23 de novembro | 2025

Por que escrever “No Berço, um Robô?”

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Reflexões de um jornalista sobre meio século de transformações e a urgência de reconquistar a humanidade.

José Antônio Arantes – Aos 66 anos, olho para trás e vejo cinco décadas de uma transformação tão radical que, se contasse para meu eu de 14 anos — aquele garoto que começava no jornalismo em 1973 —, ele simplesmente não acreditaria. Não porque a tecnologia tenha avançado, isso era esperado, mas pela velocidade e profundidade com que ela reconfigurou não apenas nossas ferramentas, mas nossa própria humanidade.

Escrevi “No Berço, um Robô?” porque cheguei a um ponto em que o silêncio seria cumplicidade. Passei décadas observando, documentando, registrando as mudanças como jornalista.

Tentei, como professor de Filosofia em escola pública, plantar sementes de pensamento crítico em mentes já programadas para vídeos de 15 segundos.

EDUCAR NUM MUNDO IRRECONHECÍVEL

Vivi, como pai e agora avô, o dilema de educar em um mundo que não reconheço mais. E percebi que todas essas experiências convergiam para uma tese inquietante: estamos produzindo gerações tecnicamente competentes, mas humanamente frágeis.

Este livro não nasceu de uma inquietação momentânea. As reflexões que apresento nele me acompanham desde que comecei no jornalismo, mas ganharam contornos mais nítidos quando passei a apresentar, junto com minha filha Bruna, o podcast “Pod Pai & Filha”.

Ali, no exercício diário de dialogar entre gerações, ficou claro que o abismo não estava apenas nas tecnologias disponíveis, mas na própria forma como nos relacionamos com o mundo e uns com os outros.

O QUE ME MOTIVOU

A motivação central para escrever este livro foi uma cena que se repete diariamente em milhares de lares brasileiros: famílias reunidas fisicamente, mas isoladas digitalmente.

Pais e filhos no mesmo ambiente, mas cada um aprisionado em sua própria bolha digital, incapazes de sustentar uma conversa de dez minutos sem que alguém cheque o celular.

REVOLUÇÕES SILENCIOSAS

Como jornalista, aprendi que as grandes transformações sociais não começam com manifestos grandiosos ou revoluções ruidosas. Elas começam silenciosamente, em pequenas mudanças de hábito que, acumuladas, reconfiguram toda a sociedade.

E o que estamos vivendo é exatamente isso: a dissolução silenciosa dos laços que sempre sustentaram a educação e a formação humana.

Quando entrei em uma sala de aula pela primeira vez como professor, já com mais de 50 anos, acreditava ingenuamente que minha experiência como jornalista e minha formação em Filosofia seriam suficientes para engajar os jovens.

COMPETINDO COM ALGORITIMOS

Levei meses para entender que não estava competindo com outros professores ou com a “falta de interesse” dos alunos. Estava competindo com a arquitetura mais sofisticada de captura de atenção já criada pela humanidade: os algoritmos das redes sociais.

Dentro dos mais de seis anos em sala de aula, ainda cursei Ciências Sociais e Pedagogia na tentativa de “mudar o mundo”. Ali, no corpo a corpo pedagógico, entendi que o problema era sistêmico. Não era culpa dos alunos, que chegavam ao ensino médio sem conseguir interpretar um texto simples. Não era culpa dos pais, exaustos de jornadas de trabalho que nunca terminam. Não era nem mesmo culpa da escola, aprisionada em uma estrutura industrial do século XIX tentando educar cidadãos do século XXI.

A TESE CENTRAL

A tese que defendo no livro é que estamos vivendo uma tempestade perfeita: a ausência dos pais, órfãos de seu próprio tempo; a inadequação da escola, presa em métodos anacrônicos; e a captura total da atenção pelas telas, que se tornaram a verdadeira educadora de nossos filhos.

E por trás dessa tempestade, há arquitetos: um sistema econômico que mercantiliza o tempo e a vida, uma cultura de consumo que vende identidades de prateleira, e algoritmos que nos aprisionam em bolhas de confirmação.

Não escrevi este livro para culpar ninguém.

Escrevi para nomear forças que, justamente por serem invisíveis, se tornam quase inescapáveis.

ESCOLHAS CONDICIONADAS

Como dizia Foucault, o poder mais eficiente é aquele que não precisa se mostrar, que opera na sutileza, que nos faz acreditar que nossas escolhas são livres quando, na verdade, foram cuidadosamente condicionadas.

O título “No Berço, um Robô?” é proposital.

Não estou afirmando categoricamente que estamos criando robôs, mas fazendo uma pergunta provocativa: ao terceirizarmos a educação para as telas, ao permitirmos que algoritmos moldem os valores e as visões de mundo de nossos filhos, ao substituirmos presença por presentes e diálogo por mensagens de texto, o que estamos realmente formando? Seres humanos completos, capazes de pensamento crítico, empatia e autonomia?

Ou estamos produzindo indivíduos programados para responder a estímulos, consumir vorazmente e reproduzir padrões sem questioná-los?

POR QUE AGORA

Alguém poderia perguntar: por que escrever este livro agora, aos 66 anos, depois de tantas décadas de observação?

A resposta é simples: porque agora a urgência se tornou evidente.

Há dez anos, ainda era possível acreditar que a tecnologia seria apenas mais uma ferramenta, que aprenderíamos a usá-la com sabedoria. Hoje, ficou claro que não estamos apenas usando a tecnologia; estamos sendo usados por ela.

ATENÇÃO DE 8 SEGUNDOS

Os dados são alarmantes. Estudos mostram que a capacidade de atenção média de um adolescente caiu para menos de 8 segundos. As taxas de ansiedade e depressão entre jovens dispararam.

O analfabetismo funcional persiste mesmo entre aqueles que completam o ensino médio.

E o mais grave: estamos criando uma geração incapaz de distinguir fato de opinião, notícia de propaganda, realidade de performance digital.

Como jornalista que viveu a era do papel impresso, do rádio, da televisão e agora das redes sociais, tenho uma perspectiva privilegiada sobre essas transformações.

Vi a informação se democratizar, mas também vi a desinformação se tornar uma indústria.

Vi a comunicação se acelerar, mas também vi o diálogo se empobrecer.

Vi o acesso ao conhecimento se multiplicar, mas também vi a capacidade de compreensão se deteriorar.

PROPÓSITO E ESPERANÇA

Este livro não é um lamento nostálgico por um passado idealizado. Não acredito que “antigamente era melhor”. Cada época tem seus desafios. O que me preocupa é que estamos enfrentando os desafios do século XXI com ferramentas conceituais e institucionais do século XX, e isso é uma receita para o desastre.

Meu propósito ao escrever “No Berço, um Robô?” é duplo.

Primeiro, oferecer um diagnóstico honesto e sem concessões da situação em que nos encontramos. Nomear as forças que nos moldam, tornar visível o invisível, para que possamos ao menos ter a chance de resistir conscientemente.

CAMINHOS DE RECONQUISTA

Segundo, e mais importante, oferecer caminhos concretos de reconquista. Porque análise sem ação é apenas pessimismo estéril.

Acredito profundamente que ainda há tempo.

Que cada família que decide criar rituais de presença genuína está plantando sementes de resistência.

Que cada professor que se recusa a ser apenas um “entregador de conteúdo” está fazendo uma revolução silenciosa.

Que cada jovem que questiona o que consome, que sai de sua bolha digital, que reconquista a capacidade de atenção profunda, está contribuindo para uma mudança civilizatória.

CONFISSÃO FINAL

Encerro esta reflexão com uma confissão que também está no livro: não escrevi de um lugar de superioridade moral. Cometi os erros que descrevo. Fui um pai ausente em muitos momentos, absorvido pela missão de “prover”.

Demorei para entender que o tempo é o recurso mais valioso que podemos oferecer.

Aprendi tarde, mas aprendi.

E é dessa aprendizagem tardia, dessa consciência conquistada através do erro, que vem a convicção de que é possível fazer diferente.

EM QUE MUNDO ESTAMOS

“No Berço, um Robô?” é um livro-convite. Um convite para que paremos, olhemos ao redor, e nos perguntemos que mundo estamos construindo e que humanos queremos ser.

A resposta começa no berço, mas se estende por toda a vida. Porque educar, no fim das contas, é o ato de coragem de formar seres humanos em um mundo que prefere robôs. E essa coragem, acredito, ainda não nos abandonou completamente.

José Antônio Arantes é jornalista, advogado, filósofo, cientista social, editor e fundador da Folha da Região. “No Berço, um Robô?” é seu terceiro livro e está disponível na Amazon e Estante Virtual.

 

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