01 de agosto | 2026

O Festival do Folclore é a memória viva de Olímpia

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Mais do que uma festa de nove dias, o FEFOL representa a identidade, a história e a responsabilidade de uma cidade que aprendeu a reconhecer na cultura popular uma de suas maiores riquezas.

José Antônio Arantes – Quando o Festival do Folclore de Olímpia nasceu, em 1965, não havia grandes estruturas, multidões, publicidade nacional ou interesses turísticos do tamanho dos atuais. Havia professores, estudantes, pesquisadores, famílias e pessoas dispostas a preservar costumes que corriam o risco de desaparecer.

O festival surgiu da sala de aula, das pesquisas de campo, das exposições de objetos e da dedicação de quem compreendeu que um povo sem memória perde também parte de sua identidade.

Mais de seis décadas depois, o Fefol tornou-se um dos acontecimentos mais importantes da história de Olímpia. Cresceu, ganhou recinto próprio, recebeu grupos de praticamente todas as regiões brasileiras e contribuiu decisivamente para que o município fosse reconhecido como Capital Nacional do Folclore. Mas sua verdadeira grandeza não pode ser medida apenas pelo número de visitantes, de apresentações ou pela movimentação econômica.

UMA HERANÇA QUE NÃO PODE SER ESQUECIDA

O festival carrega o trabalho visionário do professor José Sant’anna e de todos aqueles que, antes e depois dele, ajudaram a transformar uma atividade educacional em um projeto cultural permanente. Não foi obra de uma única edição, de um governo ou de uma administração. Foi uma construção coletiva, atravessando gerações, crises, mudanças políticas e transformações sociais.

Por isso, o Fefol pertence à cidade. Pertence aos grupos locais, às escolas, aos voluntários, às entidades, aos comerciantes, aos pesquisadores, às famílias e a todos que, de alguma maneira, ajudaram a manter essa história viva. Governos passam. Prefeitos, secretários e comissões são substituídos. O festival permanece porque sua base está na comunidade.

CULTURA NÃO É APENAS ENTRETENIMENTO

Em uma época dominada pelas telas, pela pressa e pelo consumo de conteúdos que desaparecem em poucos segundos, o Festival do Folclore assume uma importância ainda maior. Ele nos lembra que existem manifestações culturais transmitidas de pais para filhos, mantidas por fé, devoção, pertencimento e resistência.

Uma Congada, uma Folia de Reis, um Reisado, um Maracatu, um Bumba Meu Boi ou uma dança tradicional não são apenas apresentações coloridas. Cada grupo carrega histórias, crenças, dificuldades, modos de falar, tocar, cantar, vestir e compreender o mundo. Quando essas manifestações chegam a Olímpia, não trazem somente um espetáculo. Trazem pedaços do Brasil.

O RISCO DE PERDER A ESSÊNCIA

O crescimento do festival trouxe benefícios evidentes. Movimenta hotéis, restaurantes, bares, lojas, transporte, comércio informal e inúmeros setores da economia. Divulga Olímpia para o país, fortalece o turismo e oferece uma programação gratuita que poucas cidades conseguem proporcionar.

Mas justamente por ter crescido tanto, o FEFOL precisa ser protegido contra o risco de se transformar apenas em mais um grande evento turístico. A preocupação com público, estrutura, segurança, patrocinadores e atrações é necessária, mas não pode ocupar o lugar da pesquisa, da educação, da valorização dos mestres e do respeito aos grupos tradicionais.

O festival não pode ser medido apenas pelo palco principal ou pela quantidade de pessoas que passam pelo recinto. Sua qualidade também deve ser avaliada pelo espaço oferecido às manifestações autênticas, pela atenção aos grupos locais, pelo envolvimento das escolas e pela capacidade de ensinar às novas gerações por que aquela festa existe.

UMA ESCOLA A CÉU ABERTO

O FEFOL precisa continuar sendo uma grande sala de aula. Crianças e jovens devem conhecer sua origem, seus fundadores, seus personagens e a importância das manifestações apresentadas. Não basta levá-los ao recinto. É necessário explicar o significado das danças, dos instrumentos, dos cortejos, das roupas e das tradições.

Sem esse trabalho educativo, corre-se o risco de formar gerações que frequentam o Festival do Folclore, mas desconhecem sua história. Pessoas que assistem às apresentações, mas não compreendem o esforço necessário para que cada grupo continue existindo.

Preservar não significa impedir mudanças. O próprio folclore é vivo, transforma-se e acompanha seu povo. Porém, toda transformação deve respeitar a origem. Modernizar a estrutura é importante. Melhorar o conforto, a segurança e a organização também. O que não pode ser modernizado a ponto de desaparecer é o sentido cultural do festival.

UM COMPROMISSO COM O FUTURO

Hoje, o FEFOL é uma das maiores referências de Olímpia. Enquanto os parques aquáticos projetam a cidade pelo turismo de entretenimento, o festival apresenta ao Brasil uma Olímpia ligada à cultura, à educação, à memória e à diversidade.

Esse patrimônio precisa ser cuidado com planejamento, profissionalismo e independência política. Sua história deve ser documentada, seus arquivos preservados, seus pesquisadores ouvidos e seus grupos valorizados durante todo o ano, não apenas nos dias da festa.

O Festival do Folclore chegou até aqui porque muitas pessoas acreditaram que tradição não era coisa ultrapassada. Era herança. Era conhecimento. Era identidade.

Agora, cabe à nossa geração garantir que ele continue crescendo sem perder a alma. Porque Olímpia pode ter muitos eventos, atrações e investimentos, mas o Fefol é único. Não é apenas algo que a cidade realiza.

É parte do que a cidade é.

 

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