenvolvimento olimpiense, que não hesitemos em colocar nosso trem nos trilhos do futuro, nos trilhos do maglev cobra, que exige uma profunda industrialização dos serviços “digitais”. Maria-Olympia em breve será o mundo nessa metropolização, e aprender a voar como Lênin — a águia das montanhas que voava com os pés no chão — é condição sine qua non.

 

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