26 de outubro | 2025

Tronco da Vergonha: Olímpia se despede de um símbolo destruído pela ganância

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CPFL executa Seringueira histórica na Vicinal Álvaro Marreta em nome de um progresso cego e insensível. Ação ignora apelos, mancha a entrada da cidade e revela a impotência da comunidade diante do poder econômico que prefere destruir a desviar um poste.

José Antônio Arantes
Ali está ele. O tronco. Mutilado, retalhado, sangrando a seiva que era vida e história na entrada de nossa Olímpia. Não é apenas uma árvore que tomba; é um pedaço da nossa alma coletiva que foi arrancado à força, sob o olhar frio da conveniência e da burocracia assassina.

Estive lá. Vi com meus próprios olhos a cena desoladora, o cemitério improvisado onde antes havia um cartão postal vivo, um monumento que nos recepcionava com sua imponência centenária.

E a revolta ferve, a indignação transborda.

UM ASSASSINATO PREMEDITADO

O que fizeram ali, naquele Km 0 da Vicinal Álvaro Marreta Cassiano Ayusso, não foi manejo, não foi necessidade inadiável. Foi um crime. Um assassinato premeditado contra a memória e a beleza desta cidade, cometido em nome de uma entidade chamada “progresso”, mas que atende pelo nome real de ganância.

A Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL), essa gigante que suga nosso dinheiro em contas exorbitantes, decidiu que um símbolo de Olímpia valia menos que a comodidade de seu projeto.

USAR A MOTOSERRA É MAIS FÁCIL

Decidiu que era mais fácil ligar a motosserra do que usar a inteligência e a sensibilidade para desviar míseros postes de sua nova e maldita subestação. Usaram desculpas esfarrapadas, laudos frios como o aço de suas torres, para justificar o injustificável. “Ah, é exótica!”, “Ah, está em área particular!”.

E daí? Desde quando a origem asiática ou a linha de uma cerca anulam décadas de convivência, de identidade, de pertencimento?

Aquela árvore era NOSSA, mesmo que o papel dissesse o contrário. Era parte da paisagem que moldou gerações de olimpienses.

A BUROCRACIA CÚMPLICE E A FRIEZA DOS ESCRITÓRIOS

Os papéis, ah, os papéis! Sempre eles para dar um verniz de legalidade à barbárie. Um Laudo de Vistoria da Prefeitura de 2024, feito sabe-se lá com que critério real de valor histórico e sentimental, carimba: Ficus elastica, exótica, dois exemplares unidos, em propriedade particular, fora do passeio público.

Conclusão conveniente: “não há necessidade de emissão de autorização para erradicação ou mesmo compensação”.

Que beleza!

Lavaram as mãos com a água suja da tecnicalidade.

Uma “Providência” autoriza a rede de alimentadores a 15 metros do eixo.

Uma cartinha da CPFL ao dono do terreno, meses antes, já cantava a pedra, falando em “manejo”, “riscos”, “qualidade”, palavras bonitas para encobrir a destruição.

DECISÕES EM ESCRITÓRIOS COM AR CONDICIONADO

Tudo orquestrado nos escritórios com ar condicionado, por gente que talvez nunca tenha parado um minuto sob a sombra generosa daquela árvore, que nunca viu uma criança se balançar em suas raízes, que desconhece o valor imaterial daquilo que decidiram aniquilar.

Preferiram a conveniência do projeto original à complexidade de preservá-lo. Preferiram a motosserra à engenharia sensata. Preferiram o lucro rápido ao legado duradouro.

E a Prefeitura?

Limitou-se a dar apoio logístico ao funeral, interditando a via, orientando o trânsito para que o “serviço” fosse feito sem empecilhos.

Que triste papel!

IGNORARAM NOSSAS VOZES,
PISARAM EM NOSSA HISTÓRIA

E nós? A população? Fomos solenemente ignorados. Houve apelo, houve tentativa de diálogo, houve a convocação de um protesto na fria manhã de terça-feira. Pessoas foram lá, manifestaram sua dor, sua discordância. Uma moradora, a Denise, buscou o Ministério Público, tentou ganhar tempo, encontrar uma “segunda alternativa”.

Tudo em vão.

Passaram por cima de tudo e de todos. Como um rolo compressor, impuseram sua vontade. Enfiaram-nos goela abaixo mais este despautério, como tantas outras vezes fizeram e continuarão fazendo se não reagirmos com mais força.

A GUERRA DAS MOTOSERRAS

A cena no local era de guerra, como disse e repito.

Caminhões, guindastes, o barulho ensurdecedor das motosserras rasgando a carne da árvore.

E a polícia?

Lá estava ela, não para proteger o patrimônio ou ouvir a população, mas para garantir que a execução ocorresse sem percalços.

Guardavam a cena do crime!

A vítima, um gigante de quase cem anos, indefeso, silenciado para sempre.

Que inversão de valores!

Que escárnio!

A entrada de Olímpia hoje não é apenas mais feia, mais pobre; ela ostenta a cicatriz de nossa impotência.

MEMÓRIAS EM PÓ
E O LEGADO DA DESTRUIÇÃO

A comoção extravasou para as redes sociais.

A bela e triste “Nota de Falecimento” que circulou, dando voz à árvore em sua despedida, tocou muitos corações porque era verdadeira em sua essência.

Ali estavam as memórias de infância, os namoros escondidos, a sensação de pertencimento que aquela árvore evocava.

O pedido final para que plantemos novas mudas é nobre, mas não apaga a mancha, não diminui a dor da perda irrecuperável. Plantar novas árvores é nosso dever sempre, mas não como compensação fajuta por uma destruição que poderia ter sido evitada.

O que fica é a imagem do tronco nu, fantasmagórico, um monumento à insensibilidade.

Aquele local, que era um convite à contemplação, virou um lembrete amargo de como somos tratados.

Somos números, somos obstáculos, somos irrelevantes quando o “desenvolvimento” – esse deus voraz que tudo consome – decide avançar.

A Vicinal Álvaro Marreta, dizem, é a “Rota do Desenvolvimento”, estratégica, vital para o futuro, ligando a cidade à rodovia, ao agronegócio, ao novo complexo do Thermas.

Que belo desenvolvimento é esse que começa destruindo um símbolo, que ignora a história, que apaga a beleza em nome do asfalto e do concreto?

NOSSA IMPOTÊNCIA
E O GRITO FINAL

É revoltante! É humilhante! Sentimo-nos idiotas, pequenos, diante dessas corporações gigantescas que, escudadas em pareceres técnicos e na omissão conveniente de quem deveria nos representar, fazem o que bem entendem.

Pagamos contas altíssimas por um serviço inconstante e cheios de picos que, quando lhes convém, justifica a destruição do nosso patrimônio afetivo. Não alteram um projeto, não gastam um centavo a mais para preservar o que é importante para nós, mas não hesitam em mobilizar um aparato de guerra para derrubar uma árvore.

Que fique registrado.

Que a imagem daquele tronco decepado assombre a consciência de quem tomou essa decisão.

Que cada vez que passarmos por ali, a ferida se reabra e nos lembre da brutalidade cometida.

Não podemos ressuscitar a árvore, mas podemos – e devemos – manter viva a indignação, a memória do que perdemos e a certeza de que fomos, mais uma vez, tratados como lixo por quem só visa o próprio umbigo financeiro.

A eles, que promoveram e permitiram essa profanação, repito com toda a força do meu ser:

Vão pro inferno!

Vão para o raio que os partam!

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