17 de agosto | 2025

Festival e livro cumpriram seus papéis: por que preservar nossas raízes é política de futuro

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Análise sobre o 61º Festival do Folclore de Olímpia e o lançamento de “Zé da Festa”, destacando a união entre palco e memória, o modelo solidário em favor da Santa Casa e o papel das parcerias — em especial do Thermas, presidido por Jorge Noronha, com apoio de Débora Vicente —, além da presença de autoridades que reconhecem a cultura como ativo estratégico da cidade.

José Antônio Arantes – Há eventos que cumprem calendário e há eventos que cumprem missão. O Festival do Folclore de Olímpia pertence, sem dúvida, à segunda categoria. Ao longo de décadas, não apenas ocupou o Recinto e as ruas da cidade; ocupou, sobretudo, um lugar simbólico na nossa consciência de quem somos, ligando gerações por meio de música, dança, narrativa e fé.

Nesta edição, que encerrou com a força de uma grande celebração popular, vi também um gesto de futuro: o lançamento do livro “Zé da Festa”, dedicado ao professor José Sant’anna, não é adereço ao espetáculo — é o fundamento que permite transmiti-lo. Se o festival é o ato vivo da tradição, o livro é sua memória organizada; se o palco é encontro, a página é permanência. Falo aqui como jornalista que esteve no estande e levou o tema ao programa, mas, principalmente, como cidadão que reconhece o valor de preservar o que nos formou.

FOLCLORE COMO TRANSMISSÃO, NÃO VITRINE
Em cada edição, o Fefol nos lembra que folclore não é peça de museu. É método de transmissão de saberes e afetos. Por isso, o sucesso do festival não se mede só por números de público, por mais expressivos que sejam, mas pela intensidade da troca entre os grupos, pela abertura de espaços educativos e pela capacidade de formar novas plateias.

Quando uma criança experimenta uma brincadeira tradicional na escola, quando um mestre explica o sentido de um canto, quando uma cidade inteira se reconhece na diversidade dos sotaques, a tradição não “volta”; ela continua. E é nessa continuidade — esse fio que não se rompe — que reside o nosso maior desafio.

MEMÓRIA ORGANIZADA: O PAPEL DO LIVRO
O livro “Zé da Festa”, lançado no coração do evento, é um passo decisivo nessa direção. Ele resgata a trajetória de José Sant’anna — mestre, professor, idealizador — e oferece ao leitor aquilo que o festival, por sua natureza efêmera, não consegue entregar sozinho: o encadeamento da memória, o registro verificável, a possibilidade de estudo.

Ali estão vozes, registros, histórias, escolhas e convicções que explicam por que Olímpia se tornou referência nacional em cultura popular. O livro não é peça de autopromoção nem álbum de lembranças: é instrumento pedagógico e cidadão. Serve à sala de aula, ao pesquisador, ao gestor cultural, ao turista que deseja compreender o que vê e, sobretudo, ao jovem que precisa encontrar um lugar no mundo sem abrir mão da própria raiz.

CULTURA E CUIDADO: DOAÇÃO À SANTA CASA
Há um elemento que dá sentido social concreto a esse lançamento: a doação para a Santa Casa, único hospital da cidade. Ao atrelar cada exemplar a uma contribuição mínima, criamos uma ponte entre cultura e cuidado, entre memória e responsabilidade coletiva. Não é apenas gesto simpático; é escolha correta num tempo de muitos discursos e poucos compromissos.

Nada disso teria acontecido sem parcerias. É justo registrar o suporte do Thermas Social, que viabilizou a impressão, e a presença efetiva do presidente do parque, Jorge Noronha (sempre acompanhado da esposa Ligia e do filho, também engenheiro, Jorginho), e da gerente Débora Vicente. A relevância do Thermas para a cidade não tem limites. Transcende o turismo e a economia. Quando esse protagonismo se volta para a cultura e se converte em apoio concreto, revela uma visão de futuro alinhada ao interesse público.

A cultura, quando dialoga com o desenvolvimento, dá direção; quando encontra responsabilidade social, dá propósito. Jorge tem compreendido essa equação e a praticado com constância. Débora, com discrição e eficiência, tem sido a ponte entre intenção e realização, do desenho à operação, garantindo que a boa ideia não se perca nos detalhes do dia a dia.

PODER PÚBLICO E POLÍTICA CULTURAL PERMANENTE
Também merece registro a presença de autoridades que prestigiaram o lançamento: o prefeito Geninho, a secretária municipal de Cultura Priscila Forest e a secretária estadual de Cultura Marília Marton. Presença institucional não é gesto protocolar. É um sinal de que o poder público reconhece a cultura como ativo estratégico — algo que exige continuidade, orçamento e planejamento.

A melhor política cultural que se pode fazer por Olímpia é assegurar condições permanentes para a continuidade do festival e para a circulação do conhecimento que o livro inaugura. Isso implica orçamento estável, transparência na curadoria, ações formativas o ano inteiro, integração com a rede de ensino, incentivo à pesquisa, digitalização de acervos e, sobretudo, proteção do princípio fundamental do Fefol: o palco como lugar de encontro, não de competição.

PRIORIDADES PARA NÃO PERDER O RUMO
Todo evento que cresce corre o risco de se perder de si mesmo. A sedução do espetáculo pode engolir o sentido. Para não cair nessa armadilha, é preciso reafirmar prioridades.

Primeiro: a diversidade dos grupos — quilombolas, indígenas, ribeirinhos, devotos, brincantes do interior profundo — deve permanecer no centro, e não apenas os que exibem maior capacidade cênica.

Segundo: a formação de públicos nas escolas precisa ser tratada como política essencial, com material didático, oficinas permanentes e visitas orientadas.

Terceiro: o registro das expressões (texto, imagem, áudio) deve ser sistemático, com um plano de preservação que assegure acessibilidade e memória (a Prefeitura e a Secretaria de Cultura de Defesa do Folclore já começaram a compor um Centro de Referência do Folclore Brasileiro).

Quarto: é necessário estruturar intercâmbios entre mestres e educadores, para que a transmissão de saberes não dependa de acasos. Por fim, o festival tem de continuar dialogando com a cidade inteira — ruas, praças, distritos, parques e empresas —, sem confinamento cultural.

COERÊNCIA COMO NORTE
O livro cumpre um papel vital nessa arquitetura. Ao trazer a vida e o pensamento de Sant’anna, oferece um mapa de valores: o congraçamento, a didática do folclore, a defesa do palco como espaço de cidadania. Nenhum município se torna “capital de” coisa alguma por decreto; torna-se por método, trabalho e coerência.

Ao folhear as páginas, o leitor encontra esse método. Ao ver o festival, enxerga o método em ação. É essa coerência — mais do que a grandiosidade — que deve nos orgulhar e orientar decisões quando chegarem as pressões por atalhos, espetáculos fáceis e narrativas que pouco explicam.

RAÍZES COMO ÂNCORA E DIREÇÃO
Há uma tendência contemporânea de tratar raízes como amarras. Não são. Raízes são pontos de ancoragem: seguram quando o vento muda e alimentam quando a superfície empobrece. Manter as nossas raízes não é gesto saudosista; é escolha inteligente de quem deseja futuro. O Fefol e o “Zé da Festa” compõem, juntos, uma política de futuro: um educa pela experiência, o outro educa pela memória.

Um nos reúne agora; o outro nos reúne ao longo do tempo. Um convoca a cidade a sair de casa; o outro convida a sentar, ler e pensar. É nessa dupla pedagogia — do encontro e do registro — que precisamos investir com constância e humildade, sabendo que não há projeto duradouro sem base sólida, sem comunidade envolvida e sem pactos bem definidos.

Saio desta edição do Fefol com a convicção renovada: se seguirmos firmes no compromisso de dar palco aos grupos e livro às crianças; se mantivermos a mão estendida na curadoria cuidadosa das tradições; se unirmos poder público, iniciativa privada e comunidade, teremos mais do que um grande evento. Teremos uma cidade que sabe de onde veio, o que quer preservar e, sobretudo, para onde deseja ir. Esse caminho, que começa nas nossas raízes, só pode nos levar adiante — com a coragem de quem dança na arena e a serenidade de quem escreve para que o tempo não nos desensine de nós mesmos.

 

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