21 de junho | 2026
Neguinho da Beija-Flor cabe no Festival do Folclore?
Sambista encerra a abertura da edição dedicada ao Rio de Janeiro, mas sua presença exige uma leitura mais cuidadosa: ele não é grupo folclórico nem parafolclórico, e sim uma atração artística ligada ao samba-enredo, expressão reconhecida como parte das matrizes do samba carioca.
José Antônio Arantes – A presença de Neguinho da Beija-Flor na abertura do 62º Festival do Folclore de Olímpia trouxe uma pergunta legítima: um show de samba-enredo se encaixa em um festival dedicado ao folclore?
A resposta mais equilibrada é sim, mas com ressalvas.
Neguinho não deve ser apresentado como grupo folclórico nem como grupo parafolclórico. Seu lugar mais correto é o de atração artística de cultura popular, ligada ao samba carioca, ao carnaval e à tradição das escolas de samba.
EXPLICADA CULTURALMENTE
O cantor está previsto para subir ao palco principal às 23h30 do sábado, 1º de agosto, encerrando a primeira noite do FEFOL, que neste ano homenageia o Rio de Janeiro.
A abertura terá cortejo, cerimônia oficial, apresentações de grupos fluminenses e, ao final, o show de uma das vozes mais conhecidas da Beija-Flor de Nilópolis.
O contexto da homenagem ao Rio ajuda a sustentar a escolha, desde que ela seja explicada culturalmente e não vendida apenas como atração de massa.
O QUE É FOLCLORE
Folclore não é apenas lenda, saci, dança antiga ou manifestação rural. A Carta do Folclore Brasileiro define folclore como o conjunto das criações culturais de uma comunidade, fundadas na tradição e representativas de sua identidade social. Entre seus elementos principais estão a aceitação coletiva, a tradicionalidade, a dinamicidade e a funcionalidade.
Isso significa que uma manifestação folclórica precisa ser reconhecida por uma comunidade, transmitida socialmente, mantida ao longo do tempo e cumprir alguma função cultural, religiosa, festiva, simbólica ou comunitária.
Também não precisa ficar congelada no passado. O folclore muda, ganha palco, microfone e público, mas continua ligado a uma experiência coletiva.
PARAFOLCLORE É REPRESENTAÇÃO
Já o parafolclore é outra coisa. Grupos parafolclóricos são aqueles que representam manifestações populares por meio de pesquisa, ensaio, coreografia e adaptação artística.
Muitas vezes seus integrantes não são os portadores diretos daquela tradição, mas estudam e apresentam danças, folguedos e cantos populares em escolas, palcos, festivais e eventos culturais.
Por isso, parafolclore não é necessariamente falsificação. Pode ter valor educativo, turístico e cultural. Mas precisa ser apresentado como representação ou recriação, e não como a manifestação comunitária original.
No caso de Neguinho, porém, o termo não se encaixa bem. Ele não é um grupo urbano encenando uma tradição pesquisada; é um artista formado dentro do universo real das escolas de samba.
SAMBA TAMBÉM É CULTURA POPULAR
O ponto central está no samba-enredo. As Matrizes do Samba no Rio de Janeiro, partido-alto, samba de terreiro e samba-enredo, foram reconhecidas pelo Iphan como patrimônio cultural brasileiro.
Isso tira o samba-enredo da condição de simples música de carnaval ou produto televisivo. Ele faz parte de uma cultura popular urbana, negra, comunitária e profundamente ligada à identidade do Rio de Janeiro.
VOZ DA BEIJA-FLOR
Neguinho da Beija-Flor, nesse contexto, não é apenas um cantor famoso. Durante décadas, sua voz esteve associada à Beija-Flor de Nilópolis, à Sapucaí e ao carnaval carioca.
O intérprete de samba-enredo conduz uma narrativa coletiva, acompanhada por bateria, comunidade, alas, alegorias e memória popular.
É esse vínculo, e não apenas sua fama, que permite justificar sua presença no FEFOL.
RIO TERÁ GRUPOS TRADICIONAIS
A homenagem ao Rio de Janeiro também não ficará restrita ao show. Segundo a organização, o estado terá a maior delegação visitante da edição, com dez grupos fluminenses.
A programação inclui manifestações como afoxé, folia de reis, reisado, bumba boi, ciranda, mineiro-pau e quadrilha junina.
Esses grupos representam municípios como Nova Iguaçu, Duque de Caxias, Quissamã, Santo Antônio de Pádua, Paraty e a capital fluminense.
Esse conjunto é importante porque impede que a cultura do Rio seja reduzida apenas ao carnaval ou à figura de Neguinho.
O show encerra a noite, mas o conteúdo folclórico da homenagem está principalmente na presença dos grupos tradicionais.
RISCO É VIRAR FESTIVAL DE SHOWS
A ressalva necessária é que o Festival do Folclore precisa preservar sua identidade. Atrações nacionais podem ampliar público, movimentar a cidade e dar visibilidade ao evento.
Mas, se passarem a ocupar o centro da narrativa, o FEFOL corre o risco de se confundir com um festival comum de shows, perdendo justamente aquilo que o torna diferente.
No caso de Neguinho, a curadoria tem uma chance de fazer a ponte correta.
Se o show for apresentado apenas como entretenimento, a justificativa cultural enfraquece.
Se for contextualizado como celebração do samba-enredo e das matrizes do samba carioca, dentro da homenagem ao Rio, pode aproximar o público de uma forma legítima de cultura popular brasileira.
VEREDITO É SIM, MAS COM CUIDADO
O 62º FEFOL será realizado no Recinto do Folclore “Professor José Sant’anna”, com entrada gratuita, mais de 70 grupos, representantes de 21 estados, cerca de 2.800 participantes e estimativa oficial de 180 mil visitantes. A edição terá como tema “Aquele Abraço”, celebra o Jubileu de Alecrim e homenageia o Rio de Janeiro.
A conclusão é direta: Neguinho da Beija-Flor cabe no Festival do Folclore, mas não como folclore tradicional nem como parafolclore. Cabe como atração artística vinculada ao samba-enredo e à cultura popular carioca.
A presença se justifica pelo tema da edição e pelo reconhecimento das matrizes do samba como patrimônio cultural brasileiro.
O desafio será fazer do espetáculo uma porta de entrada para o folclore, e não um substituto dele.
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