26 de julho | 2026

Vazão diz que médico não deve tratar apenas a doença, mas compreender a vida do paciente

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MEDICINA HUMANIZADA!
Em entrevista ao Pod Pai e Filha, médico falou sobre saúde mental, atendimento na rede pública, obesidade, canetas emagrecedoras, cannabis medicinal, prevenção e a influência do médico Nilton Martines em sua trajetória.

Bruna Arantes – O médico Cássio Henrique Vazão defendeu que o atendimento médico não pode se limitar a identificar uma doença e entregar uma receita. Para ele, é necessário conhecer a rotina, as condições de vida, a família e a rede de apoio do paciente antes de definir qualquer tratamento.

A declaração foi feita durante participação no Pod Pai e Filha, apresentado por Bruna e José Antônio Arantes, na quinta-feira, dia 23 de julho. Nascido e criado em Olímpia, Cássio falou sobre sua trajetória, a experiência na rede pública e os principais problemas de saúde que têm chegado aos consultórios.

PACIENTE DEVE SER VISTO COMO UM TODO

Durante a entrevista, o médico afirmou que o atendimento humanizado começa pela disposição de ouvir. “Eu não vou olhar para a doença, eu vou olhar para o paciente”, declarou. Segundo ele, é necessário entender quem é a pessoa, como vive, se possui ajuda da família e se terá condições de seguir o tratamento indicado.

Cássio também defendeu que médico e paciente decidam juntos o caminho a ser seguido. Ele criticou consultas rápidas, nas quais o profissional não conversa adequadamente com a pessoa atendida, e afirmou que um atendimento mais completo pode exigir mais de 40 minutos.

Para o médico, nem todas as consultas terão a mesma duração. Uma troca de receita ou uma demanda simples pode ser resolvida rapidamente, enquanto situações mais complexas precisam de mais tempo. “Eu não acho que tem que ser número. Acho que tem que ser qualidade”, afirmou.

FORMAÇÃO FOI AMPLIADA CONFORME A NECESSIDADE

Cássio explicou que atua como médico generalista e ainda não possui especialidade registrada no conselho profissional. Ao longo da carreira, porém, buscou pós-graduações e cursos em áreas relacionadas às necessidades encontradas no atendimento diário.

Segundo ele, a experiência como médico de família e comunidade fez com que ampliasse seus conhecimentos em geriatria, pediatria, cuidados paliativos, diabetes, obesidade, saúde mental, cannabis medicinal, oncologia, soroterapia e outras áreas.

Cássio afirmou que o profissional precisa reconhecer os próprios limites. Quando um caso não estiver dentro de sua capacidade de atuação, deve encaminhar o paciente para quem possa oferecer o atendimento adequado. “O que eu não souber, vou falar que não sei e procurar alguém que possa ajudar”, disse.

UBS PODERIA RESOLVER MAIS CASOS

Ao comentar sua passagem pela saúde pública, o médico afirmou que as Unidades Básicas de Saúde poderiam resolver grande parte das demandas que acabam chegando aos serviços de urgência. Para ele, muitas pessoas procuram a UPA porque não foram orientadas sobre o funcionamento da rede.

Cássio avaliou que Olímpia possui bons profissionais, estrutura, materiais e exames complementares. O problema, segundo ele, estaria na falta de direcionamento e informação aos pacientes.

Ele relembrou o período em que trabalhou no Posto de Saúde Adão José, unidade que classificou como uma espécie de “mini UPA”. Durante uma epidemia de dengue, a equipe chegou a adaptar espaços para atender a grande quantidade de pacientes, utilizando os recursos disponíveis até que fosse criada uma estrutura específica para esses atendimentos.

DEPRESSÃO E ANSIEDADE PREOCUPAM

Questionado sobre os problemas mais frequentes, o médico apontou depressão e ansiedade como os grandes desafios atuais. “A doença do século é a depressão”, afirmou.

Segundo Cássio, a correria, a falta de lazer, o pouco tempo em família, o isolamento social e a ausência de uma rede de apoio contribuem para o agravamento da saúde mental. Ele também relacionou esse cenário ao aumento da obesidade, da compulsão alimentar e dos problemas de sono.

Durante o programa, foi mencionada a existência de casos recorrentes de tentativas de suicídio entre adolescentes atendidos pela rede de saúde. Cássio não apresentou números, ressaltando que os dados oficiais devem ser fornecidos pela Secretaria Municipal de Saúde, mas confirmou que essas ocorrências continuam sendo registradas e classificou a situação como preocupante.

O médico destacou que depressão não deve ser tratada como “frescura”. Segundo ele, o tratamento pode envolver psicoterapia, atividade física, alimentação adequada, apoio familiar, momentos de lazer e, quando necessário, medicamentos.

VIDA FAMILIAR E REDE DE APOIO

Cássio atribuiu importância especial à convivência familiar. Para ele, hábitos simples, como sentar à mesa para almoçar ou jantar, ajudam a fortalecer vínculos e oferecem apoio emocional.

O médico afirmou que muitas crianças passam grande parte do tempo diante de celulares e redes sociais, enquanto os pais enfrentam jornadas extensas de trabalho. Na avaliação dele, as telas acabaram ocupando, em algumas famílias, um espaço que deveria ser preenchido pelo diálogo e pela convivência.

Ele também contou que teve uma infância cercada por vizinhos que se tornaram parte de sua família. A história foi usada para explicar o significado de uma rede de apoio formada não apenas por parentes, mas também por amigos e pessoas próximas.

ALERTA SOBRE CANETAS EMAGRECEDORAS

Outro assunto abordado foi o uso das chamadas canetas emagrecedoras. Cássio citou medicamentos como liraglutida, semaglutida e tirzepatida, destacando que surgiram inicialmente para outras indicações e passaram a ser utilizados também no tratamento da obesidade.

O médico classificou esses medicamentos como uma evolução importante, mas alertou contra o uso sem acompanhamento. Segundo ele, o paciente pode perder não apenas gordura, mas também massa muscular, além de apresentar deficiência de vitaminas, queda de cabelo, hipoglicemia e alterações que precisam ser acompanhadas.

Cássio afirmou que o tratamento deve incluir exames, alimentação adequada, atividade física e avaliação individual. “Cada paciente é único”, repetiu durante a entrevista.

CANNABIS MEDICINAL E ACOMPANHAMENTO

O médico também falou sobre a cannabis medicinal, área na qual possui formação complementar. Segundo ele, o canabidiol é uma substância extraída da planta, utilizada com finalidade terapêutica e sem o efeito psicoativo associado ao uso recreativo da maconha.

Cássio relatou que a medicação vem sendo estudada e utilizada em situações relacionadas a ansiedade, insônia, dor crônica, autismo, Parkinson, Alzheimer e outros quadros. Ressaltou, porém, que a dose deve ser individualizada e acompanhada por profissional habilitado.

Ele também afirmou que o canabidiol pode ser usado, em alguns casos, durante processos de retirada gradual de medicamentos que causam dependência, sempre com acompanhamento médico. O entrevistado alertou principalmente para o uso prolongado e sem controle de remédios destinados à ansiedade e ao sono.

DR. NILTON FOI REFERÊNCIA

Um dos momentos mais emocionantes da entrevista ocorreu quando Cássio falou sobre o médico Nilton Martines, que acompanhou sua família e serviu de inspiração para sua escolha profissional.

Segundo Cássio, Nilton foi seu médico desde o nascimento e também amigo de seus pais. Quando ainda cursava Medicina na Bolívia, procurou o profissional para discutir a possibilidade de realizar parte da formação em Olímpia.

Nilton teria aconselhado o estudante a permanecer em uma cidade maior, onde teria contato com mais casos, cirurgias e experiências profissionais. Prometeu ensinar o que sabia quando Cássio retornasse, mas morreu antes que isso pudesse acontecer.

Para o entrevistado, o principal legado de Nilton foi a maneira humana de cuidar dos pacientes. “Ele conhecia a vida de todo mundo”, declarou. Cássio afirmou que busca levar esse mesmo princípio para o próprio trabalho: ouvir, conhecer e tratar cada pessoa de forma individual.

 

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