01 de novembro | 2026
As listas da vergonha e o terceiro turno da intolerância
A eleição terminou nas urnas, mas a disputa invadiu o comércio, o trabalho e a vida privada em Olímpia. Entre ameaças e propostas de boicote, reações de diferentes correntes políticas mostraram que ainda existe espaço para o bom senso.

Durante a semana, o iFolha acompanhou episódios que revelam algo preocupante: a tentativa de transformar a preferência política em critério para determinar quem merece trabalhar, vender, comprar ou simplesmente ser respeitado. O que deveria terminar com a escolha de um governante acabou se transformando, para alguns, numa oportunidade de perseguir quem pensa diferente.
AS LISTAS DA VERGONHA
A polêmica começou com a circulação de listas de comerciantes e profissionais classificados como de direita ou de esquerda. Em grupos de mensagens, surgiram propostas para direcionar consumidores a estabelecimentos de determinada orientação política, com a intenção, em algumas manifestações, de enfraquecer economicamente os adversários.
Ninguém é obrigado a comprar onde não deseja. Esse é um direito do consumidor. Mas uma coisa é exercer individualmente essa liberdade. Outra é organizar campanhas para constranger ou tentar prejudicar pessoas por suas escolhas eleitorais. E há algo ainda mais perverso: uma empresa não sustenta apenas seu proprietário. Existem funcionários, fornecedores e famílias que dependem dela. O que essas pessoas fizeram para merecer punição? Trabalhar?
QUANDO A INTIMIDADE VIRA ARMA
A situação ganhou contornos ainda mais graves quando surgiram publicações ameaçando divulgar supostas informações íntimas de apoiadores da direita. Uma internauta anunciou uma lista envolvendo alegações sobre comportamentos sexuais, chegando a manifestar a intenção de provocar problemas familiares.
Também circularam mensagens atribuídas a participantes de grupos políticos com referências falando em morte de autoridades nacionais. A autenticidade integral dessas conversas ainda exige verificação, mas seu conteúdo é preocupante. A intimidade não pode ser instrumento de vingança, assim como acusações sem provas não podem substituir argumentos. Não importa se partem da direita ou da esquerda. A gravidade está na conduta, não na bandeira.
A REAÇÃO VEIO DA DIREITA
Felizmente, houve quem reagisse. Netto Albertino, presidente do PL Jovem de Olímpia, divulgou um vídeo criticando duramente a proposta de boicotar comerciantes identificados com a esquerda. Questionou se aquela seria a democracia defendida pela direita e resumiu seu pensamento numa frase contundente: “A merda não tá na esquerda ou na direita, tá no extremo”.
O Movimento Direita Olímpia também repudiou oficialmente as listas destinadas a expor, constranger ou prejudicar pessoas, negando participação na iniciativa. Foi um posicionamento importante. Afinal, não é coerente defender a liberdade econômica e o direito de propriedade enquanto se tenta arruinar o negócio de alguém porque votou diferente.
UM CASAMENTO ACIMA DA POLÍTICA
Talvez o episódio mais significativo tenha sido o de Camila Ferri, proprietária de um pet shop incluído numa lista de estabelecimentos associados à esquerda. Seu marido, Bruno Sant’Ana, manifestou-se publicamente em defesa dela. Bruno é de direita. Camila é de esquerda. E daí?
Os dois trabalham, cuidam dos filhos e constroem uma família. Não precisam votar no mesmo candidato para permanecer juntos. Bruno afirmou que não deixaria de frequentar estabelecimentos de pessoas com opiniões diferentes das suas. Se marido e mulher conseguem conviver com divergências políticas, por que um comerciante e seu cliente não poderiam fazer o mesmo?
PT E COMERCIANTES SE MANIFESTAM
O Diretório Municipal do PT também divulgou nota de solidariedade a empregadores e empregados que tenham sofrido retaliações após as eleições. O posicionamento merece registro, assim como o do Movimento Direita Olímpia. O respeito aos direitos individuais deveria ser uma preocupação permanente, inclusive quando os prejudicados pertencem ao campo político adversário.
A loja The Shoes precisou esclarecer que não possui alinhamento partidário e que atende consumidores de todas as opiniões. Amanda Piton também condenou a perseguição a comerciantes, lembrando que por trás de cada estabelecimento existem famílias, trabalho e contas a pagar. Uma cidade não prospera quando seus habitantes começam a dividir empresas entre amigas e inimigas políticas.
LIBERDADE TEM RESPONSABILIDADES
O advogado Marco Antônio dos Santos, o Marquinhos Santos, alertou para as possíveis consequências judiciais de ameaças, ofensas e acusações falsas divulgadas nas redes. A liberdade de expressão é constitucional, mas não elimina a responsabilidade de quem calunia, difama, injuria ou ameaça.
É necessário, porém, distinguir fatos de suspeitas. Os materiais analisados pelo iFolha não comprovam prejuízos financeiros efetivos aos estabelecimentos nem demissões motivadas pelo voto. O que está documentado é a circulação de listas, ameaças de exposição e acusações sem provas. E isso já é suficientemente grave.
O BOM SENSO NÃO TEM PARTIDO
Se algo positivo surgiu dessa semana, foi perceber que pessoas de diferentes posições políticas rejeitaram os excessos. Netto criticou atitudes de pessoas do próprio campo político. O MDO repudiou as listas. O PT condenou retaliações. Bruno defendeu a esposa. Amanda pediu respeito. A The Shoes reafirmou sua independência.
Cada manifestação teve suas particularidades, mas existe um ponto comum: pensar diferente não autoriza prejudicar o próximo. O verdadeiro compromisso com a democracia aparece quando temos coragem de condenar também os erros daqueles com quem concordamos.
A DERROTA MAIOR É DA CONVIVÊNCIA
Olímpia é uma cidade onde as pessoas se encontram no supermercado, na padaria, na escola, na igreja e no trabalho. O comerciante que hoje aparece numa lista pode ser aquele que amanhã oferecerá emprego ao filho de quem o critica. O vizinho que votou diferente pode ser o primeiro a ajudar numa emergência.
Nenhuma eleição justifica destruir esses vínculos. É possível defender Lula, Bolsonaro, Flávio Bolsonaro ou qualquer outro político sem transformar o adversário em alguém indigno de respeito. É possível comemorar uma vitória, lamentar uma derrota e criticar governos sem desejar a ruína de quem pensa diferente.
Antes de perguntar em quem alguém votou, talvez fosse melhor observar como essa pessoa trata os outros, se cumpre suas obrigações e se respeita o próximo.
Porque caráter não se mede pelo número digitado na urna.
A eleição escolheu quem vai governar o país. Não deu a ninguém o direito de perseguir quem pensa diferente.
Porque nem a vitória nem a derrota eleitoral justificam a perda da humanidade.
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