16 de agosto | 2026

Sant’anna veria no Fefol uma obra em movimento

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A 62ª edição indica que a festa criada a partir da escola cresceu, ganhou estrutura e projeção, mas continua tendo como centro os grupos que mantêm viva a cultura popular brasileira.


José Antônio Arantes – Se o professor José Sant’anna pudesse ver o tamanho que o Festival do Folclore de Olímpia alcançou, provavelmente teria motivos para se emocionar. Não pela estrutura, pelo público ou pela projeção nacional da festa que ajudou a criar. A maior satisfação talvez viesse de perceber que, apesar do crescimento, o Fefol continua apontando para o objetivo que esteve na origem de sua caminhada: colocar a cultura popular brasileira no centro da cena, com respeito, convivência e troca entre os próprios grupos.

Essa é a leitura mais importante da 62ª edição. O festival cresceu, modernizou sua organização, ampliou sua programação e ganhou novos espaços. Mas seu valor maior não está na aparência de grande evento. Está no fato de continuar recebendo grupos de diferentes regiões do país para que eles não sejam apenas atrações de uma noite, mas participantes de uma experiência coletiva que dura vários dias.

O SONHO NÃO ERA APENAS FAZER UMA FESTA

José Sant’anna não pensou o folclore como enfeite de calendário. Sua visão nasceu da escola, da pesquisa, da curiosidade dos alunos e da necessidade de reconhecer como cultura aquilo que muitas vezes era tratado como coisa simples, antiga ou menor. Ao transformar esse trabalho em festival, ele abriu uma janela para que manifestações populares ganhassem dignidade pública.

Por isso, o Fefol não pode ser medido apenas pelo número de espectadores ou pelo movimento no recinto. Esses dados importam, sustentam a festa, mas não esgotam o seu sentido. O que torna o festival diferente é a possibilidade de reunir, no mesmo espaço, grupos que carregam histórias comunitárias, tradições transmitidas entre gerações, ritmos regionais, danças, cantos, instrumentos, roupas, rituais e modos próprios de viver a cultura.

CRESCER SEM VIRAR APENAS ESPETÁCULO

Todo festival que cresce corre um risco: transformar-se em espetáculo vistoso, porém distante da própria origem. O Fefol precisa evitar esse caminho. O palco iluminado, a estrutura de recepção, a divulgação e a organização são necessários, mas não podem ocupar o lugar principal. O centro da festa continua sendo o grupo folclórico.

A 62ª edição mostrou sinais positivos nesse sentido. A alegria de representantes de grupos ao estarem em Olímpia revela que o festival ainda é percebido como lugar de reconhecimento. Para muitos participantes, subir ao palco do Fefol não é apenas cumprir uma agenda artística. É apresentar a cultura de sua comunidade no maior encontro da cultura popular brasileira, assistir a outras manifestações, conversar com integrantes de outros estados e se sentir parte de uma rede nacional.

A CONVIVÊNCIA É PARTE DA PROGRAMAÇÃO

Há uma diferença enorme entre se apresentar em um evento e viver um festival. No Fefol, essa diferença é fundamental. A permanência dos grupos durante vários dias permite que a troca aconteça fora do palco: nos alojamentos, nas ruas, nas escolas, nos seminários, nos desfiles, nos bastidores e nas atividades paralelas.

Essa convivência talvez seja uma das dimensões mais fiéis ao pensamento de Sant’anna. O festival não existe apenas para que o público veja manifestações populares. Existe, principalmente, para que os grupos se vejam, se reconheçam, comparem experiências, aprendam uns com os outros e percebam que suas tradições fazem parte de algo maior. Quando isso acontece, a festa deixa de ser vitrine e se transforma em congraçamento.

A ESCOLA CONTINUA SENDO UM CAMINHO

As visitas às escolas merecem atenção especial. Elas recolocam o Fefol em contato com sua origem pedagógica. A criança que recebe um grupo de outro estado, escuta uma música diferente, vê uma dança desconhecida ou conversa com participantes de uma manifestação popular talvez não entenda toda a dimensão daquele momento. Mas leva uma lembrança. E a cultura também se preserva assim: por encantamento, presença e memória.

Essa ligação com a educação precisa ser fortalecida. O Fefol será tanto mais importante quanto mais conseguir formar público, despertar interesse e mostrar às novas gerações que folclore não é peça de museu. É vida em movimento. É o Brasil se apresentando por meio de seus próprios grupos, mestres, brincantes, músicos, dançadores e guardiões.

O RUMO É BOM, MAS EXIGE CUIDADO

Dizer que Sant’anna ficaria satisfeito com o rumo da festa não significa dizer que tudo está resolvido. Um projeto cultural desse tamanho exige cuidado permanente. É preciso garantir boa recepção aos grupos, programação consistente, respeito às manifestações, espaço para pesquisa, atividades educativas, estrutura adequada e continuidade ao longo do ano.

O Fefol está crescendo. Isso é positivo. Mas o crescimento só será fiel ao mestre se fortalecer o objetivo maior da festa. O festival não pode virar apenas atração turística, palco político ou evento de entretenimento. Precisa continuar sendo o ponto de encontro da cultura popular do Brasil, onde cada grupo chega com sua identidade e sai mais fortalecido pela convivência com os demais.

O LEGADO ESTÁ NO CAMINHO, NÃO SÓ NO NOME

O nome de José Sant’anna no recinto é uma homenagem justa. Mas homenagem maior é manter vivo o sentido de sua obra. E a 62ª edição mostrou que esse sentido ainda pulsa quando os grupos ocupam Olímpia por nove dias, quando a cultura popular entra nas escolas, quando as ruas recebem desfiles, quando os seminários promovem reflexão e quando participantes de regiões diferentes trocam informações entre si.

Se estivesse vivo, Sant’anna talvez olhasse para o festival com alegria e também com exigência. Alegria por ver sua semente transformada em referência nacional. Exigência porque quem cria uma obra dessa grandeza sabe que ela precisa ser cuidada todos os anos. O Fefol parece estar tomando o rumo certo: crescer sem abandonar sua alma. Enquanto isso acontecer, o sonho do professor continuará vivo, não apenas na memória, mas na própria movimentação da festa.

Zé da Festa deve estar Feliz.

 

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