21 de outubro | 2025
A Banalidade do Mal em Nosso Quintal
Quando a violência contra a mulher deixa de ser exceção para se tornar uma estatística crescente, a sociedade inteira falha em sua humanidade.
José Antônio Arantes – A brutal tentativa de feminicídio ocorrida em Olímpia, onde uma jovem de 23 anos foi esfaqueada múltiplas vezes por um ex-companheiro que já tinha um mandado de prisão em aberto por agressões anteriores contra ela, não é uma mancha isolada no tecido social. É o sintoma mais purulento de uma doença crônica que corrói o Brasil: a normalização da violência de gênero.
Este evento trágico, ocorrido em uma cidade celebrada por sua segurança, expõe a perigosa dissonância entre a paz das ruas e a guerra travada dentro de casa. É um espelho que reflete a falência de um sistema que possui leis, mas não consegue garantir a proteção mais básica: o direito à vida.
A CULTURA DO CONTROLE E DA POSSE
A questão ultrapassa a esfera criminal e se aprofunda nas raízes de nossa cultura. O agressor não é um monstro que surge do nada; ele é a cria de uma sociedade que, por séculos, ensinou aos homens que eles possuem os corpos e as vontades de suas parceiras.
O feminicídio é o ato final de uma gramática de controle, a expressão máxima da ideologia da posse.
O CICLO DE ABUSO E O RISCO DA AUTONOMIA
Quando a mulher decide romper o ciclo de abuso – um ciclo perverso de tensão, explosão e falso arrependimento – sua busca por autonomia é vista como uma traição, uma afronta que, na mente do agressor, só pode ser “punida” com a aniquilação.
Os números são a prova irrefutável de que não estamos lidando com casos isolados, mas com uma epidemia nacional. O Brasil ostenta a vergonhosa quinta maior taxa de feminicídio do mundo. Em 2024, o país registrou um recorde de 1.492 mulheres assassinadas, uma média de quatro por dia.
A BARBÁRIE SE ESPALHA PELO INTERIOR
O estado de São Paulo, motor econômico da nação, acompanha a tendência macabra, com os casos saltando de 195 em 2022 para 251 em 2024. E o interior, como mostram os dados, tornou-se o epicentro dessa violência, desmistificando a ideia de que a barbárie é um problema exclusivo das metrópoles.
Essas estatísticas frias representam vidas interrompidas, famílias destruídas e um grito de socorro coletivo que parece ecoar no vazio. A cada mulher morta, reafirma-se a ineficácia de um aparato estatal que, apesar de possuir um dos arcabouços legais mais avançados do mundo, com a Lei Maria da Penha e a Lei do Feminicídio, falha miseravelmente na sua aplicação.
O ESTADO QUE NÃO PROTEGE
O mandado de prisão não cumprido em Olímpia é a materialização dessa falha. De que adianta a lei no papel se o braço do Estado não alcança o agressor a tempo de evitar a tragédia? Não surpreende que 80% dos brasileiros considerem a Lei Maria da Penha “pouco ou nada eficaz”. A percepção pública é de desamparo.
É aqui que o conceito de “banalidade do mal”, da filósofa Hannah Arendt, se torna assustadoramente pertinente. O mal floresce não apenas nas mãos do agressor, mas na indiferença da sociedade. Ele se manifesta na recusa em “meter a colher” na briga do casal, no vizinho que ignora os gritos, no policial que trata a denúncia como um mero desentendimento familiar.
A BANALIZAÇÃO DO MAL
A violência se torna banal quando a sociedade se recusa a pensar criticamente sobre ela, quando a transforma em mais uma notícia de rodapé, em um número a ser esquecido no dia seguinte.
Essa ausência de pensamento coletivo cria um ambiente de cumplicidade que permite a perpetuação do ciclo. O feminicídio é o ápice de um contínuo de violências – psicológica, moral, patrimonial – que são sistematicamente minimizadas.
O ROMANTISMO DO CONTROLE
O ciúme possessivo é romantizado como “cuidado”, o controle sobre as roupas e amizades é visto como “zelo”. A vítima é progressivamente isolada, sua autoestima destruída, até que a única saída pareça ser a submissão ou a morte.
Endurecer penas, como fez a recente lei que tornou o feminicídio crime autônomo com reclusão de até 40 anos, é uma medida necessária, mas insuficiente. A solução não pode ser apenas reativa. Combater o feminicídio exige uma revolução cultural que desmantele as estruturas do machismo. Exige uma educação que ensine meninos sobre respeito e meninas sobre autonomia, desde a primeira infância. Exige uma mídia que pare de tratar crimes de ódio como “crimes passionais”.
A URGÊNCIA DA MUDANÇA
O Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios aponta o caminho certo, com seus eixos de prevenção primária, secundária e terciária, focando em educação, intervenção precoce e amparo às vítimas. Precisamos fortalecer a rede de proteção, com mais Delegacias da Mulher funcionando 24 horas, com fiscalização efetiva das medidas protetivas e, acima de tudo, com o cumprimento rigoroso dos mandados de prisão.
O caso de Olímpia nos ensina da forma mais dura: a omissão do Estado mata. A indiferença da sociedade também. Quebrar este ciclo de violência não é apenas uma questão de segurança pública; é um imperativo civilizatório. É a nossa chance de provar que ainda nos importamos com a vida.
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