27 de setembro | 2026

A morte de Luiz Otávio precisa ser esclarecida até o último detalhe

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A apuração não deve partir de condenações antecipadas, mas precisa reconstruir toda a trajetória do menino de 6 anos, do primeiro atendimento à transferência para Barretos.
Ao mesmo tempo, as reclamações que vieram à tona sobre a UPA não podem ser simplesmente ignoradas. Ampliar o prédio, como anunciado, terá pouco efeito se a qualidade do atendimento, a capacidade de diagnóstico e o acesso aos exames não avançarem junto.

José Antônio Arantes

A morte de uma criança de 6 anos não pode terminar em uma nota de pesar, algumas explicações genéricas e, depois de alguns dias, no esquecimento. Luiz Otávio passou pela UPA de Olímpia, apresentava alterações graves, foi transferido para Barretos, permaneceu sob cuidados intensivos e morreu. A causa da morte e os procedimentos adotados ainda serão apurados. É exatamente essa apuração que agora precisa ser feita com profundidade, serenidade e absoluta transparência.

Não se trata de procurar antecipadamente um culpado. Também não se trata de condenar médicos, enfermeiros ou a administração municipal sem conhecer prontuários, exames e toda a sequência dos fatos. Trata-se de algo muito mais elementar: descobrir exatamente o que aconteceu. Qual era o quadro da criança quando chegou? Qual foi a classificação de risco? Que exames foram pedidos? Quais foram realizados? Quais medicamentos foram administrados? Houve mudança do quadro? Quando se decidiu pela transferência? Quanto tempo ela demorou? Em que condições o menino chegou a Barretos? São perguntas que merecem respostas documentadas.

APURAR NÃO É CONDENAR

Uma investigação séria protege todos os lados. Se o atendimento foi correto e todas as providências possíveis foram tomadas, isso precisa ficar demonstrado. Se houve falha, demora, avaliação inadequada, dificuldade de acesso a exames ou problema estrutural, isso também precisa ser reconhecido. A pior resposta possível seria transformar a tragédia numa disputa de versões em que cada lado tenta apenas defender a própria imagem.

A administração municipal já informou que tudo será apurado. É o mínimo esperado, mas agora será necessário transformar essa promessa em esclarecimento concreto. A família tem direito às respostas. Os profissionais que atenderam a criança também têm direito a uma análise técnica, e não a acusações baseadas exclusivamente em comentários de internet. E a população precisa saber se existe alguma fragilidade no sistema que possa colocar outros pacientes em risco.

UMA UPA MAIOR PRECISA SER UMA UPA MELHOR

O episódio ocorre justamente quando se anuncia a ampliação da UPA de Olímpia. Ampliar uma unidade de saúde pode ser necessário. Mais espaço, melhores instalações, novas salas e estrutura adequada ajudam. Mas saúde não se mede apenas em metros quadrados. Uma UPA maior não será necessariamente uma UPA melhor se o paciente continuar enfrentando problemas de triagem, demora, diagnóstico, exames ou encaminhamento.

Parede nova não substitui médico. Sala nova não substitui exame. Fachada melhor não substitui diagnóstico. E prédio ampliado não resolve, por si só, aquilo que o usuário considera deficiente no atendimento. A expansão física somente terá pleno sentido se vier acompanhada de uma revisão dos processos internos, protocolos, recursos humanos, equipamentos e capacidade de investigação clínica.

E OS EXAMES?

Há ainda uma questão que precisa ser enfrentada com clareza. Circulam informações extraoficiais, que precisam ser confirmadas ou desmentidas pela Prefeitura, de que determinados exames na UPA estariam sendo restringidos ou até “vetados”. Não se pode publicar isso como fato enquanto não houver comprovação. Mas justamente por se tratar de uma informação grave, ela não pode ser simplesmente ignorada.

A Prefeitura deveria esclarecer objetivamente quais exames a UPA realiza atualmente, quais deixaram eventualmente de ser feitos, em quais situações podem ser solicitados, quem estabelece esses critérios e se existe alguma orientação para redução de pedidos. Se não existe qualquer restrição, que isso seja demonstrado. Se existe, é necessário explicar tecnicamente por quê. E, sobretudo, garantir que nenhuma política de contenção de custos se sobreponha à necessidade clínica do paciente.

DIAGNÓSTICO NÃO PODE SER LUXO

Exames não devem ser pedidos indiscriminadamente, é verdade. Medicina não funciona pela lógica de que quanto mais exames, melhor. Mas o extremo oposto também seria perigoso. Quando existem sinais clínicos que justificam investigação, o profissional precisa ter condições de solicitar aquilo que considera necessário para chegar ao diagnóstico.

Uma mãe que comentou a repercussão da morte de Luiz Otávio relatou ter levado anteriormente uma filha à UPA com febre elevada e muita prostração e afirmou que, somente após nova cobrança, teriam sido realizados exames. Em outra situação relatou divergência entre uma avaliação feita em Olímpia e exames posteriores realizados em Barretos. Trata-se de relato pessoal, que não comprova falha da UPA nem tem relação demonstrada com o caso de Luiz Otávio, mas é mais um sinal de que existe uma percepção de insegurança entre alguns usuários.

RECLAMAÇÕES NÃO PODEM SER DESCARTADAS

Outros comentários reunidos depois da morte também mostram esse desconforto. Uma moradora chegou a escrever que, a cada dia, sente mais medo da UPA. Evidentemente, rede social não é auditoria médica. Comentários não substituem prontuários e experiências individuais não permitem afirmar que toda a unidade funciona mal. Mas quando reclamações semelhantes começam a aparecer repetidamente, o poder público deveria enxergá-las como informação a ser investigada, e não simplesmente como ataques a serem rebatidos.

Talvez algumas reclamações sejam injustas. Outras podem decorrer da incompreensão sobre classificação de risco, protocolos ou limitações próprias de uma UPA. Mas outras podem revelar problemas reais. A única maneira de separar uma coisa da outra é ouvir os usuários, conferir os casos, analisar indicadores e tornar os resultados públicos.

A MELHOR RESPOSTA É A TRANSPARÊNCIA

A morte de Luiz Otávio não pode ser usada para condenar antecipadamente profissionais que ainda nem tiveram sua atuação tecnicamente analisada. Mas também não pode servir apenas para manifestações de solidariedade seguidas do tradicional “tudo será apurado”, sem que a população saiba depois o resultado dessa apuração.

Que sejam analisados os prontuários, horários, exames, medicamentos, avaliações médicas, decisão de transferência e condições em que a criança chegou a Barretos. E que, ao final, se explique claramente o que aconteceu. Se nada poderia ter sido feito de maneira diferente, que isso seja demonstrado. Se algo falhou, que seja corrigido.

A anunciada ampliação da UPA pode ser importante para Olímpia. Mas talvez esta tragédia esteja mostrando que a discussão precisa ir muito além da obra. Não basta ampliar a UPA; é necessário aumentar a confiança na UPA. Isso significa atendimento qualificado, diagnóstico seguro, exames disponíveis quando clinicamente indicados, equipamentos adequados, profissionais respaldados e pacientes respeitados.

E, neste momento, significa principalmente uma coisa: não deixar nenhuma pergunta sobre a morte de uma criança de 6 anos sem resposta.

 

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