22 de fevereiro | 2026

A Intolerância que saiu do bloco

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Carnaval expôs, em comentários nas redes, um tipo de violência que muita gente finge não ver: o racismo travestido de “opinião” contra manifestações de matriz africana e contra a própria ideia de diversidade cultural.

Bruna e José Antônio Arantes – O carnaval tem o dom de escancarar o que a cidade esconde o ano inteiro. E, se em 2026 houve brilho, música e ocupação das ruas, houve também um outro desfile, silencioso e vergonhoso: o da intolerância religiosa, exibida sem fantasia e sem pudor nos comentários de rede social.

Não foi apenas “mimimi”, não foi “briga de internet”, não foi “direito de opinião”. Foi crime em forma de frase curta, digitada com coragem covarde, como se a tela garantisse impunidade.

CALDO REPETITIVO DE OFENSAS

Na quinta-feira, no Pod Pai e Filha, foi comentado o tema com o cuidado que o tema exige e com a indignação que a cena impõe. Não se tratava de um ou outro comentário isolado: tratava-se de um volume grande, um caldo repetitivo de ofensas, deboches e rótulos que são antigos, mas ganharam megafone nas plataformas.

E, como foi dito no programa, agora o Inês é morto: foi tudo printado. Apagar depois não devolve o dano, nem apaga a intenção.

INTOLERÂNCIA NÃO É OPINIÃO

É preciso começar do básico, porque o básico parece ter sido perdido. Ninguém é obrigado a gostar de nada. Mas todo mundo é obrigado a respeitar. A liberdade de crença é um direito, e o direito de um não diminui o do outro. A questão não é qual religião é a certa, até porque o Estado não tem religião. A questão é por que alguns se sentem autorizados a humilhar o que não entendem.

Quando alguém escreve “isso é macumba”, “terreiro no centro”, “encontro de macumbeiros”, não está fazendo uma crítica cultural. Está ativando uma máquina de estigma. Está pegando séculos de perseguição contra religiões de matriz africana e despejando isso num comentário como se fosse piada.

VIOLÊNCIA SIMBÓLICA

E, quando vem acompanhado de termos mais pesados, de desejo de expulsão, de xingamento, de desumanização, a coisa deixa de ser grosseria e entra no terreno da violência simbólica, que costuma ser o primeiro degrau de violências mais concretas.

O mais curioso, e o mais revoltante, é o contraste: há quem consuma, festeje e até se beneficie de elementos afro-brasileiros na cultura, mas, na hora de ver um ritual, um canto, um gesto, uma estética de terreiro, reage com nojo moral.

Como se a herança africana fosse aceitável apenas quando vira produto “limpo” na vitrine, sem seus nomes verdadeiros, sem sua espiritualidade, sem seu povo.

A INTERNET NÃO É UM TRIBUNAL SEM LEI

No programa, foi dito: hoje, na internet, dá para saber quem é. Essa fantasia de que rede social é terra sem dono já caiu. E é exatamente por isso que assusta ver gente cometendo crime com o próprio nome, com foto, com perfil público, como se a ofensa fosse um direito adquirido.

Há um ponto que precisa ser repetido: retirar comentário depois não transforma agressão em arrependimento. Muitas vezes, retirar é só estratégia. O estrago já foi feito e, com os prints, fica o rastro. E quando um grupo, uma comunidade, uma pessoa atingida resolve procurar a Promotoria, registrar ocorrência, pedir apuração, não está censurando ninguém. Está acionando o mínimo de civilidade: a ideia de que liberdade de expressão não é liberdade de perseguição.

O CARNAVAL,
PARA DESGOSTO DOS “PUROS”,
TAMBÉM É AFRICANO

Outra parte da discussão, que foi levantada ao vivo, é histórica. O carnaval tem origem europeia, sim, e dialoga com tradições cristãs no calendário, especialmente pelo fato de anteceder a quaresma. Mas, no Brasil, ele não é uma peça de museu importada intacta. Ele é mistura. Ele é encontro. Ele é sincretismo cultural na prática.

O que chamamos de carnaval brasileiro é resultado do choque e do abraço, muitas vezes forçados, muitas vezes dolorosos, entre heranças europeias e a potência afro-brasileira que moldou música, ritmo, corpo, rua, festa, estética, linguagem.

O samba, os blocos, os afoxés, a própria maneira brasileira de ser carnaval carregam matriz africana. Fingir que isso não existe é ignorância histórica. Atacar isso é, além de ignorância, um ato político de exclusão.

HIPOCRISIA SOCIAL
E COVARDIA MORAL

Uma observação feita no programa merece ficar registrada: a incoerência de quem, às vezes, já frequentou terreiro, já pediu ajuda, já esteve perto, e depois posa de fiscal da moral na internet, para se encaixar na bolha da aprovação social. Essa é uma das formas mais feias de intolerância: a que nasce da hipocrisia.

Tem também o deboche presencial: gente na rua, simulando incorporação, fazendo graça, assustando criança, reduzindo uma experiência religiosa a caricatura. Esse tipo de brincadeira é pedagógico ao contrário: ensina a humilhar. E humilhação repetida vira cultura de ódio.

CONHECIMENTO,
EMPATIA E RESPONSABILIDADE

Há gente que não tem repertório para entender nem o que lê: falta conhecimento, falta leitura, falta disposição de aprender. Mas a solução não é apenas xingar de volta, porque o ódio é uma fábrica que se alimenta do próprio barulho. A resposta precisa ter um tripé: responsabilização, educação e empatia.

Responsabilização: quem cometeu crime precisa responder. Não por vingança, mas por civilização.
Educação: a cidade precisa falar disso nas escolas, nas instituições, nos espaços culturais, sem medo do tema.
Empatia: é o exercício mínimo do humano, o gesto de se colocar no lugar do outro antes de virar dedo e pedra.

QUEREM INTERDITAR A FÉ ALHEIA

Carnaval é festa, mas também é espelho. Em 2026, o espelho mostrou que ainda há gente querendo interditar a fé alheia e apagar a contribuição africana do nosso próprio rosto cultural. Mas não vão conseguir. A rua é plural. A cidade é plural. O Brasil é plural. E quem não entendeu isso está atrasado, não na história do carnaval, mas na história do convívio.

A intolerância religiosa não é um detalhe do desfile. É um alerta de sociedade. E, se a gente quer uma cidade que cresça de verdade, não dá para aceitar crescimento com alma pequena.

 

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