28 de outubro | 2026
Listas e ameaças acirram disputa política em Olímpia
Depois das eleições, grupos compartilham nomes de empresas e profissionais por afinidade política, enquanto postagens ameaçam expor a intimidade de adversários. Comerciantes reagem e advogado alerta para processos e indenizações por ofensas e acusações falsas.

O iFolha recebeu capturas de publicações e conversas que revelam um cenário de crescente intolerância. Além das listas comerciais, há ameaças de exposição da vida íntima de apoiadores políticos, acusações graves contra estabelecimentos e mensagens que mencionam violência contra autoridades. As manifestações provocaram reações de empresários, moradores e profissionais do Direito.
LISTAS CIRCULAM EM GRUPOS DE WHATSAPP
Em um grupo identificado como “Direita Olímpia”, participantes compartilharam nomes de empresas, profissionais liberais e prestadores de serviços associados ao campo conservador. A iniciativa ganhou repercussão em meio a publicações que incentivam consumidores a privilegiar negócios de pessoas com posicionamentos políticos semelhantes.
Entretanto, a inclusão de estabelecimentos nessas relações não comprova alinhamento partidário nem significa que seus proprietários tenham autorizado a divulgação. Também não há comprovação de que todas as empresas mencionadas participem de qualquer movimento organizado de boicote.
LOJA NEGA ENVOLVIMENTO POLÍTICO
A repercussão levou a loja The Shoes, de Olímpia, a divulgar um esclarecimento público negando qualquer vínculo político-partidário. Segundo o comunicado, o estabelecimento foi associado a uma posição política sem autorização de seus responsáveis.
A empresa afirmou que atende consumidores de todas as opiniões, não apoia partidos ou candidatos e não diferencia clientes conforme suas preferências eleitorais. O episódio demonstra como empresas podem acabar envolvidas em disputas políticas mesmo sem participar delas.
AMANDA PITON CONDENA PERSEGUIÇÃO
A polêmica também provocou a manifestação de Amanda Piton, que publicou um posicionamento contrário ao boicote de comerciantes por suas escolhas políticas.
Amanda afirmou ter recebido uma lista com nomes de estabelecimentos locais que estariam sendo boicotados. Embora tenha declarado que não se identifica com o governo eleito, defendeu o direito de cada pessoa votar e expressar suas opiniões sem sofrer represálias.
“Mas discordar não nos dá o direito de perseguir, humilhar ou prejudicar ninguém. Vivemos em uma democracia, e o respeito às diferenças deveria estar acima de qualquer divergência política”, escreveu.
A autora também destacou que prejudicar um comércio pode afetar famílias e trabalhadores que dependem da atividade.
“Hoje são alguns comerciantes; amanhã, pode ser qualquer um de nós. Se permitirmos que o ódio e a intolerância prevaleçam, todos nós sairemos perdendo”, afirmou.
AMEAÇAS DE EXPOSIÇÃO ÍNTIMA
Em outra frente da disputa, publicações atribuídas à internauta Natalie Kuzmauskas ameaçam divulgar supostas informações íntimas de homens identificados como apoiadores da direita em Olímpia.
Em uma postagem, ela anunciou a intenção de elaborar uma lista envolvendo alegações sobre comportamentos sexuais e uso de drogas, afirmando que pretendia provocar repercussões entre os familiares das pessoas mencionadas.
Nos comentários, a autora disse que estaria reunindo informações e buscando números de telefone de participantes de um grupo político para comparar com seus contatos.
As alegações não foram comprovadas, e os materiais apresentados à reportagem não permitem confirmar que a lista anunciada tenha efetivamente sido divulgada. A orientação sexual e a vida íntima das pessoas são protegidas pelo direito à privacidade, independentemente de suas posições políticas.
ACUSAÇÕES CONTRA COMERCIANTES
Outra publicação atribuída ao mesmo perfil associa três lojas de eletrônicos de Olímpia a supostas atividades ilícitas, sem apresentar provas que sustentem as acusações.
Não há elementos que permitam atribuir irregularidades aos estabelecimentos citados. A divulgação de acusações dessa natureza pode provocar danos à reputação de empresas e profissionais, especialmente quando reproduzida sem verificação.
ADVOGADO ALERTA PARA PROCESSOS E INDENIZAÇÕES
Diante da repercussão das listas, o advogado Marco Antônio dos Santos, conhecido como Marquinhos Santos, divulgou orientações sobre os limites legais das manifestações políticas e as possíveis consequências para quem utiliza redes sociais para ameaçar, ofender ou acusar terceiros sem provas.
Segundo o alerta, pessoas que criam ou compartilham listas acompanhadas de ofensas, acusações falsas ou incentivos à prática de crimes podem responder judicialmente, dependendo do conteúdo e das circunstâncias da divulgação.
O advogado chama a atenção para os artigos 138, 139 e 140 do Código Penal, que tratam, respectivamente, de calúnia, difamação e injúria.
A legislação também prevê o crime de ameaça, no artigo 147, e de incitação pública à prática de crimes, no artigo 286, quando estiverem presentes seus requisitos legais.
PREJUÍZOS PODEM GERAR INDENIZAÇÕES
Além da esfera criminal, comerciantes e profissionais que sofrerem prejuízos decorrentes de atos ilícitos poderão procurar a Justiça para solicitar reparação por danos morais e materiais.
A responsabilização dependerá da demonstração da conduta irregular e, quando exigido, do prejuízo e de sua relação com os atos praticados.
O alerta também alcança pessoas que compartilham informações ofensivas ou acusações falsas, conforme sua participação na divulgação.
Entretanto, a simples escolha de não comprar em determinado estabelecimento por divergência política não constitui automaticamente crime. Tampouco a divulgação de uma lista de empresas representa, por si só, uma infração penal.
A diferença está na existência de comportamentos como ameaças, imputações criminosas falsas, ataques à honra ou incitação à prática de atos ilícitos.
DISCRIMINAÇÃO NO TRABALHO
As discussões também alcançaram as relações profissionais. Em publicações sobre o assunto, internautas debateram a possibilidade de empresários escolherem ou dispensarem funcionários de acordo com suas preferências eleitorais.
Parte dos participantes defendeu a liberdade dos empregadores para selecionar trabalhadores alinhados às próprias convicções. Outros argumentaram que a posição política não determina a capacidade profissional e que a utilização da relação de emprego como instrumento de perseguição pode caracterizar discriminação.
A legislação trabalhista protege os empregados contra práticas discriminatórias. Demissões motivadas por perseguição política podem ser contestadas judicialmente, conforme as circunstâncias.
Os materiais recebidos, entretanto, não comprovam que trabalhadores de Olímpia tenham sido efetivamente dispensados em razão do voto.
MENSAGENS MENCIONAM VIOLÊNCIA
Entre os conteúdos mais graves estão reproduções de conversas de um grupo político de WhatsApp com manifestações violentas contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.
Em uma das mensagens, uma participante manifesta vontade de atirar contra as autoridades. Outra publicação questiona por que ninguém teria tentado matá-las.
As capturas não permitem confirmar independentemente a identidade dos autores, a autenticidade integral das conversas ou a existência de investigação policial sobre as declarações.
ELEIÇÃO TERMINOU, CONFLITO CONTINUA
Em meio às manifestações mais agressivas, também surgiram posicionamentos em defesa do respeito às diferenças. Moradores condenaram a possibilidade de negar ajuda, prejudicar trabalhadores ou constranger consumidores em razão de suas escolhas eleitorais.
As manifestações de Amanda Piton, o esclarecimento da The Shoes e o alerta jurídico de Marquinhos Santos demonstram que a repercussão das listas ultrapassou os grupos políticos e passou a preocupar comerciantes e profissionais.
Até o momento, não há comprovação de demissões motivadas pelo voto, de crimes atribuídos aos estabelecimentos mencionados ou da efetiva divulgação das informações íntimas anunciadas.
A eleição terminou nas urnas, mas parte da disputa continua nas redes sociais. O risco é transformar divergências legítimas em perseguições, acusações e conflitos capazes de atingir a reputação, o trabalho e a segurança de pessoas que convivem diariamente na mesma cidade.
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